Por João Guilherme Lima

O vocabulário utilizado por uma população diz muito sobre o que se pensa nela, sobre todas as suas atitudes. E o pensamento de uma sociedade que muitos classificam intolerante e preconceituosa, como a brasileira, quando transferido para as palavras, recai sobre grupos muito específicos. No Brasil, as minorias representativas são as que mais sofrem com os ecos das expressões sustentadas pela grande massa da população, expressões essas que buscam sempre desqualificar os negros, as mulheres, e os LGBT+, por exemplo.

“Lista negra”, “cara, para de ser gay”, “tem que jogar como homem” são só algumas das expressões presentes no linguajar dos brasileiros, e que por já serem comuns nas conversas, esses ditos para muitos não parecem representar ofensas quando pronunciados. Mas o fato de já estarem enraizadas na fala dos brasileiros não afasta a importância de tratar estas expressões como algo que sustenta a negatividade trazida por certos estereótipos, aqueles que dão ao gay sempre a imagem de “super sensível”, aos negros a visão de um grupo problemático e às mulheres a ideia de um gênero submisso aos homens.

Contudo, também é de se destacar que, por já fazerem parte da fala da população desde muito tempo, muitas vezes estas palavras são proferidas sem a clara intenção de ofender determinada classe ou grupo. Aí entra o papel das escolas, principalmente de apresentar em aulas como gramática e história a morfologia e o contexto em que essas palavras passaram a ser usadas. Exercitando uma mudança de pensamento logo na base da formação das pessoas, a chance de se transformar a ideia de toda uma sociedade futuramente é muito maior.

O vocabulário é uma das formas usadas para que grupos submetam outros às suas ideias atrasadas, para assim continuarem exercendo seu “poder” dentro da sociedade. Aos que lutam contra essas intolerâncias sustentadas pelo linguajar da população, a saída é buscar demonstrar o quão prejudiciais estas expressões são para os grupos a quem são destinadas, e assim substituÍ-las ou mesmo dar outro sentido para elas, um sentido que ao invés de diminuir, passe a dar um panorama positivo sobre negros, mulheres, e a comunidade LGBT+.

A homofobia no vocabulário

“Ele é gay mas nem parece. Se veste igual a todo mundo”. Com certeza você já deve ter falado e\ou escutado alguém dizer frases como esta e, provavelmente, o seu uso não foi questionado durante a conversa. Isso é grave. A questão não é apontar o dedo para alguém e dizer que tal pessoa é homofóbica ou não, e sim mostrar que o uso de algumas frases vem há muito tempo caracterizando de maneira pejorativa a orientação sexual de alguém.

Analisando a frase que iniciou este tópico, ela tem implícito um caráter excludente ao destacar que alguém não parece ser homossexual pelo fato se vestir igual ao resto das pessoas. É sugerido que o estilo de roupa usado por um gay (ou lésbica) é alheio a todos os outros utilizados por heterossexuais, caracterizando-o assim como bizarro, estranho, e não pertencente ao “padrão de normalidade” estabelecido.

Sobre este tema, tive a oportunidade de conversar com a Victória Oliveira, membra do coletivo Manas e Monas, que busca dar visibilidade ao trabalho artístico de mulheres e pessoas LGBT+. Quando questionada se a intolerância sustentada pelas palavras afeta de fato a vida de grupos marginalizados, ela respondeu que “querendo ou não, a palavra é mais um meio de segregação, e utilizar termos que esboçam preconceito é fazer com quem já sofre se sentir mais excluso, se sentir cada vez mais como um ser não pertencente”. Outra questão colocada foi a de se o comportamento das pessoas em relação ao uso destas expressões tem mudado. “Algumas pessoas têm se preocupado e se monitorado mais para não causarem mal para o próximo, pelo menos verbalmente. O que é bacana, exercita uma consciência. Tem ocorrido muitas substituições de termos e as pessoas também estão mais abertas para serem corrigidas quando o usam”, ressalta Victória.

A homofobia e as opressões com ela trazidas amparam-se nos estereótipos e na carga negativa que eles buscam dar à característica natural de uma pessoa, a homossexualidade. Ao dar um sentido positivo para as expressões homofóbicas, ou barrando-as, a homofobia perde parte da base sobre a qual se sustenta, e cada vez mais perde força na sociedade.

O machismo na boca da população

A situação da mulher no Brasil nunca foi de igualdade em comparação com a dos homens. E isso se deve a diversos fatores, desde os mais visíveis, como uma ideia de submissão que sempre pairou sobre o sexo feminino, até os aspectos mais obscuros, como na linguagem preconceituosa dissipada por toda a população. E este segundo ponto é ainda mais nocivo, uma vez que se espalha pela sociedade sem que esta perceba o quanto uma palavra pode sustentar um pensamento machista, facilitando assim a propagação de algumas intolerâncias.

A maioria destas expressões são colocadas como brincadeiras, e por isso são “suavizadas” quando proferidas por alguém (além de muitas vezes passarem desapercebidas), como no caso de “mulher no volante, perigo constante” e “já sabe cozinhar, já pode casar”. Há outras que são usadas, principalmente pelos homens, por certa ingenuidade, mas não por isso deixam de representar uma ideia preconceituosa, como em “você está brava hoje, é a TPM”, ou até mesmo quando um homem se propõe a fazer algo no lugar da mulher, “acho melhor eu fazer isso pra você”, pressupondo que ela não tem condições físicas ou mentais para realizar a ação.

Em entrevista, a Amanda Areias, fundadora da escola Voice – inglês para elas, analisou que estas expressões ainda estão tão presentes no linguajar da população por vivermos numa sociedade muito preconceituosa, e que não busca rever aquilo que fala. Amanda ainda se posicionou sobre se o uso destas frases são em sua maioria propositais ou se são utilizadas sem o conhecimento das pessoas sobre toda a sua carga negativa. “Parte desse vocabulário é utilizado propositalmente e parte é usado de forma não mal intencionada, de tão enraizadas que essas expressões já estão no nosso vocabulário. Porém, mesmo quando usadas sem más intenções, a repetição de ofensas a certa minoria reforça ideias que podem, muitas vezes, afetar o psicológico de muitas pessoas. E marginaliza-las ainda mais”. Ela completa o raciocínio dizendo que, na maior parte dos casos, as pessoas não tem noção do que estas expressões podem causar, e que como forma de combater sua utilização, a melhor forma é mostrar o porquê de seu uso ser errado, além de demonstrar o quão ofensiva ela pode ser. “Quanto mais pessoas mencionarem que isso é errado, maior a consciência popular fica”.

Amanda Areias no projeto Voice-Inglês para elas Fonte: Portal R7

O machismo está presente em todos os locais da sociedade, desde as escolas, passando pelos locais de trabalho, e chegando até os ambientes esportivos, e é no vocabulário de uma população que ele encontra maior facilidade para se propagar. Colocado isso, nos resta buscar limitar ao máximo o uso de expressões que têm como objetivo (mesmo que implícito) desqualificar o sexo feminino, principalmente nos ambientes que mais movem as massas, como no caso do futebolístico no Brasil.

A subvalorização do negro através do linguajar

O Brasil, querendo ou não, teve parte da sua história manchada pelos mais de trezentos anos de escravidão, até a assinatura da Lei Áurea, que em tese liberaria todos os que viviam na condição de escravos em terras brasileiras. Em tese. Muitos dos descendentes dos cidadãos que foram escravizados ainda vivem em condições subumanas, e o racismo continua refletindo o pensamento da sociedade do período da escravidão de diversas maneiras, seja com a ausência de negros em cargos de decisões, como no legislativo e executivo, seja com um vocabulário que exprime este preconceito.

Muitas expressões utilizadas pela sociedade desvalorizam a população negra, buscando sempre dar uma conotação negativa a palavras que tem um significado oposto, como no caso de “denegrir”. Esta palavra, denotativamente, significa tornar negro. Contudo, devido a toda a carga histórica já citada, a população a associa ao que é negativo, e espalha, às vezes sem querer, uma palavra carregada de preconceitos para todo o meio social.

Outro caso em que o linguajar abastece algum tipo de preconceito racial é no da expressão “lista negra”, que atualmente está ainda mais naturalizada por dar nome a uma série de televisão estadunidense muito popular aqui no Brasil, The Blacklist. Este termo, quando proferido, pressupõe que estar numa lista com estas características é sinônimo de ter feito algo de errado, de ter realizado uma ação que prejudicou alguém. Mais uma vez, mesmo que implicitamente, a população relaciona algo negativo aos negros.

Antonio Malachias no Prêmio Educar para Igualdade Racial e de Gênero Fonte: Pretajoia

Sobre o racismo presente no vocabulário da população, tive a oportunidade de conversar com Antonio Carlos Malachias (Billy), geógrafo que possui graduação e mestrado na USP, além de realizar diversos estudos sobre a população afro-brasileira e de atuar como professor. Ele destacou que “muitas das expressões e palavras empregadas de forma natural, consciente e inconscientemente, pela população, carregam em si uma carga racista, estereotipada e valorativa da presença das pessoas diferentes, sejam elas negras, indígenas, mulheres, etc”. O geógrafo também citou o caso do jornalista William Waack, que justificou o uso negativo da frase “tinha que ser preto” com o argumento de que foi uma brincadeira.

Billy ainda atentou para o fato de que quando uma pessoa negra se posiciona frente a uma expressão racista, ela é vista como vitimista, alertando em seguida que “as pessoas precisam se desvencilhar das estruturas mentais racistas que formam a sociedade brasileira”. Antonio Malachias também ressaltou a importância de uma mobilização conjunta de todos os grupos da sociedade, para que assim haja uma correção do vocabulário intolerante que, infelizmente, já faz parte da população brasileira. “O impacto de uma pessoa branca falar para outra pessoa branca que a expressão é racista, é tão forte quanto o de uma pessoa negra falar”.

O poeta Sérgio Vaz dá um bom exemplo de como reagir a estes preconceitos ao escrever o poema Magia Negra, onde inverte os valores estabelecidos sobre esta expressão. “Magia Negra era o Pelé jogando, Cartola compondo, Milton Cantando.” E é este um dos caminhos que todos devemos seguir, com o intuito de barrar do vocabulário da população as palavras que desqualificam as minorias representativas, para que quem sabe, num futuro próximo, os muros erguidos pelas intolerâncias sejam derrubados por um novo linguajar da sociedade.

A música como protagonista

A cultura de uma sociedade também traz à tona os ideais presentes nela, e a música, por conseguir alcançar todos os setores e classes sociais, passa ser um importante meio de propagação de todos os tipos de ideologias. Seja através de versos politizados ou somente por trazer um “refrão chiclete”, as canções estão sempre na boca do povo, e também tem o poder de transmitir os preconceitos de uma população.

Algumas músicas brasileiras que por muito tempo estiveram entre as mais tocadas, agora são contestadas em muitas esferas da sociedade por conta de o seu conteúdo propagar alguns tipos de intolerâncias, como a homofobia e o machismo. É o caso da marchinha “Maria Sapatão”, que quase sempre era cantada pelo icônico apresentador Chacrinha em seu programa na Rede Globo, chamado Cassino do Chacrinha. “Maria Sapatão, de dia é Maria, de noite é João”. Este é o refrão da marchinha que, além de ser ouvida sempre no programa de televisão já citado, posteriormente ganhou as ruas durante o carnaval aqui no Brasil, logo, este preconceito contra os homossexuais, que por muitos passou despercebido, foi espalhado pela população.

Há alguns anos, esta e outras marchinhas, que no entender das autoridades e de grande parte do público propagavam algum tipo de intolerância, foram proibidas de serem cantadas nos blocos de rua dos carnavais. Outra música, essa mais atual, que ganhou muita repercussão por entenderem que ela contém em sua letra conteúdo preconceituoso, foi do cantor de samba e pagode Péricles. Na letra da música “Se eu largar o freio”, o artista, que ficou muito conhecido por integrar o grupo de pagode Exaltasamba, é acusado de colocar alguns versos machistas na canção.

A seguir, um trecho da música destacada:

“A pia tá cheia de louça,
O banheiro parece que é de botequim
A roupa toda amarrotada
E você nem parece que gosta de mim
A casa tá desarrumada
Nenhuma vassoura tu passa no chão
Meus dedos estão se colando
De tanta gordura que tem no fogão”.

Em relação a esta música, não houve um maior movimento de resistência contra a sua circulação, e sim comentários sobre o seu conteúdo classificado como preconceituoso. Contudo, também da música conseguimos obter alguns exemplos de resistência frente às intolerâncias, como podemos escutar na música “A coisa tá preta”, do rapper brasileiro Rincon Sapiência. “Se eu te falar que a coisa tá preta, a coisa tá boa, pode acreditar”, canta o artista crescido na periferia da zona leste de São paulo. Ele, neste rap, busca sempre contrariar atitudes e expressões que geralmente desqualificam a população negra.

Quem também apresenta resistência em suas músicas contra o preconceito é a cantora Pitty, como podemos observar na letra da música “Desconstruindo Amélia”. “Já não quer ser o outro, hoje ela é um também”. Neste rock, a cantora conta a história de uma mulher que passou a não mais aceitar a submissão, que lhe era ensinada desde os primeiros anos de sua educação.

São alguns exemplos de que a cultura, através da música (mas não só), pode carregar e transmitir uma carga social muito grande para as populações. Além disso, são exemplos de como os mais diversos preconceitos estão presentes no linguajar das sociedades, mas que existem na mesma proporção ações que visam acabar com as intolerâncias sustentadas pelo vocabulário de uma população.

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