Por: Gabriela Maraccini

São Paulo recebeu, no Centro Cultural do Banco do Brasil, a 17ª edição da “Mostra do Filme Livre”, um movimento cultural relativamente antigo, mas que ainda não recebe a repercussão que merece pelos seus objetivos. A edição desse ano aconteceu do dia 22 de Março ao dia 16 de Abril, com uma programação extensa, trazendo um conjunto de filmes de produção alternativa, na maioria das vezes sem patrocínio ou uso de verbas públicas. Diante do que os produtores da mostra denominam de “urgência audiovisual”, o evento abre portas para aquelas pessoas que, iniciando ou não uma carreira cinematográfica, têm algo de interessante e bonito a dizer com seus filmes, que pretendem mexer com os espectadores pelas suas mensagens e não servir apenas de mero entretenimento.

A história da Mostra começou em 2002, quando Guilherme Whitaker, o seu idealizador, inquietou-se diante da situação do cinema brasileiro da época, já que os grandes festivais cinematográficos do Brasil não aceitavam filmes em vídeo, apenas em película. “O resultado dessa imposição da película é a transformação da produção cinematográfica em algo ainda mais elitista, porque gravar em película era e ainda é muito caro.”, afirma Diego Franca, um dos quatro curadores e produtor da 17ª edição da MFL. Diante disso, Whitaker criou o que foi “historicamente, a primeira mostra de cinema do Brasil a receber a várias bitolas de película e de vídeo”, abrindo um caminho totalmente novo e mais acessível aos filmes independentes.

Diego Franca, curador do festival no CCBB/Foto: Luca Machado

A trajetória para a grandeza do festival hoje em dia não foi fácil. No começo, sem toda a tecnologia existente atualmente, receber os filmes era algo muito mais complicado. Milhares de fitas VHS chegavam por correio e a curadoria tinha que se dividir para fazer a seleção dos filmes, o que só tornava o processo mais longo e difícil. Hoje em dia, porém, com o sistema de envio dos vídeos pela Internet, o trabalho é mais simples. Em contraponto, o número de inscritos é muito maior. Eu acho bem desafiante esse grande número de inscritos” opina Franco, que depois completa “É um desafio vir coisa com qualidade”. Outra questão enfrentada pelos curadores da mostra é conciliar as diferentes visões que cada um responsável pelo processo de seleção dos filmes tem das obras. Porém, Franco afirma que essa diversidade de opiniões pode ser algo a ser usado positivamente para a Mostra: “Isso possibilita que a nossa programação seja tão rica e tão múltipla, por conta dessa multiplicidade dos olhares.”.

Como consequência desse grande número de inscritos que hoje a MFL recebe, foi possível que a edição desse ano formasse o que seus organizadores descrevem como “230 filmes que compõem um caleidoscópio do país que nos tornamos”: “A gente recebe inscrições de todas as regiões do Brasil. E a gente seleciona filmes de todas essas regiões” explica Franca “Então, nesse sentido, eu acredito que realmente forma um caleidoscópio: uma imagem meio difusa, mas que dá para você ver vários aspectos do que pode o cinema brasileiro hoje, esteticamente, politicamente e em possibilidades econômicas de produzir um filme.”.

Afinal, qual é a grande graça da Mostra do Filme Livre? A ruptura com o cinema clássico, monetário e que, muitas vezes, não traz assuntos que provocam uma inquietação no espectador, seria a resposta ideal. A abertura para que pessoas com pouco dinheiro possam produzir filmes e exibi-los, fazê-los circular por várias cidades e ter público para assisti-los é outra resposta. Afinal, o que Marcelo Ikeda, parceiro da Mostra e curador da edição passada, chama de “cinema de garagem” tem relação com o fato de serem filmes produzidos a partir do “desejo de produzir”. Trata-se de filmes que “nascem também a partir dos afetos que unem essas pessoas”.

A frase “O cinema mais amoroso que monetário é fundamental de ser feito e mostrado” é uma das que iniciam a descrição no site do que é a MFL e ela explica, justamente, qual o objetivo da Mostra e por que é necessário que ela  tenha uma maior repercussão entre o público e os amantes de cinema. Franco afirma que os filmes de grande bilheteria, sejam eles nacionais ou internacionais, por muitas vezes, deixam algo a desejar: “Você tem ali filmes que custam milhões e milhões de reais e quando você vai ver, talvez não te toque tanto enquanto experiência estética”. O curador ainda reitera que a ideia da Mostra é justamente dar espaço aos filmes que não conseguem ter uma boa aclamação devido à bilheteria esmagadora de filmes com caráter “blockbuster”: “Tem um monte de pessoas fazendo filmes que, na grande maioria das vezes, são super interessantes, mas que eles não acontecem, porque eles não circulam. E a MFL de certa forma nasce e se mantém para ser essa janela”. Franco ainda completa que o evento também dá espaço para filmes mais experimentais, com uma narrativa não-linear: “A gente busca esses filmes que, de certa forma, inquietam. Não que sejam simplesmente um entretenimento”.

A Mostra do Filme Livre tem planos para expandir-se para outras cidades. “Quanto maior a possibilidade de levar para passear esses filmes, melhor é”, Franco ressalta. Enquanto isso não acontece, quem mora em Brasília pode aproveitar da edição que começa no dia 24 de Abril, na CCBB da região. Quem mora em São Paulo e Rio de Janeiro e não teve a oportunidade de ir na edição desse ano, terá que esperar até o ano que vem, porém com a certeza de que terá um bom conteúdo independente e alternativo para assistir.

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