(Foto, reprodução Guilherme Maranhão)
Matheus Lopes Quirino – Colaboração com a AGEMT

Com a abertura da exposição, lotada, o  público se pôs  debruçado nos vidros  para enxergar as miúdas letras do “escrevinhador de todos”

SÃO PAULO – “’A literatura é um bem incompreensível’, há uma necessidade humana fundamental, isso é necessário à vida das pessoas (disse parafraseando a máxima de Cândido); aí o crítico literário entra em jogo na sua avaliação… a literatura pode afirmar muito além do bem e do mal […] a ideia da literatura constrói personalidades, seja com a alta literatura ou com a mais simples […]; em matéria de literatura, além de afirmar o acesso a esse meio compreensível, ele (Cândido) se contrapõe a qualquer censura ”, anunciou Celso Lafer, fazendo alusão ao legado deixado por Antônio Cândido, um dos mais respeitados literatos brasileiros do século 20.

Nascido no Rio de Janeiro, em 24 de julho de 1918, Antônio Cândido de Mello e Souza, às vésperas do seu centenário, deixou um legado indelével para a cultura brasileira a partir de seus estudos sobre literatura, arte e sociologia. Vencedor de dois prêmios Jabutis e do prêmio Camões, Cândido foi, sobretudo, poeta do amor, cultivou bons amigos e influenciou uma geração de estudantes do curso de letras da Universidade de São Paulo. Antes mesmo de se tornar professor emérito da USP, como jornalista foi pioneiro nas críticas de novos talentos. Um exímio observador da vida, ao que compete o direito à educação, sua “vertente literária” popularizou-se entre aqueles que consideram a literatura um direito de todos.

A cerimônia de abertura da Ocupação Antônio Cândido arrancou aplausos do numeroso público que lotou o anfiteatro do Itaú Cultural, na Avenida Paulista. Abrindo a Ocupação, a professora Walnice Nogueira Galvão, ex-aluna de Cândido, proferiu saudosas palavras ao mestre falecido em 12 de maio de 2017, aos 99 anos, na capital paulista.

Nos três dias de programação, circularam nas mesas, separadas por eixos temáticos, de acadêmicos e escritores como Celso Lafer, José Miguel Wisnik, Antônio Prata e Luiz Ruffatto a pessoas comuns e, no caso das filhas, intimas ao universo  de Cândido, são elas Ana Luísa, Marina e Laura de Mello e Souza, que participaram da curadoria da Ocupção. Na ponta dos diálogos, fazendo jus à voz plural que Cândido defendeu durante a atuação acadêmica dentro da literatura, a empregada doméstica Maria Azevedo Sena e Silva também teve seu espaço de fala em destaque e, inclusive, teve depoimento gravado pela equipe.

O Magnum opus do crítico literário, Formação da Literatura Brasileira, foi lembrado por amigos do escritor; o senador e atual vereador de São Paulo, Eduardo Suplicy (PT), foi um deles:

“Eu recomendo a todos visitarem a exposição, Antônio Cândido foi, sobretudo, um homem bom, um homem que queria ver um Brasil justo e democrático e ele colocava isso em tudo que ele escrevia… eu lembro de uma certa vez que ele me mandou uma carta manuscrita a meu respeito, fiquei tão comovido, eu tinha por ele uma enorme admiração, inclusive por nossas afinidades e objetivos, que ambos abraçamos igualmente”. Emocionado, Suplicy reafirmou à Reportagem a exímia militância poética (e política) de Antônio Cândido.

Após a abertura, os convidados reuniram-se todos no hall do andar térreo para, enfim, conferir a exposição, inaugurada paralelamente ao colóquio memorialístico. Com vasto acervo cedido tanto pela família quanto pelo IEB, o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo; o público, majoritariamente composto por senhoras e senhores já da terceira idade, acadêmicos, literatos, críticos, políticos e escritores, apertou-se entre as galerias e salas da Ocupação.

Ruy Ohtake, célebre arquiteto adepto do modernismo, elogiava a estética de Cândido em seus diários, enquanto conversava com algumas senhoras que esperavam os catálogos serem entregues. Já Davi Arigucci jr., referência na crítica literária brasileira passeava pela movimentação com um tímido sorriso, enquanto uma rodinha de anciãos, eloquentes, gastava o francês, claramente aportuguesado. O clima era de confraternização, alegria e nostalgia, apartando-se de um colóquio lamurioso.

Antônio Cândido, obviamente, foi a palavra da noite. Além dos já bem sabidos sobre a vida e obra do crítico, não muito disperso do burburinho composto por “cabeças brancas”, um grupo de estudantes de letras da FFLCH USP, tímidos, destoava do quórum presente, não menos instigados e dispostos a conhecer os meandros da vida privada do professor.

Outro lado: Antônio

Antônio, na Ocupação, ganhou um aspecto mais humano, além das páginas de livros e tratados acadêmicos. No acervo de manuscritos originais, exemplares raros da revista Clima – que circulou no início da década de 1940 – ficam expostos junto à máquina de escrever pessoal do professor. Ladeando os diários manuscritos, algumas colunas que Antônio escrevia para a Folha da Manhã já revelavam talentos como Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, em seus primeiros livros Perto do coração selvagem e Pedra do sono, respectivamente.

Na seara da humanidade, é frisado no belíssimo catálogo da exposição a doçura da qual Antônio partilhou com os seus. Paralelamente ao ofício das letras, Antônio manteve-se presente na educação das filhas, com um incomensurável carinho pela família e por sua companheira, Gilda, falecida em 2005; até seus últimos dias, ele escreveu em seu diário anedotas de amor e de saudade à amada.

 

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