A técnica tem como pretexto o seu meio. Tekné, em sua origem etimológica dos gregos, é aquilo que parte do corpo; processo corporal de experiência, individual. Também, noutro caso, estabelece relação entre o saber e a arte. Porém, em seu conceito histórico moderno, a técnica provocou um sintoma único nas transições hodiernas:

O avanço da técnica e o cientificismo circunscrito neste tema inaugurou uma espécie de messianismo tecnológico. O corpo foi dominado por mecanismos sociais cada vez mais presentes à tecnologia, entre eles, a burocracia, a automatização, as políticas globais, econômicas; e os movimentos da globalização. O mundo, então, jogado aos contínuos processos, atingiu o grau máximo de contingentes, da marginalização aos movimentos endógenos; queria tornar-se único, globalizado; paradoxalmente, separou-se em muitos. As identidades e seus fragmentos psíquicos multiplicaram-se, facetaram-se em cada reluzente reflexo pós-moderno. A tecnocracia, pouco a pouco, aveludavam os meios. O modus operandi das causas naturais, do jus naturalismo, tornavam-se obsoletos. A internet, as mudanças na esfera pública, o consumo de conteúdos, as informações, os formadores de opinião. A mídia. O mundo queria gritar, tornar-se grandioso, no ímpeto, ganhava velocidade: como a lógica do capital transmutada a uma nova variável, o súbito presente, a rapidez e o imediato.

A velocidade em sua empáfia e altivez abarcou-se da política e instituiu como objeto da tecnologia, o progresso; na ocultação das catástrofes produzidas pelos mesmos modus desta celeridade. Logo, o desenvolvimento acusado aqui é o de civilização em desenvolvimento; para isso, o caráter humano de progresso era necessário e puro à humanidade. Algo que não pudesse ser desumanizado pela técnica; mas fator preponderante e significativo para a “geração de humanidade”. Premissa essa que em senso, justamente, à sua atividade geracional e civilizatória, constataria um paradoxo; claramente auto afirmativo em negação à natureza. Logo, aquilo que é humano ao progressismo, portanto, antinatural, revela-se à humanidade, o processo de desumanização – em referencial à autonomia deliberada e em potencias de criação, certo primitivismo.

Afirma Horkheimer:

Parece que enquanto o conhecimento técnico expande o horizonte da atividade e do pensamento humanos, a autonomia do homem como indivíduo, a sua capacidade de opor resistência ao crescente mecanismo de manipulação das massas, o seu poder de imaginação e o seu juízo independente sofreram aparentemente uma redução. O avanço dos recursos técnicos de informação se acompanha de um processo de desumanização. Assim, o progresso ameaça anular o que se supõe ser o seu próprio objetivo: a idéia de homem. (Horkheimer, 2000, p. 9-10)¹

Ou seja, a tecnologia revelou-se como um mito, um processo sacralizado, onde a ideia de evolução, vital ao seu funcionamento, faz-se ao meio e o fim de sua urgência e autonomia; ou seja, paradoxalmente: o útero das catástrofes ocultadas pelo desenvolvimentismo geracional.

Concomitante a este processo, a corporeidade foi reificada lentamente, fetichizada. E se, nos paradoxos, o ideal progressista de humanidade produz a desumanização; com a velocidade não é diferente, ocorre-se a produção das catástrofes da velocidade. Os corpos políticos saltam a luz da urgência. O espaço-tempo é diminuto à locação sintética. Benjamin, ao expor em Passagens o caráter fetichista de Grandville e as exposições universais, reclama à moda e ao parâmetro corporificante das exposições, o itinerante local das “argucias teológicas”: “A moda prescreve o ritual segundo o qual o fetiche da mercadoria deseja ser adorado. […] O fetichismo subjacente ao sex appeal do inorgânico é seu nervo vital.”.

A tecnologia, então, se expande ao corpo-quase-nu para a movimentação arrojada das vestimentas – objeto cotidiano e de ampla caracterização e variância –, o corpo orgânico encontra-se ao caráter fetichista do inorgânico, visto que a produção, o trabalho e a feição social, caracterizam o caráter mitológico do que acompanha o corpo; logo, apreende-o por ajusta-lo a velocidade de produção-consumo daquilo que se segue, a mercadoria-roupa. Ou seja, a decoupage corpórea, o ato de se vestir, em trama ao corpo, revela a este, a modulação do consumo sacramental a vestimenta-mercadoria. Não é de lógica, mostrar-lhes o movimento do luxo parisiense à época, porém, explicitar a tênue linha entre o caráter simbólico do consumo para a potência criativa da técnica. Pois, como delineado, a roupa, ao adentrar a reificação perde-se o caráter lúdico que em ato, poderia “consumir” – e aqui como recriação – ao cotidiano; o exemplo mesmo poderia ser dado a linguagem, como uso habitual ou negociante, apelativo aos estrangeirismos, e a literatura em composição a forma significante dos componentes linguísticos.

Vemos, então, que a ossatura sensível aos entre planos tecnológicos – caráter mediador entre a morfose natural das matérias primas – faz-se ao elástico contingente da invisibilidade deflagradora dos processos cognitivos de produção às potencialidades criativas e caleidoscópicas da mesma linha cognitiva, outrossim, agora, criativa aos táteis movimentos producentes.

Em outras palavras isso equivale a dizer que o sujeito do conhecimento digital não pode nunca representar o sujeito do conhecimento analógico, como sabem muito bem os poetas e os artistas (…) a cisão do sujeito no sentido lacaniano é uma fonte irremediável de ansiedade só nas culturas que acreditam no digital como superior ao analógico, rechaçando toda relação recíproca de diferença. (Wilden, 1979; 61)

Logo, o tempo se estabelece em simultâneas velocidades de acordo com o manuseio tecnológico do signo proposto; assim, a velocidade tecnológica em ato de automatização e automação nas relações natureza-anti-natureza se concebem apenas como uma formalização ao modus operandi capitalista; evidentemente, real em simulacro e conteúdo existencial ao cotidiano – como exemplificado ao caráter fetichista da mercadoria em relação ao trabalho social –; porém, longe da univocidade de carregar a sistematização da verdade ao nosso continente que, em celeridade-variação-combinação, estabeleceu-se pela capacidade tradutória de sintaxes e semânticas internas. Explicativo aos dizeres de Amálio Pinheiro

Não se pode, portanto, de repente, em nome do contemporâneo, falar de velocidade ou mobilidade, sem levar em conta a especificidade daqueles lugares onde outra espécie de velocidade/mobilidade expressiva e cognitiva era desdobrada, apesar dos sistemas binários de oposição e exclusão organizados em totalidades abstratas e homogêneas. Trata-se de levar em conta, ao falar do que é contemporâneo, a grande rapidez combinatória das culturas não ortogonais e mais analógicas que digitais. (Amálio, 2013; 37)

            Ao trecho, o importante ressalte não apenas aos modos de cognição analógicos, mas a reverberação implícita de que a cultura é de grande entendimento à velocidade, como rigorosa em sua plástica amalgamada, também. Vejamos o cancioneiro popular, as festas, a tradição literária ao jornalismo, que há muito vem se perdido, e todas as monções em tessitura social à América Latina. De modo que a técnica analógica, em movimento nu ao conflito digital-virtual, enlaça-se a criação de afetos e os transformam, a mais de uma velocidade, à reprodução tecnológica de um sistema processualmente a-rizomático e de pouca variância, em algo ritmado em dança contigua entre o útil e o lúdico – e aqui, em minúcias textuais de ações cotidianas.

            Em aberta conclusão, é de suma importância estabelecer os contingentes tecnológicos que nos ordenam e reconhece-los a crítica, mas também, religa-los a mesma capacidade célere de nossa velocidade, assim como, incorpora-los ao meio vivente. A tecnologia e a técnica, ao longo do tempo, refrearam e auscultaram, a cada forma, o vivo corpo em constante flexão e inflexão a época; entre celeridades irracionais e manuseios afetuosos, totalitários ao desenvolvimento e lúdicos à cultura.

Assim, arrefecemos, em arranjo semovente, o relembrar da memória como presente-vivo às desgraças relutantes; doravante, a cotidiana recriação ao tempo presente em cada minúcia do que se foi como daquilo que será. Para não calcarmos a pele, o somente escrito de Benjamin, à barbárie: “[…] eles “devoraram” tudo, a “cultura” e os “homens” e ficaram saciados e exaustos.”5…, mas entonarmos ao movimento tecnológico a expansão rítmica através da interrogação sucinta – de Amálio – , porém amalgamada à técnica e simplicidade dos signos-vivos: “Em que medida os modos de escrever poesia, fazer arquitetura… e os modos de dizer, amar e beijar podem se modificar, tendo em vista as contribuições dessas tecnologias? Esta é a pergunta.”.

E de muito, a delicadeza astuta em caução aos dizeres de Clarice, em analogia livre – que faço – ao projetil de conhecimento técnico-cientifico, seja: daquilo que desejamos ao conhecimento, em futuro utópico-insólito ao mito do progresso; e ao antidoto, apenas, em requebrado, não entender-apenas um pouco… pois:

“Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. […] Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”

            E chegar aquilo que se sabe, em volúpia criativa de deformação aos processos cognitivos da tecnologia; fazê-la, então, das reentrâncias cotidianas, o ondulante-outro instante que não seja ao progresso, a racionalização técnica; mas a capacitação de abertura corpórea dos signos em metamorfose política às esferas publicitarias e movediças às trancas burocráticas do contemporâneo.

 Vito Antonio Antico Wirgues

HORKHEIMER, M. Eclipse da razão. São Paulo: Centauro, 2000

BENJAMIN, W. Passagens.

WILDEN, Anthony. Sistema y estructura. Madrid; Alianza, 1979

PINHEIRO, Amálio. (2013).  América latina: Barroco, Jornal e Cidade. São Paulo. Intermeios, 2013.

BENJAMIN, Walter, “Experiência e pobreza”, 1933

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