Por Elaine Bertoni

Na França de De Gaulle, a população era tradicionalista, moralista e repressiva. Maio de 68 foi um grande passo à frente na democracia e no liberalismo, para a política e para a cultura. “Todas as formas de exercício autoritário de poder foram refutadas, não a autoridade mas o autoritarismo”, explica à Agence France-Presse (AFP) Henri Weber, ex-manifestante e ex-líder da Liga Comunista francesa. O capitalismo avançava, as desigualdades econômicas expunham as contradições entre as classes sociais, atreladas aos movimentos dos negros, o feminismo, a luta LGBT, as lutas dos povos indígenas.

“A expansão do capitalismo, com suas crises, tornou-se mais complexa, expondo novas correlações de forças entre capital e trabalho, expondo ainda as formas pelas quais a educação formal tem sido encampada como um corpo a corpo entre a manutenção de uma conjugação de Poder”, lembra o professor da Faculdade de Ciências Sociais da PUC SP Mauro Peron.

O movimento deu espaço também para avanços de ideologias esquerdistas, feministas, de gênero, anticonsumista, entre outras. Atingiu vários países, e no caso dos EUA, culminou com a oposição a Guerra do Vietnã. Na França teve uma importância particular com aproximadamente 8 milhões de grevistas. Enquanto isso, no Brasil, vivíamos sob governo ditatorial do General Costa e Silva, com grupos de estudantes se organizando e protestando, assim como no caso francês, levando parte deles à clandestinidade.

“Professores de segundo grau contra a repressão por uma reforma democrática da educação”

Fonte: Esquerda Diário

“Graças a Maio de 68, houve uma importante evolução do sistema universitário e pedagógico na França. Antes, as aulas eram dadas em grandes anfiteatros e somente o professor tinha palavra, depois foram introduzidas as salas menores, onde os estudantes podiam participar”, afirma socióloga Julie Pagis à AFP.

O filósofo Luc Ferry acredita que 68 preparou terreno também para o capitalismo. “O movimento não era contra a sociedade de consumo, mas a favor dela”, avalia à AFP, citando alguns dos slogans da época: “Desfrutar Sem Obstáculos”, “Sob os Paralelepípedos, a Praia”. Pagis ainda acrescenta: “Era preciso destruir os valores tradicionais para que o capitalismo globalizado florescesse”.

Há um silêncio sistemático em relação a grandes momentos da histório do país, e 1968 não foi diferente. Enquanto se vivia uma ditadura militar, revoltas estudantis também apareciam como resistência ao golpe.

Nesse contexto, as revoltas estudantis aparecem como um dos movimentos efetivos como resistência ao golpe, e paralelamente, jovens na França também se levantavam numa onda de manifestações. A história de Maio de 68 no Brasil é indissociável dessa luta que levou boa parte dos estudantes à clandestinidade. Nesse sentido, houve clara demonstração que emergia uma geração que não estava disposta a continuar sufocada.

 

“Barricadas, carros incendiados, universidades ocupadas pelos estudantes, muros tomados por pichações de palavras de ordem. Um livro mais perigoso que qualquer coquetel molotov”, do autor Erick Correa

Para um dos autores do livro “68: Como incendiar um país”, Erick Correa, para o portal IG, relembrar os acontecimentos após cinco décadas através da literatura é uma forma de lutar pela memória histórica da revolução.

Há dois aspectos originais da produção naquele momento. Um diz respeito a tática de propaganda que ultrapassou o cartaz e o panfleto. Muitos escritores recordam o chamado desvio dos quadrinhos, falas ordinárias de heróis e vilões eram substituídas por diálogos políticos.

Já o segundo é de que todas essas produções consistiam em produtos coletivos, com todo o processo de manufatura e impressão feitos coletivamente. “Portanto, a produção gráfica dos grupos mais radicais de 68 não só invadiu e ocupou o cotidiano daqueles dias com sua rebeldia e criatividade, como foi também notavelmente coerente com sua perspectiva teórica revolucionária e continua a ser uma fonte de inspiração para o presente”, explicam Correa e Maria Teresa Mhereb, a também autora do livro.

Henri Lefebvre, Guy Debord, Herbert Marcuse e Ernst Bloch: os escritores mais admirados da geração dos anos 60, ligados à tradição romântica revolucionária. Os dois primeiros mais conhecidos pelos franceses, o terceiro pelos estadunidenses e o último pelos alemães. Suas idéias se difundiram pelos países e pelas palavras de ordem e até panfletos do movimento. Ocorreu uma influência mútua de criador e espectador, num processo de reconhecimento e afinidade.

Na música, Beatles e Rolling Stones são as mais marcantes expressões de mudanças estético-políticas dessa era. A Tropicália, no Brasil, tem grande expressão musical em Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, entre outros artistas, num contexto de ditadura civil-militar.

Fonte: Actus a la Une

Três pontos são fundamentais para iniciar uma compreensão sobre os movimentos de Maio de 68: o boom demográfico do pós-guerra, que gerou uma superpopulação de jovens que a universidade era incapaz de absorver em boas condições; a passagem de uma sociedade rural a uma urbana e um crescimento econômico que a França, nem nenhuma outra sociedade ocidental experimentou.

“Tivemos um marco de leitura excessivamente determinado pelas teorias marxistas que mais ou menos tínhamos entendido, e que ocultaram o sentido do movimento e da revolta”, diz Alain Geismar, um dos três líderes universitários visíveis da época na França, para o jornal El Pais.

Outro veterano, Marc Kravetz, que tornou-se repórter do jornal Libération, afirma ao El Pais que, apesar dos participantes acolherem ideias revolucionárias mais ou menos articuladas, depois entenderam que “não se tratava disso, era simplesmente um momento de libertação”.

Dos direitos dos homossexuais à igualdade de gênero, passando por escolas e universidades mais abertas e igualitárias. Tudo isso já foi considerado, por algumas óticas, herança de Maio de 68.

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