Prédios de SP estampam vozes da periferia

Por Giulia Ragusa

 

Quase todas as manchetes de abril mostravam o Pátio do Colégio com a pixação monumental que amanheceu estampada na sua fachada frontal. Os comentários sobre o “ato de vandalismo” eram a pior parte, pois seus autores, considerados “marginais” foram alvo de insultos diversos e de perseguição durante toda a semana do ocorrido.

No meio de todo o escarcéu que os padres e os cidadãos de bem fizeram, a prefeitura tomou as providências para a remoção da pixação, e a polícia para a punição dos envolvidos. As identidades foram reveladas: João Prado Luís Simões França e sua mulher Isabela Tellerman Viana, que se auto intitulam como M.I.A., foram multados em R$ 10.000,00 cada.  

Dois sujeitos se arriscam indo até um marco histórico da cidade de São Paulo, uma igreja, e escrevem em letras garrafais “Olhai por nóis”, mas a única coisa que importa ainda é a punição deles. Nenhum jornalista em nenhuma grande mídia propôs uma discussão sobre o sentido da frase pixada e ninguém ficou ao menos curioso com o escrito dos pixadores. Ninguém pôde anular o fato de que a frase pixada no Pátio do Colégio foi a voz de uma minoria, que mesmo com toda a negação, esteve estampada e foi lida em todas as bancas de jornal, na primeira página de qualquer site de notícias, da maior metrópole do Brasil, naquela terça-feira, dia 10.

História do pixo

Pixo é arte de rua, é a voz da periferia, é dor de milhares de pessoas e deve ser reconhecido e entendido dessa forma. Como manifestação política, ele apareceu com força no contexto da ditadura em São Paulo, mesmo já existindo desde a pré história com os povos anglo saxões, germânicos e escandinavos, por exemplo. Frases legíveis anarquistas, que pediam por liberdade dominavam os muros da capital em 68.

O jovem de periferia trazia consigo o sentimento de descontentamento em uma sociedade ultrapassada e a constante luta por mudanças, junto com a reivindicação dos trabalhadores que almejavam poder. 

Com o surgimento do movimento punk, no começo dos anos 80, as pixações começaram a tomar a forma atual. As capas dos discos do Iron Maiden e Metallica inspirou os “povos bárbaros” de SP, que criaram suas marcas. O precursor foi o dono de um canil, conhecido por CÃO FILA, que vendia seus cachorros da raça Fila Brasileiro, no km 26, resolveu fazer propaganda pixando postes, muros, margens de rodovias etc. Seguido por JUNECA, BILÃO E PESSOINHA.

DI, TCHENTCHO E XUIM competiam entre si e foram os pioneiros e fizeram de 1985 o auge da pixação na capital. A partir desse ano, no governo de Jânio Quadros, os pixadores eram oficialmente considerados marginais e começaram a ser perseguidos.

 

Di no topo | Foto: Rafael Prado

Edmilson Macena de Oliveira nascido na Vila dos Remédios foi o maior pixador que São Paulo já teve, até hoje. Mais conhecido como DI, ele chegou a deixar sua marca na mansão da família Matarazzo, Bienal de Arte de SP e até no conjunto nacional, um dos prédios mais cobiçados de São Paulo, na década de 90. Episódio esse que ficou famoso, pois ele mesmo informou o jornal da cidade, se passando por um morador. Foi assassinado em uma briga de bar em 97, aos 22 anos, e se tornou uma lenda e uma inspiração pra todo mundo que começa na pixação, até hoje.

 

RGS e OS MAIS IM

RGS 1º andar pixo por Telo | Foto: Rafael Prado

“Os Registradores do Código Penal” e “Os Mais Imundos” são duas grifes históricas na pixação de São Paulo. Com 27 e 30 anos, respectivamente, eles deixaram seu legado, com prédios inteiros pixados, em vários lugares diferentes. No entanto, a década de 90 foi o período com o maior número de boletins de ocorrências envolvendo brigas e mortes.

A última pancadaria foi registrada em 2008, e a briga cessou por conta do crime organizado que se formava nas favelas da grande capital, que impedia os pixadores de dominarem.

As regras para fazer parte da grife eram claras. O que valia era a linha de conduta do novo membro, que tinha alguns meses para aguentar a pressão e mostrar compromisso como não roubar trabalhador, pedestre ou praticar qualquer coisa que era mal vista pelos pixadores que compunham a grife.

Entrevista com pixador Renato Cabral

 

Natos | Renato Cabral

 

AGEMT: Quando você começou a pixar? Conta melhor como foi isso.

RC: Eu sou de Minas Gerais e quando eu era pequeno, antes dos 10 anos, eu passava as férias em Santo André porque minha família inteira é de lá. Então comecei a me ligar que o meu primo pixava e é aquele negócio de referência e tudo mais. Eu achava ele o máximo (risos) e comecei a me interessar pelo movimento e a entender tipografia e tudo mais. Em 2000 eu me mudei para Santo André e comecei bem inocente riscando a vizinhança de giz de cera e com 15 anos (2005) peguei em uma lata de spray e não parei mais. A época que eu mais pixei foi em 2007 a 2010, eu me joguei mesmo nesse mundo e andava a cidade inteira deixando minha marca (ja morando em Santo André).
Depois de 2010 eu me dediquei ao bomb uma vertente do graffiti. e estou até hoje em dia nesse vídeo *Graffiti destroyd my life*.

AGEMT: Quais modalidades já pixou? Qual você gostou mais?

RC: Eu já pixei muito chão de prédio (mas não escalada por fora, não tenho coragem), eu falo prédio de cima pra baixo “descer o rolo” entende? Gostava mais de pixar beiral e janela fácil de subir. Hoje como faço bomb gosto de pintar portas de aço, vidros, outdoors e trens, cargueiros e passageiros também, mas não me limito só a bomb, gosto de bomb, grapixo que são pichações com cor sombra e detalhes, gosto de pixar com extintores e também às vezes ainda faço uns pixos convencionais com spray e tags com squeeze, canetões e tudo mais.

AGEMT: Qual pixador te inspira?

RC: os que mais me inspiraram e inspiram até hoje são o GUEDES do OSCURURU, ele é da minha ciadade e atualmente continua na ativa e destruindo. JETS ald me inspirou muito também e foi morto por policiais em um role de pixação na Mooca, foi uma tremenda sacanagem matar eles porque estavam pixando. Saiu na mídia e como de costume encobriram tudo e os policiais não foram punidos. Disseram até que eles estavam armados, só se for de spray, né!

Bomb Natos | Renato Cabral

 

AGEMT: Você grafita também?

RC: Bomb na gringa é trhow-up que significa VÔMITO. É um graffiti feito bem rápido e sem autorização (às vezes demora dependendo do tamanho que você quer fazer, mas o espírito é a ilegalidade e a subversão). Agente escolhe o lugar, joga um fundo, um contorno, uma sombra, algum detalhe e vaza!

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