O que nos faz humanos é a morte

A efemeridade se prostra diante de um novo deus em série da HBO

À primeira vista, Westworld é mais uma série sobre robôs. Humanos, dotados da incrível capacidade de criar, tentando sempre superar a si mesmos sem perder a soberania a que estão acostumados no único planeta habitado por vida inteligente em todo o universo conhecido. Reinamos sozinhos sobre o trono da racionalidade, construído com nossos maravilhosos polegares opositores.

Por muito tempo fomos governados por deuses que criamos para explicar o que considerávamos inexplicável. Ford, um dos criadores do parque, em uma das cenas exibe o quadro de Michelangelo a uma de suas “criaturas”. A pintura em questão é A Criação de Adão. Por muito tempo, se acreditou que o quadro representava o Deus cristão concedendo a racionalidade ao homem. Ford, então, explica: “Michelangelo contou uma mentira. Demorou 500 anos para alguém notar. A forma atrás de Deus forma um cérebro humano. A mensagem era que o Dom Divino não vem de um poder maior, mas das nossas mentes”.

O homem, agora com acesso tão grande à tecnologia, reconhecendo-se como o próprio Deus, quer criar como Deus. Quer ter criaturas à sua imagem e semelhança. Assim, dois amigos, Ford e Arnold, começam a dar forma àqueles que povoariam seu mundo: Westworld. Porém, Arnold percebe em sua primeira criatura, Dolores, compreensões que iam além de sua programação. A compreensão de si mesma. Ele tentou impedir que o parque fosse aberto, inclusive fazendo com que Dolores o matasse, para mostrar que suas ações iam além do programado, que ela estava viva enfim. Albert morreu, o parque foi aberto, bilhões foram faturados. Tudo foi enterrado – literalmente, a cidade inteira onde aconteceu o assassinato foi coberta por areia.

Se mostra, então, o primeiro ponto da série: a busca pela consciência. Arnold, antes de morrer, deixou implantado no código dos robôs a sua voz, para que, com o tempo, cada um desenvolvesse então a própria voz. Algo chamado “O Labirinto”, a busca pela singularidade, onde a criatura se compreenderia como ser e faria além do que lhe fora ordenado. Dolores passa décadas percorrendo esse “labirinto”, sempre à beira da consciência e da programação. Outros robôs já haviam conseguido alcançar a compreensão, mas logo foram desligados e substituídos.

As criaturas foram feitas para agradar a seus deuses. Aí entra o segundo ponto da série: o parque revela quem são as pessoas. Dia após dia, homens percorrem o parque assassinando criaturas perfeitamente iguais a eles, porém criadas em laboratório. Apesar de existir um bordel cheio de moças dispostas a oferecer sexo fácil, eles procuram as que não querem, e as estupram, mesmo que de fora elas tenham os mesmos olhos, pele e cabelos de suas esposas, filhas e mães. Quando em família, procuram uma aventura divertida de caça ao tesouro. Quando sozinhos, realizam seus profundos sonhos de estuprar uma garota bonita enquanto ela chora, ou atirar no peito de quantos conseguir. Quanto mais sangue, melhor. O homem é um conquistador. Os próprios humanos que controlam o parque preparam as suas criaturas para que sejam estupradas e mortas. É normal. Suas criaturas foram feitas à sua imagem e semelhança, e eles brincam com elas como o deus sádico que tanto criticaram no passado. O Deus que eles mataram.

Ford passou mais de três décadas preparando o que seu amigo tentou cedo demais: levar suas criaturas à liberdade da consciência. Se os robôs conseguem sentir afeto e ódio e pensar e tomar decisões além das quais foram programados, se conseguem ser autônomos como os humanos, o que difere uns dos outros? Eu questionei algumas pessoas, e as respostas foram sempre as mesmas: o amor, o dar a vida por alguém, a capacidade de criação… Tudo isso, coisas que os robôs em Westworld, ao percorrerem o “labirinto” e alcançarem a consciência de si, também chamada de singularidade, também são capazes.

Logo, a única diferença entre um robô autônomo e consciente e um ser humano é a finitude. Dolores, plena de sua consciência, afirma ao humano William “Dizem que grandes animais vaguearam em este mundo. Grandes como montanhas. No entanto, tudo o que resta deles é osso e âmbar. O tempo desfaz até mesmo as criaturas mais poderosas. Basta olhar o que fez a você. Um dia, você vai perecer. Você vai repousar com o resto da sua espécie na terra. Seus sonhos esquecidos, seus horrores enfrentados, seus músculos se transformarão em areia, e sobre essa areia um novo Deus caminhará, um que nunca morrerá, porque este mundo não pertence a você ou às pessoas que vieram antes. Pertence a alguém que ainda está para vir.”

Deuses se levantam e criam. Assim afirma a crença em nossa época atual. Com o tempo, as criaturas os superam e matam, assim nos avisa nossa própria racionalidade. “Esses prazeres violentos têm finais violentos”

Sobre o levantar de um novo Deus, saberemos na segunda temporada.

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