Uma das moradias dos indígenas

Uma das moradias dos indígenas

Por Clara Peduto

Uma sociedade em que o objetivo é literalmente viver. Onde planos pro futuro nunca são elaborados e todas as decisões são feitas dependendo de como está o tempo naquele dia. Viver no momento presente é o lema, de modo que nenhuma expectativa ou frustração é criada. Essa seria a ideologia do livro famoso de Eckhart Tolle, chamado “O Poder do Agora”. É praticamente o estilo de vida que a maioria dos brasileiros -principalmente os que vivem em meio urbano- almejam. Acredite ou não, essa realidade existe.


Localizada no Pico do Jaraguá, em São Paulo, a aldeia Tekoa Itakupe já teve seu território reduzido pelo governo de 500  para apenas 2 hectares -mais ou menos dois campos de futebol. Foi um período difícil para os índios – acostumados um dia com o Brasil inteiro só pra eles. Entretanto, o grupo não aceitou e nem se calou diante da diminuição do espaço onde viviam. Foram à Avenida Paulista protestar e reconquistaram a terra, atualmente protegida. Nesse ano de 2018, na Virada Cultural, uma das representantes da aldeia do Pico do Jaraguá foi chamada ao palco pelo vocalista da banda RZO para se pronunciar sobre seus direitos e também reivindicá-los. O cantor, junto com a índia, falaram sobre as injustiças que o governo comete em relação à terra dos nativos.

 

A honra, para eles, é o maior valor. “Nunca iremos escapar da guerra. Somos preparados para morrer mas não para desistir.” -Pajé Pedro

O líder religioso da tribo, Pajé Pedro, diz que nunca entenderá os políticos. Para ele, nenhum ser humano pode se apossar de um presente que foi entregue por Deus para todos. “Todos deveriam usar e respeitar o bem comum”, afirma, num tom desolado. Na cultura indígena, tudo deve ser compartilhado. Seguindo esse raciocínio, Pedro fala sobre o conhecimento: “Todos devem ter o poder do saber. Não é porque sou pajé que devo ter todas as informações só pra mim. Todos devem ter os mesmos direitos.”


Tekoa Itakupe sempre passou por dificuldades em termos de saúde e infraestrutura. Além da falta de energia elétrica e saneamento básico, a comida não era suficiente. A aldeia se mantém apenas de doações, do plantio, pescaria e artesanato que vendem. Inclusive as moradias, até mesmo móveis e alguns objetos nelas encontrados são construídos pelos índios a partir do que encontram na natureza, como bambu.


Voluntários de uma ONG chamada “Base Colabora
tiva”, localizada no Jardim Paulista-SP, se ofereceram para ajudar os moradores. Hugo Kovac, líder do “Projeto Abacaxi”, conta que assim que perguntaram aos indígenas como poderiam começar os ajudando, eles responderam que a única maneira era construindo uma casa de reza, para que o pajé abençoasse o local. Se isso não fosse feito, acreditavam que o local não se desenvolveria e nada iria melhorar.


A religiosidade dos indígenas é grande; Pajé Pedro relatou que, em sua cultura, a natureza é uma divindade sagrada, que pode ser comparada a Deus; por isso, deve ser respeitada e contemplada. Outra de suas crenças é que a realidade e o sonho não são totalmente diferentes. Para a comunidade, um sempre vai ter ligação com o outro. “Todo o sonho se remete à realidade”, afirma. Foi dessa forma que o líder religioso descobriu que seria pajé. Assim como todas as coisas do Universo, o trabalho e a arte também estão interligados, porque tudo o que fazem e como fazem representam o que realmente são. Segundo o pajé, todos os dias eles acordam e agradecem a Deus por tudo que eles têm, demonstrando a gratidão também com danças e rituais.


Qualquer um que visitar a aldeia notará a naturalidade com que tudo é tratado na tribo. Como se a paz fosse intrínseca ao índio, seu instinto nunca é censurado. Não há qualquer tabu ou julgamento. Sua simplicidade talvez seja o maior segredo para a felicidade que emana. Lá, o respeito, amor e generosidade resistem. E inspiram.

 

 

QUER CONHECER TEKOA ITAKUPE?

A ONG realiza eventos para visitas à tribo de tempos em tempos para quem também tem desejo de entrar em contato com a cultura de nossos antepassados. Eles cobram uma taxa que é revertida 100% à aldeia. O nome do projeto é “Abacaxi” pelo fato de compararem a fruta de casca grossa com os problemas, já que ambos devem ser “descascados” aos poucos, para que se chegue no produto final -e na solução. Criada em 2010, a Base Colaborativa realiza projetos, grupos de estudos e  bate papos com o objetivo de despertar consciência coletiva e influenciar o mundo de forma positiva. Acesse o site para saber mais https://www.basecolaborativa.org/.

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