O ato político de ser um não político

Em busca de holofotes, João Doria usou táticas de marketing em sua breve passagem pela prefeitura

Por Laura Doubek e Catharina Figueiredo

João Doria, comunicador e empresário, entrou na política para fazer diferente, como dizia. Filiado ao PSDB desde 2001, ingressou na vida pública em 1983, como secretário de Turismo de São Paulo durante a gestão Mário Covas. Ficou no cargo até 1986, quando assumiu a presidência da Embratur (Instituto Brasileiro do Turismo), no governo de José Sarney. Em 2016, após disputa eleitoral acirrada para a prefeitura de São Paulo contra Fernando Haddad, filiado ao PT, obteve vitória com a garantia de uma administração inovadora. Do ponto de vista privado e empresarial, sua candidatura foi apresentada como a opção para os insatisfeitos com o cenário político brasileiro e, sobretudo, paulistano. Foi eleito em primeiro turno – acontecimento inédito desde 1992 –, com 53% dos votos. A vitória, provavelmente, deveu-se mais a seu antipetismo do que a suas próprias promessas. Para os críticos de Doria, com seu discurso de gestor, ele é mais político do que todos os políticos da história brasileira. “O discurso da antipolítica é o mais político possível”, afirmou Marcos Henrique do Espírito Santo, mestre em economia política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Segundo Espírito Santo, Doria tem o “sangue azul” do paulistano e, principalmente, das famílias interioranas. “O prefeito representa o cidadão de classe média morador de São Paulo. Essa população acredita que governa o Brasil por ser a cidade com maiores lucros e movimentação de dinheiro. E, claro, ele simboliza esse pensamento através de seu discurso neoliberal”, analisou Espírito Santo, uma semana antes de Doria deixar a prefeitura para se candidatar ao governo do estado. Um exemplo de sucesso, o ex-prefeito construiu um império empresarial baseado na privatização: a criação da empresa LIDE, que tem como objetivo desenvolver um espaço comum entre o público e o privado — inclusive, um dos maiores focos de sua gestão. “Por isso, serve como exemplo de vitória àqueles que buscam ascender em seus negócios e com o mínimo de burocracia”, explicou Espírito Santo. O Brasil, atualmente, vive um contexto de ajuste fiscal a qualquer custo, acompanhado de diversas medidas que visam a redução do Estado. É um direcionamento polêmico, embora disseminado em grande parte do mundo. É nesse cenário neoliberal que a candidatura de Doria surgiu para representar o pensamento da classe média em ascensão.

Vendendo uma nova ótica da política, João Doria se comprometeu a fazer a diferença: de imediato, demonstrou sua empatia com empresas privadas e, a cada oportunidade, frisou que elas seriam fundamentais para o desenvolvimento da cidade. Este posicionamento, em boa medida, se contrapôs ao do ex-prefeito Fernando Haddad, o que explica, também, sua aprovação por parte de uma população um tanto quanto insatisfeita. Frente aos protestos e manifestações constantes na capital contra as gestões petistas e a favor do impeachment de Dilma Rousseff, Doria explorou e acirrou a animosidade contra o PT. Segundo matéria do portal G1, em 15 meses no cargo, cumpriu apenas 12 das 80 promessas de campanha. Outras quatorze foram cumpridas parcialmente e 53 foram, pelo menos até o momento, descumpridas.

Entre suas promessas, três são voltadas diretamente à economia: os Núcleos de Desenvolvimento Regional, o Empreenda SP e a Virada Hackathon Jovens Empreendedores. Os Núcleos de Desenvolvimento têm como objetivo identificar possibilidades de ações práticas para o desenvolvimento de cada região específica. A promessa, que consta em seu programa de governo, por enquanto não foi cumprida: o início estava marcado para o primeiro semestre de 2018. O Empreenda SP, criado e concluído, é um programa direcionado também à área empresarial. Em cada subprefeitura, seriam contabilizadas informações sobre empreendedores, com o objetivo de simplificar os procedimentos e a burocracia para a criação de empresas, linhas de crédito, formação e capacitação de gestores — parte da proposta tornou-se o Empreenda Fácil, um programa de licenciamento de empresas de baixo risco em até cinco dias, diminuindo as dificuldades para a abertura de novos empreendimentos. A terceira e última proposta voltada à gestão econômica foi a Virada Hackathon Jovens Empreendedores, criada para programadores, designers e mais profissionais da área da tecnologia buscarem soluções técnicas aos problemas da cidade, mas que não foi iniciada.

Por “privatização”, entende-se que o poder público vende espaços à iniciativa privada. O negócio passa, então, a pertencer ao dono do empreendimento. Quem lida com os lucros, riscos e decisões é o grupo ou a empresa em questão. Pelas palavras do próprio Doria, em entrevista no Fórum Econômico Mundial, a prefeitura estima arrecadar R$ 7 bilhões com o programa municipal de privatizações. Um programa tão fundamental para o ex-prefeito, que ele criou uma pasta direcionada ao assunto, a Secretaria Municipal de Desestatização. Alguns projetos são mais conhecidos: Autódromo de Interlagos, complexo de eventos Anhembi (ambos previstos para serem vendidos ainda neste primeiro semestre) e os serviços funerários.

Também fazem parte de sua gestão as concessões – a prefeitura cede a um grupo ou empresa o direito de explorar determinado espaço por tempo definido – e as chamadas PPP (parcerias público-privadas) – um tipo de concessão na qual o governo e a empresa dividem os gastos do espaço. Para essas duas modalidades, algumas metas são as concessões do Estádio do Pacaembu, parques e mercados municipais, terminais de ônibus e rodoviários – no último caso não foi definido se o acordo seria de privatização, concessão ou PPP – e o bilhete único.

Doria, em seu império LIDE, fez uso de algumas nomeações de cargos públicos para colaborar com aqueles que estavam em seu círculo profissional. Um exemplo é Denise Abreu, que abriu mão de sua candidatura no Partido da Mulher para apoiá-lo em sua campanha para o governo do estado. Ela chefia a empresa Ilumi, nova responsável pela iluminação de São Paulo, através de PPP — o que indica a aliança e a financeirização da política. No Carnaval deste ano, um homem morreu ao encostar em fios desencapados em um poste da cidade. Espírito Santo afirma que a tragédia só ocorreu porque a Ilumi, empresa responsável, “não faz manutenção nesses postes e cabos há mais de 30 anos, mesmo com todo o investimento do município”, cita.

No primeiro semestre de 2017, uma onda de elogios e também de revolta ocorreu após a intervenção da Prefeitura nos muros da Avenida 23 de Maio. A ideia era apagar os grafites — parte da história da cidade — para construir muros verdes em parceria com paisagistas e empresas de meio ambiente. Após a “revitalização”, a população condenou as atitudes do prefeito.

 

O prefeito em sua jornada de higienização na Avenida 23 de Maio. Foto:
Suamy Beydoun/AGIF.

Não à toa, pela falta de aprovação e o apoio advindo somente da elite, Doria interrompeu o apagamento dos grafites. O prefeito, então, gastou verba para limpar a avenida e depois investiu mais para refazer os grafites que haviam sido eliminados. O ato, considerado culturalmente desrespeitoso com os artistas e a cultura,   marcou sua gestão: São Paulo é uma cidade conhecida globalmente por sua arte e expressão urbana.

As ações como gestor da cidade são evidenciadas também em outros itens dos gastos públicos. Doria desembolsou R$ 66 milhões em propaganda, o dobro do que que foi despendido na gestão anterior. A justificativa é que essa verba retornaria à receita líquida do governo para ser usada com causas públicas e sociais, como saúde, educação e segurança. Uma das ações problemáticas é o projeto Cidade Linda, da zeladoria urbana de São Paulo. O programa visa a revitalização de áreas degradadas da cidade, como ruas e avenidas. No entanto, para o Ministério Público (MP), a marca “Cidade Linda” tem como principal propósito a autopromoção: Doria foi, inclusive, proibido de usar o termo para nomear parte de suas ações, já que as medidas inseridas no Cidade Linda foram consideradas secundárias frente ao objetivo maior de fazer propaganda de seu mandato. A autopromoção é tanta que, em pleno ano eleitoral, o governo municipal fechou parceria com a maior rede privada de cinemas no Brasil, o Cinemark, para divulgar publicidade da gestão durante os trailers dos filmes.

Nos últimos tempos, as ambições políticas do ex-prefeito foram se tornando mais explícitas, com a costura de alianças, as articulações em seu próprio partido (incluindo embates estridentes) e viagens para outros estados. Ele abandonou o cargo com a aprovação bem menor do que no início e uma taxa de rejeição significativa. Em entrevistas, Doria afirmou que, em 15 meses de gestão, realizou mais mudanças que seu antecessor em quatro anos. No entanto, pesquisas mostram uma desaprovação idêntica à que Haddad tinha antes de deixar o cargo. Segundo dados do Datafolha, em fevereiro do ano passado 13% da população considerava a gestão de Doria ruim ou péssima. Ao fim do mandato, esse número cresceu para 39%. Já o percentual que o avaliava positivamente caiu de 44% para 29%.

Apesar disso, João Doria é tido como um candidato forte ao governo de São Paulo: além do eleitorado paulista, políticos de outros estados consideram estratégica sua vitória. No entanto, a maioria dos paulistanos não ficou feliz com a candidatura. Em uma pesquisa do Datafolha, 58% dos entrevistados afirmaram que o preferiam na prefeitura para ao menos terminar seu mandato. Uma de suas promessas, inclusive, era permanecer no cargo até o fim do mandato – compromisso que repetiu diversas vezes desde sua pré-candidatura, em 2016.  Para Espírito Santo, Doria tem grandes chances de triunfar.

“Os grandes problemas de uma megalópole como São Paulo, que são metrô, trânsito, o cenário da cracolândia, enchentes e outros, o interior não sofre. Sendo assim, o trabalho de Doria como prefeito parece magnífico às outras cidades, já que ele consegue gerenciar suas atividades através da promoção na internet e redes sociais e, assim, para aqueles que não vivenciam sua gestão, seu trabalho foi feito de fato”, afirmou o economista.

Em um balanço geral, Espírito Santo e outros críticos avaliam que o trabalho de Doria foi muito mais teórico e midiático do que efetivo. Nessa trajetória, muito dinheiro foi gasto com propaganda e poucos projetos foram realizados em áreas como cultura, saúde e educação. Doria entrou na Prefeitura como uma máquina prestes a mudar todas as problemáticas da cidade de São Paulo, mas, com o passar do tempo, sua gestão não foi capaz de lidar com problemas que se mostraram além do alcance de suas promessas. O discurso neoliberal da menor ação possível do Estado e da supremacia do privado não resolveu os obstáculos de uma grande cidade que já carrega dificuldades enraizadas.

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