Conflitos: Fotografia e Violência política no Brasil – Exposição evidencia a importância da imagem e desmascara a fantasia histórica de um Brasil pacífico.

Com mais de 400 fotos, a exposição em cartaz no IMS Paulista retrata a violência histórica brasileira através dos retratos de guerras, revoluções e revoltas populares.

 

Fernanda Cui e João Pedro Calachi

 

Figura 1. Claro Jansson. Guerra do Contestado: Vaqueanos da Serraria Lumber. Três Barras, SC, 1915.

Assim como textos, livros, documentos e relatos, as fotos são peças fundamentais na compreensão e dimensão dos acontecimentos históricos das sociedades. Se nas escolas brasileiras aprende-se uma versão da história pacífica e conciliadora, a exposição “Conflitos: Fotografia e violência política no Brasil – 1889 – 1964”  faz questão de desconstruir essa ideia reproduzindo e expondo a realidade de uma República violenta e bélica.

Com base no livro fotográfico da socióloga Angela Alonso, a exposição  em cartaz no IMS Paulista de 8 de maio a 29 de julho de 2018, com curadoria de Heloísa Espada, conta com um acervo de mais de 400 fotos de nomes já inscritos na história da fotografia brasileira, como Juan Gutierrez e Flávio de Barros além de inúmeros trabalhos anônimos, amadores e profissionais. Contrapondo o perfil do brasileiro cordial e moderado, os registros das imagens expostas revelam não só a realidade das revoltas populares, rebeliões, guerras civis e golpes de estado, mas também a importância das representações ilustrativas para a compreensão dos fatos históricos.

Figura 2. Affonso de Oliveira Mello. Revolução Federalista: Execução de um revoltoso. Rio Grande do Sul, 1894.

 

Desde o início da exposição, o caráter das obras fica evidente e logo na primeira imagem o visitante se depara com um homem sendo degolado durante a Revolução Federalista do Rio Grande do Sul. Com passagens por momentos marcantes como a Guerra de Canudos (1896 e 1897) que deixou cerca de 20 mil mortos no interior do Sertão Baiano, até conflitos menos citados como a tentativa de golpe militar por parte da aeronáutica em 1959, conhecida como Insurreição de Aragarças, o acervo conta com registros de farto valor para a interpretação dos acontecimentos do país, com fotos premiadas e impactantes como os trabalhos de Campanella Neto sobre a tentativa de golpe da Aeronáutica e o registro de Canudos de Flavio de Barros.

 

     Figura 3. População de mulheres e crianças presas em Canudos, em 1897. Foto de Flávio de Barros, enviado do Governo para cobrir a “vitória” do exército que deixou 20 mil mortos.

 

Com histórias de todo o Brasil, a mostra ainda retrata os principais acontecimentos dos grandes centros do país. Com fotografias até do rosto de dois amotinados na Revolta da Chibata em 1910, na qual marinheiros negros liderados por João Cândido se revoltaram e tomaram o controle de dois encouraçados novos da Marinha diante do uso de chibatadas por oficiais navais no Rio de Janeiro, a exposição é rica em detalhes não contados nos livros de história que trazem ao visitante o real aspecto dos conflitos. Em São Paulo, as principais histórias ilustradas são as revoluções de 1924, 30 e a Guerra Civil de 1932. As fotografias dos danos à cidade em 1924 – após os bombardeios na capital paulista – e as imagens das vítimas da destruição da Revolução Constitucionalista de 1932, contrastam com os retratos de soldados em poses heroicas durante o mesmo período. Ainda na mesma época, a iconografia da Revolução de 1930 vem a partir de fotos amadoras e de cartões postais, que registravam a movimentação popular e oficial ante o início da Era Vargas.

 

Figura 4. Augusto Malta. Revolta Naval (Chibata): Gregório do Nascimento e André Avelino, marinheiros amotinados. Rio de Janeiro, 26.11.191

 

Já no ano em que se completam 50 anos do AI-5 as obras que contam o Golpe Militar de 1964 não poderiam ser deixadas de lado. A exposição retrata de forma clara e coesa, o período que pôs fim a democracia, dando início a 20 anos de Ditadura. No acervo está exposta uma obra icônica de Evandro Teixeira, que confundido com um fotógrafo do exército, entrou no Forte de Copacabana na madrugada de 1° de abril e registrou os primeiros momentos do Golpe. O período que acabou com a democracia também foi escolhido para encerrar a exposição que percorre os 75 anos de República entre 1889 e 1964, reforçando o drama de quem viveu uma ditadura em tempos nos quais a sociedade carece desse saber.

 

Figura 5. Evandro Teixeira. Golpe de 1964: Tomada do forte de Copacabana. Rio de Janeiro, 01.04.1964. 

 

Dessa forma, a exposição retrata um período de transição no mundo da fotografia que possibilitou uma nova interpretação dos acontecimentos da sociedade. Com uma série de registros oficiais do governo até os anos 30, a mostra retrata na sequência dos anos, o início de fotojornalismo dos dias atuais, com enfoque em uma nova ótica. Assim, segundo a curadora Heloísa Espada, no século XIX o lugar da fotografia ainda era muito distante da denúncia do fotojornalismo e, portanto, muito do que há disponível é material oficial, que mostra apenas uma determinada narrativa. Com isso, foi a partir dos anos 1930 que a evolução das tecnologias fotográficas fizeram com que as narrativas também mudassem. Se antes as fotos eram estáticas, a partir dos anos 1930 elas passaram a focar na ação e nos diferentes pontos de vista – mesmo que, como lembra Espada, toda produção iconográfica seja carregada de intenções. Por fim, a exposição marca por criar uma nova possibilidade de se entender a história. A fotografia sai do campo teórico e chega às margens da praticidade para se contar os fatos. Com isso, o visitante passa a ter mais uma nova simbologia para compreensão dos acontecimentos históricos do país, compreendendo o caráter violento do Brasil.

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