25 de março tem recuperação lenta após recessão

Comerciantes esperam aumento de até 8% nas vendas

Por Beatriz Gimenez, Débora Bandeira e Rachel Castilho

“O tempo de agora está se abrindo mais”, afirma Nazareno Rodrigues, gerente de loja na 25 de Março, sobre a recuperação da crise. Após uma época conturbada, o comércio da região renova as forças e volta a caminhar. À frente da loja especializada em capinhas para celular Jack Celulares, o lojista presenciou tanto as épocas mais difíceis quanto a retomada do comércio popular. “Muita gente acabou fechando, correndo para outros rumos, virando empregados de terceiros, e aqueles que se mantiveram foram indo”, diz Nazareno, acrescentando que até mesmo novas lojas voltaram a surgir nos últimos meses.

A assessora-executiva da União dos Lojistas da Rua 25 de Março e Adjacências (Univinco), Cláudia Hurias, afirma que 2015 foi o ano mais difícil da crise, com uma queda de 30% nas vendas e o fechamento de várias lojas na região. No começo de 2016 o comércio local tomou fôlego e voltou a se movimentar, mas Cláudia diz não ter os dados desse aumento percentual. Entretanto informou que o faturamento em 2016 foi de R$ 13 bilhões e, em 2017, de R$ 14,5 bilhões, o que representa alta de 2,17% no resultado do ano passado. Para 2018, as previsões são positivas. “Esperamos um aumento de 6% nas vendas”, afirma a assessora.

Cada estabelecimento tem sua forma de vencer a crise. Para Nazareno, a saída foi reduzir o preço, sempre que possível, tanto no varejo como no atacado, limitando a lucratividade para manter a empresa no mercado. “Aí você vai passando pelas recessões, e assim a gente foi fazendo até chegar ao patamar de hoje”, afirmou o gerente, que adota este mesmo método desde a época do Plano Collor, quando a loja já existia na região.

A chegada da Copa do Mundo também traz esperança para muitos comerciantes. É o caso do gerente do Lojão dos Esportes, Marcelo Macena. Mesmo ainda sentindo os reflexos da crise, ele espera alta de pelo menos 20% nas vendas em relação aos dois anos anteriores. “Por mais que seja um mês só [de Copa], compensa vários meses do ano”, diz Marcelo, que já percebeu uma melhora tímida após o Carnaval. “Você vê o pessoal comprando com mais confiança na economia”, conta.

Além do setor de esportes, as lojas de fantasia também apostam na Copa do Mundo para impulsionar as vendas fora dos picos habituais, como Carnaval, Festa Junina, Halloween e Natal. De acordo com o gerente da loja Porto das Festas, Luiz Gustavo de Oliveira, os lucros durante o Mundial dependem do desempenho da seleção: “Se o time vai bem, reflete na venda”. Quanto mais próximo da data, maior é a procura por itens verde-amarelos, de camisas a artigos de decoração. “A expectativa é boa, a gente tem que ficar otimista”, afirma. Em contrapartida, Nazareno, da Jack Celulares, avalia que o horário dos jogos atrapalha as vendas na 25 de Março, por diminuir o fluxo de clientes.

Itens para Copa do Mundo na loja Porto das Festas. Foto: Beatriz Gimenez

Entretanto, nem todos estão confiantes na recuperação das vendas. Milena do Nascimento, funcionária da loja de bijuterias Larissa Bijoux, diz que o movimento permanece fraco e cita uma queda de 60% desde julho de 2017. Segundo ela, os resultados do Natal e do Carnaval foram frustrantes: mesmo com maior número de vendas, conta, as duas datas produziram um pico momentâneo e inexpressivo. Milena acrescenta que outras lojas dos mesmos donos da Larissa Bijoux fecharam devido à crise econômica ou  mudaram de ramo buscando a sobrevivência.

Lojistas dizem que, em geral, eleições têm pouca influência nas vendas da 25 de Março, mas, para o gerente da Jack Celulares, os políticos podem, sim, interferir no comércio popular de São Paulo. Marcelo, do Lojão dos Esportes, conta que os candidatos muitas vezes compram camisetas da seleção para distribuir em seu nome. Antigamente, a prática era bordar o número do partido nas peças; porém, com as restrições da atual legislação, ocorrem apenas doações que movimentam o comércio desse tipo de produto.

A 25 de Março

Com a aproximadamente 40 mil empregados, a região da 25 é composta por 16 ruas, que comportam cerca de 4,7 mil lojas, sendo 560 de rua e as outras em prédios comerciais, galerias e shoppings. O carro-chefe são as vendas de bijuteria, que representam quase 60% do comércio local.  

Segundo Milena, da Larissa Bijoux, não existe muita concorrência no ramo, porque a maioria das lojas pertence ao mesmo dono ou a sócios dele. Assim, o que  difere umas das outras são as peças que comercializam e a decoração dos estabelecimentos. Se no comércio das bijuterias a disputa não é um problema, para Nazareno, da Jack Celulares, ela é indispensável. “Se não existe concorrência, você não se aperfeiçoa”.

O maior problema enfrentado pelas lojas da região, de acordo com Luiz Gustavo, da Porto das Festas, é a insegurança. “Tem muito assalto, mas é mais na rua. Na loja, a gente tenta se precaver. Em todo lugar que tem muita multidão, você tem que estar sempre alerta com as coisas”.

No Lojão dos Esportes, o grande inimigo é outro: a pirataria. Marcelo conta que muitos consumidores são abordados na porta da loja por vendedores informais. “Por nossa loja só poder trabalhar com produtos oficiais, que são caros (uma camisa custa uns 200 reais), nosso maior problema na 25 é mesmo esse pessoal com produto falsificado. E isso é muito sério”.

Questionada sobre o assunto, a assessora da Univinco diz que não dispõe de  dados do comércio informal, porque ele vem sendo muito combatido desde 2009 e, por isso, “representa muito pouco”. Um exemplo desse combate foi a Operação Setembro, realizada pela Receita Federal no ano passado. Na ocasião, foram apreendidas cerca de 800 toneladas de mercadorias irregulares avaliadas em R$ 300 milhões, fruto de contrabando ou de falsificações. Entretanto, uma visita à região confirma o relato de Marcelo: quantidades imensas de camelôs circulam em frente aos estabelecimentos formalizados.

Apesar disso, o apelo da região é inegável. Ponto turístico para quase todos os “não paulistanos”, e às vezes até mesmo para os próprios, ela está sempre na lista de lugares a visitar na cidade de São Paulo. E é por esse motivo que tanto o Lojão dos Esportes quanto a Porto das Festas estão situadas ali. De acordo com Cláudia, o movimento da região é sempre intenso. “Recebemos diariamente 400 mil pessoas”, afirma, acrescentando que em períodos festivos, como Carnaval, Dia das Mães e Natal, esse número pode chegar a 1 milhão.

Por causa dessa movimentação, dizem os lojistas, manter o comércio na 25 compensa os pontos negativos, como o alto valor dos aluguéis dos estabelecimentos (no Lojão dos Esportes, chega a R$ 70 mil por mês).  O valor do aluguel do metro quadrado na 25 de Março é de R$ 10 mil, o mais caro de toda a cidade, ultrapassando os de outros lugares de prestígio, como a Avenida Paulista e a Oscar Freire.

Perfil do consumidor

Embora a 25 de março seja considerada, de maneira estereotipada, uma região voltada para as camadas de menor renda, a elite econômica também comparece de forma significativa, competindo, em percentual de frequência, com moradores de periferia. É o que aponta uma pesquisa realizada em novembro de 2017 pela Serasa Experian. O trabalho mostra que, naquela região da cidade, a massa trabalhadora urbana, as diversas gerações da elite e os protagonistas da nova classe média são clientes do mesmo tipo de comércio.

Os donos da rua

“Aluízio Cardoso era camelô, vendia cadeado. Na década de 1980, quando foi lançado o primeiro celular no Brasil, ele começou a comercializar capas em couro para esse aparelho”. Assim teve início a história da Jack Celulares, contada pelo gerente da loja, Nazareno Rodrigues. Ele diz que Aluízio, o antigo dono, fez parcerias com os fabricantes das capas e se estabeleceu em um box. Logo depois, foi aberta a primeira loja “AG Cardoso” nas adjacências da rua 25 de março. Com o aumento das vendas, outros dois estabelecimentos foram criados na região e, hoje, sua filha Jaqueline assumiu os negócios, alterando o nome para “Jack Celulares”.

Capinhas na Jack Celulares. Foto: Beatriz Gimenez

A atual e o antigo dono, porém, são estrangeiros dentro de seu próprio território. As trajetórias de Aluízio e Jaqueline são exceção na 25 de março. O empreendimento de mais de 20 anos de um ex-camelô brasileiro se distingue dos conglomerados sírio-libaneses e chineses que dominam a região.

João Khouri se encaixa na regra. Apesar de brasileiro, o dono do Lojão dos Esportes é detentor de parte da herança de seu pai, imigrante sírio. Gerente do estabelecimento há 18 anos, Marcelo Macena explica que, quando os negócios eram geridos pelo pai de Khouri, as bijuterias eram os produtos comercializados no local. “A loja de esportes existe há 25 anos aqui. Antes era de bijuteria, mas ele [João] mudou por influência do irmão, que abriu uma loja de artigos esportivos e, na época, dava mais lucro”, diz ele.

Lojão dos Esportes. Foto: Beatriz Gimenez

O mesmo ocorre com a maior parte dos estabelecimentos da região: imigrantes sírios-libaneses e seus descendentes movimentam o comércio local, que fundaram no final do século XIX, em meio à onda imigratória que ocorreu no Brasil após a abolição da escravidão.

Tendo saído de seus países devido a problemas religiosos e econômicos, sírios e libaneses vieram para São Paulo e adotaram o comércio como principal meio de vida. Muitos deles eram mascates, ou seja, vendiam as mercadorias de porta em porta. A opção pelo comércio se deu, em grande medida, porque os imigrantes não podiam comprar terras, já dominadas por latifundiários, e pelas  condições inóspitas de trabalho nas fazendas, o que fez com que se dirigissem para as cidades.

Segundo a dissertação de mestrado “Pelos Caminhos de São Paulo: a trajetória dos sírios e libaneses na cidade”, da pesquisadora da USP Juliana Mouawad Khouri, a facilidade de encontrar moradias com preço baixo em pensões e cortiços foi um dos principais motivos para se fixarem na região da rua 25 de março. Outro fator determinante foi o aluguel barato para estabelecer seus empreendimentos.

Além disso, a localização entre a estação ferroviária e as ruas São Bento e XV de Novembro, no centro da capital da provîncia, era estratégica, já que havia uma grande circulação de pessoas no local. Assim, os imigrantes que chegassem posteriormente também ocupariam o local, por já terem familiares na região ou se sentirem atraídos pela presença da cultura árabe, que fazia daquele miolo “um pedacinho do Oriente Médio”, como descreve Juliana.

Nesse cenário, o mercado da 25 se consolidou e ganhou força no início do século XX, produzindo um contexto favorável para a criação de alguns dos estabelecimentos entre os mais antigos do atual comércio popular do país, como a loja Doural, com 103 anos, e a Niazi Chohfi, com 91 anos. Nos dois casos, os tecidos eram o principal produto de comercialização. “Ambos eram mascates e moravam em cima de suas lojas”, conta Claudia Hurias, da Univinco.

O trabalho de mascate era visto pelos imigrantes como condição provisória. A aspiração de todos era, com o acúmulo de capital, abrir uma loja – ou, se possível, várias. Foi o que aconteceu com Assad Abdalla, fundador da Doural.

Ele veio para o Brasil em 1895, devido a dificuldades econômicas que enfrentava na Síria. Em 1905, com o dinheiro que ganhou como mascate, fundou sua primeira empresa, a Assad Abdalla & Cia, em sociedade com três parentes. Também abriu duas lojas, uma na rua 25 de março e outra na General Carneiro. De início, elas forneciam produtos para outros mascates, mas depois passaram a comercializar tecidos, ramo de menor concorrência na região.

Loja Doural, na 25 de Março. Foto: Reprodução/SPCity

A sociedade, porém, foi desfeita pelas brigas internas. Assad ficou apenas com a loja na General Carneiro. Em 1932, com conjunto com os filhos, inaugurou uma outra: a Abdalla Assad & Filhos. Após fortes chuvas na região, a prefeitura decidiu interditar o prédio em que se encontrava sua loja e, assim, o comerciante se mudou para um novo estabelecimento, novamente na 25 de março.

Após quatro anos do início da sociedade com os filhos, Abdalla decidiu expandir os negócios para além das vendas, passando a produzir tecidos na cidade de Salto, interior de São Paulo. O novo projeto obteve sucesso e Abdalla abriu uma  fábrica no bairro do Tatuapé. Nascia a Têxtil Assad Abdalla S.A, atual grupo York S.A Indústria e Comércio.

Ao mesmo tempo, o número 141 – referência à Doural e à residência da família Abdalla na 25 de março – fazia fama em todo o Brasil, pois todos os artigos vendidos estampavam os três algarismos. Até hoje, os Abdalla ocupam o mesmo local, porém a numeração foi alterada para 595. A loja, que antes vendia apenas tecidos, hoje trabalha também com artigos para casa, tapetes, cortinas e utensílios domésticos e é dirigida por Fernando e André Abdalla, netos de Abdalla Assad.

Em trajetória semelhante, Niazi Chohfi, também sírio, veio para o Brasil na virada do século XX, quando se tornou mascate, e, em 1927, abriu uma loja com seu nome. Atualmente, além de tecidos e produtos de cama, mesa e banho, o neto do fundador, Reginaldo Niazi Chohfi, ampliou os negócios para o ramo de decoração e lingeries.

Embora muitos imigrantes tenham abandonado o local em busca de novos negócios, os imóveis continuam majoritariamente em posse da família dos pioneiros. É o caso do Lojão dos Esportes. O gerente, Marcelo, conta que o espaço é alugado e o dono é libanês e primo de João Khouri, proprietário da loja. “É família, mas negócio é negócio”, diz.

Não só os estabelecimentos mais antigos e os imóveis, mas também os monopólios da 25 de Março estão nas mãos de sírio-libaneses. As quatro maiores lojas de fantasias que enfeitam a Ladeira do Porto Geral, por exemplo, pertencem ao mesmo dono: Pierre Sfeir. “Ele é libanês e está no mercado há mais de 30 anos”, diz Luis Gustavo de Oliveira, gerente de uma de suas lojas, a Porto das Festas. Aberto há seis anos, o estabelecimento pertence ao grupo Festas e Fantasias, que abrange outras três lojas do ramo.

Pierre veio para o Brasil na década de 1970 para morar com a avó por incentivo de sua mãe, que não queria que o filho prestasse serviço militar na guerra civil do Líbano. Aqui, seus tios já tinham uma loja de bijuterias na Ladeira do Porto Geral, na qual ele trabalhou por 22 anos até abrir sua primeira loja de fantasia em 1994. A inspiração veio após visitar a Disney World e querer reproduzir a magia dos personagens em fantasias, ramo ainda pouco explorado no Brasil e que hoje, principalmente com a incorporação da cultura do Halloween e o fortalecimento do Carnaval de rua paulistano, é fundamental para a região.

Se durante cerca de um século a língua árabe dominava o comércio da região, aos poucos ela foi perdendo seu caráter hegemônico e passou a dar espaço ao mandarim. Na década de 1980, os imigrantes chineses chegaram na 25 de Março, tendo como principal negócio as bijuterias e artigos de acessórios para moda feminina, como cintos, bandanas e bolsas trazidas da China. Conseguiram, até mesmo, adquirir imóveis na região.

 

A Larissa Bijoux é fruto desta imigração. “A loja vende basicamente bijuteria e acessórios e está aqui há cerca de um ano e oito meses. Os donos são chineses e têm uma rede de lojas aqui na 25. São nomes diferentes, porém do mesmo dono: Larissa, Jonalissa, Luana, Vitória… Todas com nomes femininos”, descreve Milena Nascimento, funcionária do estabelecimento.

Com a vinda massiva de chineses para o local, a abertura de galerias e shoppings populares cresceu de forma bastante acelerada. O Shopping 25 de março e o Shopping Mundo Oriental, pertencentes ao chinês Law Kin Chong, estão entre os mais lucrativos, dividindo o espaço em diversos boxes oferecidos para aluguel. Segundo apuração do jornal Folha de S. Paulo, esses shoppings faturam cerca de R$ 10 milhões com aluguel por mês.

Porém, o alto faturamento fruto de produtos feitos com mão de obra barata muitas vezes sinaliza a possibilidade de pirataria. Law Kin Chong já foi preso por contrabando, mas, como é somente dono do imóvel, afirma que não tem relação com nenhuma atitude tomada pelos inquilinos.

Tomada por estrangeiros, a rua que leva a data da promulgação da primeira Constituição do país, 25 de março de 1824, não é ligada somente à história do Brasil. A rua 25 de março e seus arredores têm muita ligação com Niazi Chohfi, Jorge Azém, Basílio Jafet, Afonso Kherlakian e Ragueb Chohfi, que hoje dão os nomes às ruas do entorno, consagrado no comércio popular não só da cidade de São Paulo, como de todo o país, mostrando a presença estrangeira em aspectos culturais brasileiros.

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