Por Liana Ruiz

 

Cia Fusion de Danças Urbanas.                                                                    Foto: Pablo Bernardo

 

Aqueles que estavam acostumados com os movimentos sincronizados, cheios de coordenação motora e musicalidade da dança de rua, surpreenderam-se ao ver a Cia Fusion de Danças Urbanas, natural de Belo Horizonte, ir além do esperado e trazer ao palco algo cheio de história e crítica social: uma adaptação do conto homônimo de Machado de Assis, “Pai contra Mãe”, por meio da linguagem das danças urbanas. Dirigido e idealizado por Leandro Belilo e Isadora Rodrigues, o espetáculo ficou em cartaz no Sesc Belenzinho, São Paulo, de 25 a 27 de maio, tocando em feridas que quase sempre são estancadas com o silêncio e a negação: a escravidão, o racismo consequente, a violência contra mulheres e negros, o sexismo, a vaidade humana, a ânsia pelo poder e a discriminação de uma classe oprimida historicamente pelo sistema.

A obra de um dos maiores escritores brasileiros relata o sofrimento de Cândido Neves, caçador de escravos fugidos, e da escrava Arminda. Ambos se veem presos a tristes condições sociais: de uma lado existe um “homem livre” que se sente aprisionado à própria condição social e vontade de manter sua família unida; e do outro, uma mulher negra que tem sua liberdade dilacerada pelas cruéis práticas do escravismo, e que ao descobrir sua gravidez, decide fugir e procurar na clandestinidade a chance de criar seu filho liberto da ordem opressora.
Entretanto, segundo Isadora Rodrigues, o espetáculo, quando adaptado, acaba por transcender o conto, fazendo com que a história seja extremamente contemporânea. “Se a Arminda precisa fugir o tempo todo por ter pessoas atrás dela, isso acontece ainda hoje, só que com outras roupagens. A escravidão acabou até certo ponto. Será que existe liberdade de fato?”, questiona, referindo-se à crítica social que foi feita por Machado de Assis no século XIX, mas que ainda é extremamente atual e necessária de ser abordada.

Aline Mathias, Wallison Culu, Silvia Kamylla e Isagirl                             Foto: Pablo Bernardo

E foi assim, através de críticas e utilizando os estilos das danças urbanas como o Krump, o Locking, o Break, o Popping, Dancehall, o House, o Waacking, o Vogue e o Hip Hop, que 8 corpos dançantes se embebedaram da história de “Pai contra Mãe”, e emocionaram os que ali estavam presentes. Com as coxias levantadas, para dar a ideia de um submundo onde os excluídos socialmente habitam, e com uma mesa de acrílico cheia de cristais, presa ao teto por correntes de ferro, dando a impressão de flutuar no palco e estar acima dos oprimidos, a narrativa foi construída através de passos, que muito além da técnica, demonstraram uma imensurável revolta. Revolta contra aqueles que se cegam diante da violência contra mulheres e negros, da exclusão social enraizada no país e da necessidade, daqueles que estão à margem da sociedade, de estar constantemente “fugindo” e lutando pelo simples direito de ser.

E a trilha sonora utilizada acompanhou diretamente a crítica social abordada no espetáculo. Ao som do berimbau, de áudios de perseguição policial, músicas brasileiras e instrumentais, a Cia Fusion fez a cirurgia completa: abriu a ferida, remexeu-a tentando extrair seus tumores e, por fim, depois de tanta dor e sofrimento, não pode estancar a enxurrada de sangue que caiu sobre as cabeças daqueles que lutam por liberdade. Um sangue que, simbolicamente, veio direto da alta sociedade em festa que, por não se sentirem afetados pelas mazelas da discriminação, cala-se diante de todos os problemas sociais.

Todavia, “Pai contra Mãe” não se limita em apenas atingir o público. Segundo o diretor e coreógrafo Leandro, “os dois maiores desafios foram continuar sendo um espetáculo de dança de rua, mesmo que cênica, e também de trazermos de dentro de nós sensações e questões que muitas vezes nós preferimos não falar”.
Os dançarinos, quando questionados se utilizaram possíveis experiências reais de vida para suas atuações, responderam como se estivessem arrancando o curativo da ferida. “Pra mim a violência é real. Hoje eu faço com que ela seja transformada em algo positivo através da arte, mas sei que posso sair do ensaio qualquer dia e ser abordado agressivamente pelos policiais, como já aconteceu algumas vezes, pelo simples fato de eu ser negro”, diz Wallison Culu, dançarino e assistente de direção.

E quando o assunto se afunilou e foi para a violência contra mulher, Aline Mathias, uma das dançarinas do espetáculo, não pode conter as lágrimas, ao dizer que utiliza de um momento em que quase foi agredida por um homem, para dar vida ao seu personagem. “O palco é minha válvula de escape. Por mais que eu estivesse firme e forte, sem chorar, na hora em que quase fui agredida, agora é a hora pra eu sentir, extravasar e mostrar o ‘tira a mão de mim’”.

Izadora Coelho                                                                          Foto Divulgação

A Cia Fusion de Danças Urbanas, fundada em 2002, começou com uma pequena reunião de amigos que moravam nas favelas dos bairros Pompéia e Paraíso, na capital mineira, e que tinham a dança apenas como hobby. Hoje, 16 anos depois, a companhia se profissionalizou e conta com a participação de 8 integrantes que, juntos, com muita pesquisa e dedicação, conseguiram atingir um novo patamar artístico para as danças urbanas. Os ensaios e as novas criações deixaram de focar apenas na melhoria técnica de cada dançarino, para ser algo que, por meio da arte, trouxesse uma mensagem a sociedade. Sua missão, como uma companhia profissional de dança, segundo Isadora Rodrigues, é mostrar que “a dança de rua, por si só, dá conta do recado. A periferia não precisa se modificar para ocupar novos espaços”.

Depois de estrear o espetáculo em 2016, no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte, a companhia já apresentou “Pai contra Mãe” nas cidades de Ibirité, Nova Lima e Uberaba em Minas Gerais, bem como em Campo Grande, Mato Grosso. Ganhou o Prêmio Leda Maria Martins 2017, por melhor direção em produções cênicas negras e agora segue para novas produções. E para aqueles que estão se perguntando “quais serão os próximos passos da companhia de dança que começou despretensiosa e que aos poucos foi conquistando seu espaço nos grandes palcos”, pode ter certeza que inovação e desafio, com certeza, serão as palavras-chaves.

 

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