A dificuldade diária pela labuta

A situação é precária. O mercado de trabalho passa por uma reestruturação. A classe mais pobre é a mais afetada pelo desemprego crescente.

Por Leonardo Sasso, Isabella Garcia e Luiza Schiff

Ela se sente mal olhada pelos outros. Longe de tudo. Perto de nada. Olha no espelho e não se sente completa. Vaidosa, quando se vê sem um dente, sabe que as pessoas a veem como diferente. O transporte público é demorado e de péssima qualidade. Ela espera no ponto de ônibus. A sensação que passa é como se estivesse fora de São Paulo e ali,  fosse um local esquecido. Nívea Karla, ou Karla como gosta de ser chamada é uma mulher negra de 55 anos. Ela vive no Jardim Pantanal há cerca de 18 anos e tem cinco filhos. A favela onde mora fica na Zona Leste e é bem afastada das regiões centrais. Atualmente, está trabalhando com coleta de materiais recicláveis e desabafa que acredita que seria uma ótima vendedora de loja. Eu gosto de falar, conversar, opinar. Tenho certeza que me daria bem”. Mas ela ressalta que as dificuldades e opressões enfrentadas pela mulher negra favelada no Brasil, ainda fazem ela sempre apelar para trabalhos informais: “Já me perguntaram em entrevista de emprego se a minha casa é suja. Eu queria poder morar em uma casinha melhor sim, mas é o que eu tenho. Carteira assinada parece distante pra mim, sempre aparece alguma coisa melhor do que eu tenho pra oferecer e eu perco a vaga. Ou então, estou lá trabalhando e se algo desaparece a culpa acaba sendo minha e sou mandada embora. Não dá para contar nem nos dedos mais a quantidade de vezes que eu ouvi isso de um patrão.”

A impressão que fica quando se escuta os relatos da Karla, que é uma como muitas outras mulheres negras rejeitadas pelos espaços, é que o mercado de trabalho segrega. Com direitos e boas condições de serviço, ele não é para todos. Éder, de 30 anos, negro e morador do Pantanal, viu a entrevista da Karla, sua vizinha e resolveu dar a sua opinião também. Com um sorriso no rosto, nunca perde a esperança. Chegou tranquilamente. Fala com uma voz baixa. Parece feliz, mesmo com o cenário indicando o contrário. “O problema é que os nossos governantes são ricos e governam para os ricos. Aí não sobra lugar para gente.” Pai de cinco filhas, Éder demonstra preocupação: “Quando eu era pequeno nem passava pela minha cabeça que negro e pobre podia estudar. Mas quando Lula ganhou as eleições e a gente foi melhorando de vida, comecei a sonhar com isso. Agora querem tirar o cara da jogada e eu não sei se vai ter espaço para as minhas meninas depois disso.”

Trabalhadores, e principalmente trabalhadoras, da Região Metropolitana de São Paulo, vivem, provavelmente, o momento de maior dificuldade de colocação e de menor renda da História. Pelo menos da história mensurada pelos índices do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), que começou há quase 30 anos, em 1989.

O Dieese estima que 6 milhões de pessoas estão empregadas no Estado. Destas, 5.4 milhões residem na capital, enquanto 226 mil em municípios do ABC paulista e os demais na Região Metropolitana. O centro continua sendo a zona com maiores oportunidades e com maior número de empregos, em contraste com a moradia destas pessoas, já que a maioria vive em áreas mais distantes. O fluxo pendular de trabalho diário é uma marca. As zonas Sul e Oeste de São Paulo detêm três vezes mais trabalhadores do que moradores, o oposto da Zona Leste, em que somente 21% a 23% trabalham na região em comparação com o número de moradores.

A crise derrubou o Produto Interno Bruto, que  encolheu em 8% no período 2014-2016. A população, no mesmo intervalo de tempo, cresceu quase 6%. A recuperação tímida do ano passado, de 1%, só serve como alento de retomada de crescimento, mas tem efeitos práticos no emprego muito reduzidos.

Se fosse só a crise, já seria extremamente grave a situação do emprego. Em números, seria como se 91% dos empregos de 2104 estivessem sendo divididos por uma população economicamente ativa que aumentou 6%.

Não estão. Não estão porque a retomada de crescimento acontece com empregabilidade menor devido às novas tecnologias. É muito comum atualmente uma fazenda com muitos alqueires de cultivo de cana ou café não ter nenhum empregado à vista. Tudo automatizado. Numa indústria, uma planta de produção muitas vezes é comandada por um único funcionário numa cabine com uma tela de computador na sua frente.

Em 2017, houve aumento no número de desempregados na região metropolitana de São Paulo. Enquanto em 2014, a taxa de desemprego era de 10.8%, no último ano, o número aumentou para 18%, índice mais expressivo desde 2004. Além disso, essa foi a maior subida no período de três anos na história da pesquisa. Desde 1989, quando o Dieese começou a Pesquisa de Emprego e Desemprego, 2003 teve a maior taxa de desempregados com 19.9%. O diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, ressalta que o desemprego dos últimos anos teve taxas bem altas: “O Brasil viveu de 2004 a 2014 uma redução na taxa de desempregos, com aumento dos empregos formais, no entanto nos últimos dois anos a taxa de desemprego voltou a subir e numa velocidade rápida. Nesses dois últimos anos teve quase o mesmo aumento do que em toda a década de 90”.

Os empregos sumiram. Estão se concentrando na área de serviços. Mas a educação e a saúde, as duas gigantes do setor terciário ao lado do comércio, se ressentem de menos usuários na rede privada por conta do desemprego e menos investimentos do setor público por conta da arrecadação de impostos.

O desemprego no Brasil e em São Paulo segue tendência e modelos já construídos. De janeiro a março, geralmente, a taxa de desemprego aumenta, porque os postos de trabalho gerados para datas festivas, como Natal e Ano Novo, acabam e as empresas têm de demitir os empregados temporariamente. A partir de abril até dezembro, começa-se a gerar mais empregos, muito por conta da estruturação das empresas e a verificação do que se falta dentro dela. Segundo Ganz Lúcio, projetou que dois fatores podem alterar a dinâmica do desemprego neste ano e nos próximos: “A tendência é que a taxa de desemprego caia, por conta do comportamento típico do mercado de trabalho, mas pode ser associada a um aumento do emprego informal e os novos empregos formais serão baseados na nova legislação trabalhista, com muita precariedade”. Além disso, salientou que o setor de serviços, o qual emprega dois terços da população deve ser reestruturado, em modelo semelhante com o que aconteceu nas indústrias na década de 1990. Essa reestruturação pode gerar um desemprego muito alto e as vagas remanescentes deverão ser menores. O uso da tecnologia e de máquinas deve substituir a maioria da mão-de-obra atual.

O aumento do emprego informal, já observado nos últimos anos deverá ser intensificado. A nova legislação trabalhista e a possibilidade de empregos muito mais precários deverão acelerar a geração da informalidade, já que dois terços dos empregos gerados hoje são de caráter informal.

As novas colocações não têm carteira assinada e exigem conhecimentos de informática, empreendedorismo e domínio de pelo menos uma língua estrangeira. Assim, é natural que o principal vetor do desemprego atinja principalmente os mais pobres, os negros, as mulheres.   

As mulheres são parte importante do cenário do mercado de trabalho paulista. As taxas de participação do sexo feminino têm se mantido estáveis desde 2003. Nos últimos 15 anos, a maior variação foi de 1.4%. O número não diminuiu em relação a 2003 em nenhum ano, ponto positivo, mas que deve ser relativizado, já que o aumento foi quase nulo no período. O desemprego entre as mulheres atingiu menor nível em 2013, quando somente 11.7% delas estavam desempregadas na região. Atualmente, o número é de 19.7%, o pior desde 2005. A pesquisa específica com mulheres feitas pelo Dieese começou em 1998.

As mulheres negras, foco da reportagem, têm ampliado a participação no desemprego, assim como o do panorama geral das mulheres. Enquanto em 2011, início da pesquisa, as mulheres negras eram responsáveis por 40% do total de desempregadas do sexo feminino, em 2017 o número chegou a 45,5%, maior número na história. No mesmo ano, o equilíbrio entre desempregados mulheres e homens negros atingiu percentual mais semelhante. 23,2% são mulheres e 22,3% são homens. A taxa de diferença é a menor desde 2011. Por outro lado, o número de desempregados brancos tem diminuído ao longo dos anos. Entretanto, a diferença entre homens e mulheres no mercado de trabalho deve ser freada para os próximos anos: “A diferença entre homens e mulheres no mercado de trabalho tem diminuído, mas esse processo deve estancar. A entrada da mulher no mercado de trabalho deve ter uma retração”, de acordo com Ganz Lúcia. A reestruturação do setor de serviços, como já exposto anteriormente, deve afetar diretamente as mulheres, porque eles estão em número proporcionalmente maior que os homens. O setor doméstico, um dos com maior ocupação feminina, tende a ter um acréscimo acentuado nos próximos anos. O desemprego gerará uma busca maior por trabalhos como empregada doméstica e diarista.

As mulheres em geral têm sofrido bastante no mercado de trabalho, e Clemente ressalta a dificuldade ainda maior da mulher negra, a que mais sofre.

“A taxa de desemprego, a diferença salarial, tudo atua contra a mulher negra, ela é a mais discriminada no mercado de trabalho”.

Já os desalentados, que são pessoas que buscaram emprego no último ano, mas nos últimos 30 dias desistiram, têm aumentado significativamente, já que as situações de crise financeira e diminuição no número de empregos totais aceleraram o processo de saída do mercado de trabalho. De acordo com Ganz Lúcio, 10 a 15% dos desempregados demoram mais de dois anos para conseguirem um emprego, quando conseguem. A maioria desiste de procurar após esse período, porque o gasto se torna muito alto, visto que tem que se alimentar e usar transporte público até os locais de geração de empregos. Com isso, a decepção na busca provoca um desalento. Por outro lado, de acordo com o diretor técnico do Dieese, os números poderão mudar: “A tendência é que o desalentado volte a procurar trabalho, mesmo que seja nos postos precários que serão gerados, por conta da nova legislação trabalhista”.

Enquanto isso, Karla caminha. Éder vem ao encontro dela. Os dois partem para alimentar seus filhos, suas famílias. A história deles é só mais uma entre milhões no Brasil. O céu está encoberto. A chuva se aproxima. Os dois esperam que o tempo ruim esteja só no céu e que dias melhores apareçam nas suas vidas.

 

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