A arte da tatuagem tem história marginal que se transformou em símbolo identitário

Por Sofia Duarte

7ª edição da Tattoo Week, maior convenção de tatuagem e body piercing do Brasil, no Expo Center Norte, em São Paulo (2017) – Foto: Fotos Públicas/Rovena Rosa/Agência Brasil

Registro de uma história, de rebeldia, religiosidade, personalidade e apreciação pela arte. Esses são alguns dos significados que a tatuagem teve ao passar do tempo. Ela surgiu como forma de representar indivíduos que faziam parte da mesma tribo ou clã e para identificar grupos marginalizados, como criminosos e prisioneiros.

O registro mais antigo de uma tatuagem foi descoberto por meio do cadáver de um homem da Idade do Cobre, que tinha mais de 5 mil anos. Já no Império Romano, a pintura definitiva na pele era feita para marcar prisioneiros. Mas foi somente com os marinheiros ingleses que essa prática começou a se espalhar pelo mundo. Para eles, marcar o corpo era quase como trazer um souvenir de viagens por terras distantes, e, ao se aposentarem, abriram os primeiros estúdios de tatuagem da Inglaterra.

Logo, as tattoos começaram a se popularizar e viraram modinha em Londres, principalmente depois da invenção da máquina de tatuar por Samuel O’Reilly, em 1891. No entanto, elas ainda eram vistas como símbolo de marginalidade. Foi apenas no final do século XX que os desenhos permanentes começaram a ser considerados uma forma de expressão artística e de subjetividade.

No Brasil, o precursor da tatuagem moderna foi o dinamarquês Knuld Harald Lucky Gegersen, conhecido como Mr. Tattoo ou apenas Lucky. Ele chegou ao porto de Santos em 1959, começou a ganhar a vida tatuando, e, a partir disso, surgiram outros profissionais da área no país.

Hoje, a tatuagem já é um pouco mais bem vista socialmente. Claro, corpos inteiros marcados por desenhos ainda recebem olhares tortos e até muitos julgamentos em uma entrevista de emprego. Mas é difícil encontrar um jovem que não tenha ao menos pensando em fazer uma tatuagem.

A Revista Superinteressante organizou o 1º Censo de Tatuagem em 2014 e constatou que a maior parte dos adeptos da arte de pigmentar têm entre 19 e 25 anos, são formados no ensino superior e ganham bem. Dessa forma, o estereótipo de que “tatuado é marginal” vai, aos poucos, sendo desmistificado.

Tatuagem usando técnica handpoke – Foto: Laura Guedes

Atualmente, com os diversos estilos e técnicas aplicadas pelos profissionais, as marcas no corpo estão finalmente sendo reconhecidas como arte. Com tanta opção de profissional no mercado, cada pessoa escolhe um tatuador que a agrada tanto nas formas estéticas como no próprio estilo do desenho, que vai do pontilhismo fino e delicado ao old school com traços fortes e marcantes.

Uma técnica chamada “Handpoke”, por exemplo, ficou conhecida mais recentemente. Ela teve origem nos trabalhos japoneses e de culturas tribais e não utiliza máquina, apenas agulha e tinta. O interessante, segundo Laura Guedes, tatuadora paulistana que utiliza essa técnica [em seus desenhos] há X anos, é que o Handpoke agride menos a pele, e a tatuagem tem uma cicatrização mais rápida. O resultado pode ser diferente se comparado a um desenho feito com máquina, mas isso depende do estilo de cada profissional. Ele pode querer deixar a técnica de ponto a ponto explícita, criando um desenho mais artesanal e único, ou, então, pode deixar o mais parecido possível com uma tatuagem feita com máquina.

O significado de cada tatuagem também varia bastante. Algumas pessoas atribuem todo um sentido emocional a um desenho, enquanto outras tatuam apenas por estética. Célia Antonacci, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professora no Ceart/Udesc (Centro de Artes na Universidade do Estado de Santa Catarina), autora do livro As Nazi Tatuagens: Injúrias do Corpo Humano?, falou sobre a tatuagem e seu significado no mundo contemporâneo. “O ritual da tatuagem contemporânea surge nas vivências e experiência metropolitana modernas, marcadas pelas diferenças. São comunidades agregadas por um novo tribalismo, que não vive necessariamente uma identidade histórica de tradição, mas uma tradição histórica de marcar o corpo, tatuar-se”, afirma. Ou seja, o significado da tatuagem reflete também a cultura de um grupo, em uma determinada época, e representa uma etapa da vida individual. “Os homens registram a conquista do corpo como lugar na cultura”, afirma Célia.

Como vimos, a história da tatuagem mudou muito desde seu começo até os dias de hoje. Estamos em um período em que o indivíduo tatuado está, cada vez mais, dissociado de características negativas. No entanto, podemos perceber que a tatuagem ainda é extremamente ligada ao universo masculino. Por isso, as mulheres, apesar de estarem ganhando espaço como artistas e profissionais desse meio, ainda sofrem machismo frequentemente.

A tatuadora Laura Guedes disse que já sofreu machismo quando procurava um estúdio para tatuar. Confira o relato dela:

Portanto, ainda existe o famoso mansplaining, que acontece quando um homem tenta explicar algo óbvio a uma mulher, de forma didática, como se ela não fosse capaz de entender. Assim, fica claro que o machismo, infelizmente, ainda é uma realidade no meio da tatuagem. Porém, à medida em que as mulheres apoiam o trabalho uma das outras e passam conhecimento para tatuadoras iniciantes, vão ganhando mais espaço nesse setor artístico. Estúdios bem-sucedidos que só contratam profissionais mulheres são prova disso, e eles estão se tornando cada vez mais comuns, e atraem vários clientes que se sentem mais à vontade para tatuar com mulheres.

Enfim, desde o princípio, o corpo é um dos principais instrumentos para nos expressarmos, e a tatuagem também se tornou uma forma de expressão. Atualmente, os desenhos gravados na pele já são vistos como forma de fazer arte. Mas, agora, outras lutas surgem: a de tentarmos fazer com que pessoas tatuadas sejam bem vistas socialmente, que não sofram preconceito em uma entrevista de emprego, por exemplo, e, principalmente, a luta pela conquista do espaço das mulheres dentro do universo da tattoo.

Para saber ainda mais sobre a história da tatuagem no nosso país, confira o documentário “Do Porto à Pele: a história da tatuagem profissional no Brasil”:

 

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