“Atypical” e o que não se sabe sobre autismo

A série de TV “Atypical” está atraindo olhares dos telespectadores ao tratar do cotidiano da vida de Sam Gardner, jovem de 18 anos que está no espectro do autismo e tem alta funcionalidade, e problemas como qualquer adolescente.

Sam é um adolescente que possui uma forma de autismo antigamente chamada de Síndrome de Asperger (hoje classificada dentro do transtorno do espectro autista), na qual a dificuldade de interação social e os interesses excêntricos não impedem o desenvolvimento de comunicação verbal e inteligência normais. Sam tem um cotidiano comum: tem um emprego em uma loja de eletrônicos, estuda em uma escola e sofre bullying, tem curiosidades sobre sexualidade e um amigo engraçado que tenta lhe dar conselhos – a maioria das vezes não tão úteis.

Durante muito tempo só se conhecia um tipo de autismo, se acreditava que todas as pessoas que possuíam esse distúrbio neurológico tinham as mesmas características e sintomas. Recentemente, os cientistas descobriram em suas pesquisas que muitos pacientes diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA), na realidade possuem a Síndrome de Asperg. Esse resultado ajudou muitas pessoas, as quais os médicos diagnosticavam estar no espectro mas não se encaixavam diretamente com o quadro de um autista. Ampliar o entendimento científico sobre o autismo é abrir também um debate sobre essa síndrome que é uma incógnita para muitos.

A forma inédita de Sam lidar com as situações do seu cotidiano, que acontecem com maioria dos adolescentes na sua idade, faz refletir sobre ações vistas tão usuais que nunca se quer são questionadas. Como por exemplo, reagir aos impulsos da paixão, ao levar flores e chocolate para a pessoa que gosta. Mesmo sendo sua psicóloga. Ou até mesmo coisas tão simples para o resto do mundo, como comer com talhares, é questionado por Sam. O que o torna um personagem ímpar, original e inesperado. Transmite ao espectador a sensação de não saber o que esperar das decisões de Sam e de todos os outros personagens que interagem com ele.

 

 

 

     Ricardo Tramonte

 

“Fui diagnosticado tardiamente com Síndrome de Asperger, apenas em 2011, aos 31 anos. Tive tratamento psiquiátrico desde a infância, mas antes disso nenhum dos profissionais que me atenderam comentou comigo e meus pais sobre a possibilidade de eu ser autista. Minha condição já foi confundida com timidez excessiva”, conta Ricardo Tramonte em entrevista, que é um artista plástico, cartunista e caricaturista, palestrante e autor do livro ‘Humor Azul – O Lado Engraçado do Autismo’. Por causa do diagnóstico tardio, Tramonte passou toda sua adolescência sem ter conhecimento de que estava no espectro, e sem saber ainda, que possuía a Síndrome de Asperger. Teve que lidar com todas essas situações sem saber a causa das suas reações peculiares. Ele afirma que naquela época no Brasil ainda se acreditava que o único autismo existente era o clássico, no qual a pessoa não se comunica com a fala e possui a coordenação motora altamente prejudicada.

Tramonte conta também que se identificou muito com Sam em várias cenas. Principalmente na forma de lidar na questão amorosa, não compreendendo muitas das regras sociais e da sexualidade. “As cenas em que ele pesquisa técnicas de abordagem de garotas em vídeos na internet, ele tenta sorrir para uma garota e acaba fazendo uma careta, e ele se apaixona pela própria terapeuta (e, consequentemente, é rejeitado). Tudo isso já aconteceu comigo”.

Além de ressaltar os pontos altos da série, o artista plástico ressalva também o lado em que a série não trata todos os tipos de autismo, podendo dar uma impressão limitada ao telespectador. Tratando de um garoto branco, classe média, que tem um emprego e um leque de oportunidades. Caso diferente da maioria das famílias no Brasil e em outros países do mundo, conclui Ricardo. “Atypical” tenta abordar o assunto “autismo e seus aspectos”, direciona sua abordagem com um exemplo do garoto branco americano, podendo estereotipar o tema.

Há muitos prós e contras durante todo enredo da série. Altos e baixos dos personagens. Além da evolução deles enquanto a trama acontece. Não é uma série muito popular do Netflix, em comparação a series que geraram muita audiência. Por esse fato, a série traz uma camada de diálogos, que ditam o efeito de interesse na série. O ritmo, o visual e o fato de relatar realisticamente as situações embaraçosas que acontecem com os personagens. Tudo isso causa ao espectador certo estranhamento. Mas basta alguns minutos para perceber que a normalidade é questão de perspectiva.

 

Por Camila Naomi

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