CCBB mostra “Ex Africa” como parte da cultura brasileira

 

“Ex Africa”.                                                                                                 Foto: Victor Félix

Por Victor Félix

O Brasil é o País da miscigenação. É o País da diversidade, da mistura, da diferença. Somos um povo formado pela união de três raças: brancos, negros e indígenas. Os europeus trouxeram escravos da África para trabalharem aqui, de forma desumana e miserável. Com a enxada na mão, vinte e quatro horas por dia, sem remuneração, submetidos a condições extremamente desfavoráveis de trabalho, como o perigo do manuseio dos instrumentos, má alimentação, desidratação, entre outros. Além disso, se fizessem algo de errado ou que fosse contra o que seus mestres queriam, eram torturados, castigados e até assassinados.

Apesar de essa realidade fazer parte da história dos africanos aqui no Brasil, muitos dos seus costumes foram integrados à cultura brasileira que conhecemos hoje. Na culinária, é possível citar pratos típicos como acarajé, vatapá e a famosa feijoada, talvez o maior símbolo da culinária brasileira. No que se refere à música, o samba foi uma das maiores heranças dos escravos africanos. A capoeira e os instrumentos como o berimbau também fazem parte dos costumes brasileiros. Na religião, o Candomblé possui muitos seguidores no país.

Logo, é extremamente importante conhecermos a cultura africana, pois esta foi uma das formadoras da cultura brasileira, do que entendemos por “ser brasileiro” na atualidade. Com isso em mente, a exposição “Ex Africa”, que se encontra, localizada no Centro Cultural Banco do Brasil, se torna uma excelente exposição para conhecer um pouco de um dos povos precursores.

O nome da exposição “Ex Africa” se refere à uma frase do escritor Caio Plínio Segundo, de dois mil anos atrás: “Ex Africa semper aliquid novi” (da África sempre há novidades a reportar). A exposição traz uma série de obras de artistas africanos contemporâneos, mas que não são muito conhecidos no Brasil. Ao todo são dezoito artistas, vindos de oito países diferentes.

A mostra começa no quarto andar do CCBB. Primeiramente, somos apresentados a um grupo musical chamado Naijapop, formado por nigerianos que cantam música popular da Nigéria. Na sala, é possível ouvir as músicas com fone de ouvido, enquanto assiste aos videoclipes.

Videoclipes do grupo “Naijapop”.                                                              Foto: Victor Félix

No terceiro andar entramos numa sala cheia de objetos quebrados e fragmentados, como se fizessem parte de ruínas. Esta obra é do artista egípcio Youssef Limoud, onde objetos que fizeram parte do cotidiano das pessoas são destruídos, quebrados. Isso é uma crítica à violência do homem em guerras e conflitos. Os objetos quebrados são reflexo e consequência da ação dos homens. O artista se inspirou nas ruínas de cidades após a Primavera Árabe, que atingiu parte de seu país natal, o Egito.

“Maqam” – Youssef Limoud.                                                                       Foto: Victor Félix

Posteriormente, já no andar de baixo, somos apresentados a uma série de obras sobre escravidão. A obra “Instalação ‘Troca pela vida’” da nigeriana Ndidi Dike, é uma mesa repleta de objetos que nos remetem à escravidão. Podemos ver objetos de tortura, algemas, ferretes, braceletes, além de vários panfletos anunciando venda de escravos. Além disso, é possível se maravilhar com as lindas pinturas do afro-brasileiro Arjan Martins, nos remetendo aos navios negreiros que transportavam os escravos de um lugar a outro pelo mundo.

Sem título – Arjan Martins.                                                                           Foto: Victor Félix

No primeiro andar, o destaque fica para a genial obra do artista nigeriano Abulrazaq Awofeso, chamada “Mil homens não conseguem construir uma cidade”. São 758 pequenas esculturas de homens, feitos de madeira, de diferentes formas e cores, nos remetendo à imigração dos povos africanos de um lugar para outro em busca de melhores condições de vida e de emprego. As várias diferenças entre uma escultura e outra mostram a diversidade dos povos africanos e quando vão para outro lugar, isto fica ainda mais evidente.

“Mil homens não conseguem construir uma cidade” – Abdulrazaq Awofeso. Foto: Victor Félix

No térreo, logo na entrada vemos a obra que talvez seja o grande destaque da exposição: um imenso cubo feito de caixotes de madeira, que vai até o segundo andar, onde são colocados também jornais, sapatos, bonecas, saltos, martelos e agulhas. A obra se chama “Paraíso perdido não orientável”, do ganês Ibrahim Mahama e contou com a ajuda de várias pessoas para a sua composição, desde sapateiros que fabricaram os sapatos para a obra, até outros artistas que ajudavam Ibrahim a pensar o que adicionar ao imenso cubo de caixotes.

“Paraíso perdido não orientável” – Ibrahim Mahama .                               Foto: Victor Félix

“Ex Africa” é a maior exposição sobre arte contemporânea já realizada no Brasil. A exposição traz à tona a importância da herança africana na formação da identidade brasileira. “Muito das matrizes culturais africanas estão integradas e são a base da cultura afro-brasileira, no entanto, ainda há muito que fazer, pois só se autodenominar um país múltiplo, uma nação multicultural e/ou multiétnica não é o suficiente”, afirma a professora e historiadora do Colégio Ítaca, Cecilia Romo Jorquera. Segundo ela, é preciso reiterar a falta de direitos e oportunidades à população negra, quando se trata de uma identidade afro-brasileira. “A heterogeneidade histórico-social que compõe o nosso país nos coloca diante de uma questão que considero central, a de que nossa história política não foi e não é homogênea, no que diz respeito ao acesso a direitos. Então, a importância das culturas africanas na formação da sociedade brasileira é primordial e evidente, mas precisamos continuar a ampliar e aprimorar o debate na esfera política para que de fato possamos no debruçar na construção de uma identidade afro-brasileira”, completa a professora.

A cultura africana faz parte da nossa, portanto deveria ser devidamente valorizada pelas pessoas. A lei nº 10.639 de 2003 torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira na educação como um todo, no ensino fundamental e médio. Segundo a lei, a inclusão de temas como “o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil”, tornam-se obrigatórios. Porém, esta lei nem sempre é cumprida. Ao que parece, abordar a cultura africana nas escolas, depende da consciência e iniciativa individual de professores e docentes, que compreendem a importância de ensinar estes assuntos, conforme diz a professora Jorquera. “Efetivar a Lei no interior do cotidiano escolar não é apenas uma tarefa docente. Deve fazer parte do Projeto Político Pedagógico das instituições que, por sua vez, são o resultado dos debates e discussões teórico-metodológicos entre as equipes pedagógicas. São nesses momentos que fazemos escolhas do que ensinar, como ensinar e fundamentalmente, por que ensinar. Especificamente, no Colégio Ítaca, História e Cultura Africana estão contempladas no PPP e, portanto, nos programas dos cursos bem antes da legislação existir, por ser uma opção político-pedagógico da sua equipe que entende a importância dessa construção de dentro para fora”, diz ela.

De fato, é extremamente importante que as pessoas conheçam a cultura do próprio país. E em relação à cultura brasileira, não se pode desvinculá-la da cultura africana. “Ex Africa” é um bom lugar para começar a entender a história deste povo que contribuiu tanto para a nossa cultura. A exposição durará até dia 16 de julho, mas para descobrir e conhecer uma cultura tão ligada à nossa, não existe prazo.

 

 

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