Bom Retiro aposta na moda e na gastronomia para superar a crise

Conhecido por abrigar a colônia coreana, o bairro também é polo turístico

Por Gabriela Fogaça, Letícia Nascimento e Rocio Paik

Aluga-se. Aluga-se. Aluga-se. 

Um bairro que costumava fervilhar com pessoas e sacolas tem estado pouco movimentado nos últimos tempos.

O distrito do Bom Retiro, especialmente o bairro de mesmo nome, sempre foi repleto de imigrantes vindos dos lugares mais longínquos. No início de sua história, lá na metade do século XIX, o bairro começou a se desenvolver com a implantação da Estrada de Ferro São Paulo Railway, conhecida hoje como Santos-Jundiaí. A linha férrea estimulou a instalação de depósitos e indústrias na região, com um efeito multiplicador sobre a economia.

Já no século XX, o distrito assumiu uma cara mais operária, com a chegada dos italianos, que, por sua importância para a história do bairro, ganharam uma rua dedicada a eles: a Rua dos Italianos, que hoje abriga muitas lojas de roupas femininas, um dos pontos fortes da economia local. Ali pertinho, na Rua José Paulino, a mais popular do bairro, o comércio foi desde o início a atividade principal,

com foco na venda por atacado, dominada hoje por coreanos. No entanto, há algumas décadas o comércio era liderado por imigrantes portugueses e uma minoria árabe, de turcos, sírios e libaneses, que ainda ocupam alguns pontos da região.

Antes de os coreanos transformarem o Bom Retiro na pequena Coreia brasileira com suas marquises em hangul – o alfabeto coreano -, os judeus também foram referência na atividade comercial do bairro, a partir da década de 1960. O domínio comercial durou cerca de 20 anos, até os primeiros imigrantes coreanos desembarcarem e passarem a comprar as principais lojas do bairro.

Com o sucesso do comércio, outros imigrantes elegeram a região para morar e trabalhar, como os bolivianos, que têm sua própria colônia no distrito, localizada no bairro do Pari, e uma feira dominical na Praça da Kantuta.

O principal segmento do Bom Retiro é a moda: atacado e varejo de peças feminina e masculina, tecidos, maquinário de confecção, entre outros itens. Cerca de 55% das roupas femininas no Brasil são produzidas no Bom Retiro. Neste segmento, são os coreanos que detêm a liderança, correspondendo a 45% dos lojistas do bairro, segundo a Câmara dos Dirigentes Lojistas do Bom Retiro (CDL). De acordo com levantamentos disponibilizados pela CDL, são produzidas, aproximadamente, 20 mil peças por mês por empresa e criadas, em média, seis novas peças diariamente por grife. A região movimenta em torno de R$ 3,5 milhões por ano.

Mas o comércio do Bom Retiro vai muito além da venda de roupas femininas. Dados de 2016 levantados pela CDL mostraram que cerca de 80 mil pessoas circulam diariamente pela região e esse número aumenta no final do ano, devido ao Natal. A região é versátil e oferece transporte público de fácil acesso, com ônibus e a famosa Estação da Luz. Ir ao Bom Retiro também pode ser um passeio cultural, pois o bairro possui diversos museus, como o Museu da Língua Portuguesa, fechado desde 2015, a Pinacoteca e o Museu de Arte Sacra, além de contar com o Parque da Luz. O crescimento da gastronomia, que abrange restaurantes tradicionais, bares, cafés e culinária coreana, grega, judaica, italiana e brasileira, tem tornado o local mais atrativo.

A pluralização da esfera gastronômica do bairro se deve ao fato de que, entrando em tempos de crise, muitos coreanos começaram a seguir a lógica de que o ser humano tem três necessidades básicas: a alimentação, a moradia e a vestimenta. Dessas três, a vestimenta é considerada “a mais dispensável”, e isso leva a comunidade a priorizar a criação de restaurantes especializados na culinária coreana, o que tem atraído cada vez mais turistas.

 

Lojas na Rua dos italianos. Foto: Rocio Paik

Em tempos de crise…

O comércio no Bom Retiro é bem diversificado e abrange cerca de 1,7 mil lojistas, sendo que 1,4 mil são fabricantes. O bairro gera 50 mil empregos diretos e 30 mil indiretos. Entretanto, esses números foram coletados em meados de 2016 e sua atualização é dificultada pelos lojistas que preferem não divulgar dados.

A partir do segundo semestre de 2013, as vendas da região começaram a sofrer quedas. O início da crise se deu com as Jornadas de Junho, protestos que aconteceram em todo o Brasil para, inicialmente, contestar os aumentos nas tarifas do transporte público. Com as manifestações e a interdição de ruas da cidade, o acesso ao bairro foi dificultado e os lojistas começaram a fechar mais cedo, o que atrapalhou as vendas das novas coleções.

A coleção de verão, por exemplo, lançada em julho, atrai mais clientes para o Bom Retiro. No entanto, em 2013, o lançamento foi prejudicado pelos protestos e o movimento do público diminuiu, provocando a primeira grande queda nas vendas. Isso porque as pessoas visitam o bairro três ou quatro vezes em um período de três meses para comprar as novas coleções. Por isso, as peças não foram vendidas e o faturamento do comércio local sofreu prejuízo.

A situação econômica seguiu complicada em 2014, por causa das eleições presidenciais e da Copa do Mundo, que diminuiu o número de dias trabalhados. Entretanto, os últimos três meses de 2016 mostraram-se melhores em relação a 2015 e a recuperação gradual começou no ano passado, com um crescimento médio de 10%. Essa porcentagem, contudo, ainda é insuficiente para recuperar a perda acumulada no faturamento, que chegou a 40% desde o início da crise.

Segundo o presidente da CDL do Bom Retiro, Nelson Tranques, no mercado imobiliário comercial, a região não sofre dificuldades, já que dificilmente tem propriedades disponíveis para aluguel. No entanto, circulando pelas principais ruas e mini-shoppings do bairro, é possível encontrar muitos estabelecimentos com placas de “aluga-se”, o que pode indicar falência ou mudança para pontos menores e mais baratos da região.

Além disso, muitas lojas anunciam promoções para atrair clientes, já que os antigos preços não têm sido viáveis diante da queda nas vendas. Este é o caso, por exemplo, da loja Le Ventana, especializada na venda de roupas e acessórios femininos.

“Esses últimos anos têm sido muito difíceis. As vendas caíram muito e para vender a gente tem que fazer muita promoção. Imagina uma loja que costumava ter de 20 a 25 funcionários trabalhando e hoje opera com quatro ou cinco”, comentou Berenice Soares, assistente administrativa da loja, que  trabalha há 25 anos no Bom Retiro. “Com o pouco movimento, muita gente ficou desempregada e várias lojas fecharam as portas. Eu acho que ainda muitas outras vão fechar”, acrescentou.

As demissões não foram tão expressivas em outros estabelecimentos. Em uma franquia especializada em vestuário feminino para festa, que tem quatro lojas espalhadas pelo Bom Retiro, os cortes foram acompanhados de contratações, segundo a gerente Elisângela Mariano. “Nós tivemos demissões, sim, mas foi mais uma troca de funcionários, contratando novos para substituir os que saíram”, contou. De acordo com Tranques, o número de desligamentos foi maior na indústria do que no comércio.

Para Mariano, apesar de a crise ter sido sentida pela franquia, especialmente em 2017, os resultados de 2018 parecem animadores. “No comparativo mensal com 2017, este ano está bem melhor. O ano passado foi bem ruim. Acho que essa melhora nas vendas tem sido geral para todos aqui no Bom Retiro, mas não posso afirmar com certeza”, disse ela.

Soares, da La Ventana, discorda. Embora admita que às vezes o movimento seja bom dependendo da época do ano, suas expectativas não estão nada elevadas. “Não temos uma previsão de melhora, depende muito da economia. Só o tempo vai dizer mesmo”, afirmou.

 

Anúncios de liquidação. Foto: Rocio Paik.

Imigração coreana

A partir da década de 1970, os coreanos escreveriam uma nova história no Bom Retiro. De um lugar distante, os imigrantes viriam ao país com o intuito de ter uma condição melhor de vida. E, aos poucos, este desejo se concretizou.

Começando o novo trabalho pela contratação de mão de obra barata – e ilegal – para pequenas lojas, a população coreana se estendeu para mais de cinquenta mil pessoas. Atualmente, o Bom Retiro é conhecido por abrigar 65% da colônia coreana no Brasil.

Mário Paik, imigrante sul-coreano, trabalha há doze anos como comerciante e importador de tecidos no Bom Retiro. Paik, como a maioria de sua comunidade, veio a São Paulo em busca de condições de vida favoráveis para sustentar a família. O comerciante comentou que, há vinte anos, o comércio têxtil dava muito certo, o que não vem acontecendo agora. “Faz uns três anos que o valor do dólar no Brasil subiu e por isso as empresas que importam tecidos estão em prejuízo. Estas empresas devem pagar muito mais, quase o dobro, para receberem o produto solicitado”, contou. Ele explicou que o preço dos tecidos no comércio em São Paulo não está mudando, mas que o valor do dólar continua alto. Paik afirmou também que, por causa disso, muitas empresas estão com dificuldade de solicitar tecidos, reduzindo a quantidade de importação dos produtos e prejudicando toda a circulação de dinheiro na área comercial do bairro.

O imigrante comentou ainda que, quando conseguiu seu emprego, havia um número considerável de coreanos trabalhando no comércio têxtil do bairro. No entanto, diante da recessão dos últimos anos, Paik lamentou que atualmente boa parte da comunidade tenha fechado as lojas e voltado à Coreia do Sul, onde tem parentes com quem pode contar. Além da falência dos coreanos no Brasil, ele diz que a crise também afetou um grande número de brasileiros que trabalhavam nas lojas coreanas. “Uma loja tinha normalmente mais de dez funcionários brasileiros. Com a recessão, muitos deles acabaram sendo demitidos porque nem os próprios coreanos conseguiam manter o empreendimento. Como é que os coreanos pagariam o salário dos funcionários se eles mesmos mal estavam mantendo as despesas de casa?”, comentou. Também prejudicado pela crise, Paik garantiu que “o comércio têxtil no Bom Retiro é como um dominó: uma peça derrubada afeta o jogo todo”.

A recuperação gradual e o papel da CDL no fortalecimento do Bom Retiro

Segundo Tranques, o Bom Retiro dá indícios de uma recuperação, ainda que lenta e gradual. De acordo com o presidente da CDL, a entidade realiza diversas ações para o fortalecimento do comércio local, como parcerias com órgãos governamentais visando garantir a segurança no bairro. A instituição também possui uma estrutura de ensino que promove cursos e palestras nas áreas de venda e marketing, além de consultorias para empresários sobre legislação fiscal e alternativas de crédito. O objetivo é capacitar a mão de obra com ações de educação continuada.

Além disso, a CDL investe na utilização e administração das redes sociais e na modernização do comércio para que as lojas possam ampliar a divulgação, obter novos clientes e facilitar as compras. A entidade ainda presta uma série de serviços para os lojistas associados, como a certificação digital obrigatória e a instalação de e-commerce. O foco da CDL é se tornar mais relevante e participativa na comunidade para que o Bom Retiro continue a crescer econômica e culturalmente no cenário de São Paulo.

 

 

 

 

 

 

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