Mídia criou imaginário ocidental sobre Revolução Russa

Por Caio Torres

A Revolução Russa, que teve suas duas mais importantes etapas em fevereiro e outubro de 1917 completou um século no ano passado. E o modo como esse evento alterou, quebrou e estabeleceu paradigmas em todos os cantos do mundo passa pelas narrativas criadas entorno dele. Seja a abordagem da mídia ocidental, ensaios e textos acadêmicos, cinema e literatura, todas essas áreas trataram da Revolução Russa de um modo a oferecer uma visão de mundo sobre determinados conceitos sociais, políticos e ideológicos.

Lenin, chefe de governo da República Russa entre 1917 e 1918

Uma coisa é o evento histórico, que teve seus métodos, suas motivações, personagens importantes e consequências. Outra coisa são as diferentes abordagens a respeito do evento. Como ele foi tratado ao longo de um século pela mídia, pelas diferentes formas de arte e conhecimento são determinantes para entender os reflexos e efeitos que a Revolução Russa teve no imaginário coletivo das sociedades, sobretudo, ocidentais.

Alguns autores contribuem largamente para o entendimento da Revolução e do sistema político que este propunha. Desde o filósofo Karl Marx, passando por Jack Reed, até o escritor e cineasta chinês Gao Xingjian, todos oferecem interessantes observações sobre o que seria, o que foi e o legado da Revolução até 100 anos depois do fato.

Karl Marx

Karl Marx, filósofo alemão

Autor de “O Capital” e “O Manifesto Comunista”, o filósofo nascido na Prússia, Karl Marx, foi determinante para o que teria sido a Revolução Russa em 1917. Marx, a partir de suas obras, determinou algumas teorias a respeito de como funcionava a economia capitalista, quais eram os efeitos desse sistema econômico na vida da sociedade, e, como consequência, formulou a teoria da “luta de classes”, que sugere que as classes operárias estariam em eterno conflito com seus patrões e que essa dinâmica se reproduzia de maneira sistemática na sociedade.

Marx acreditava que apenas com os trabalhadores unidos, e por meio de uma Revolução especificamente operária, seria possível reverter o sistema de exploração que Marx nomeou de “mais valia”.

As obras e teorias marxistas repercutem e geram polêmica até os dias de hoje e já foram determinantes em 1917, na Revolução Russa. Lênin e Trotsky, importantes personagens da Revolução, tiveram forte influência das ideias de Marx, e com base nelas a Revolução Russa se desenvolveu. A ideia do fim da divisão de classes e a abolição da propriedade privada, por exemplo, são pilares da ideologia marxista que tiveram efeito quase que imediato no pós-revolução. As palavras de Marx ecoaram por anos dentro da União Soviética em forma de sistema político e econômico. Apesar de algumas diferenças entre o que propunha as obras de Marx e o que de fato ocorreu na Rússia socialista, é inegável que suas ideias influenciaram fortemente a Revolução e o que a seguiu.

“Jack” Reed

John “Jack” Silas Reed, jornalista norte-americano que acompanhou a Revolução Russa

“Jack” Reed foi um jornalista americano que estava presente na Rússia em 1917 e testemunhou os acontecimentos com um olhar, essencialmente, ocidental. Autor do livro “Dez Dias que Abalaram o Mundo”, Reed morreu três anos após o acontecimento que o abalou profundamente, em 1920.

Jack Reed, cujo nome real era John, era uma importante figura do Partido Socialista nos EUA e já havia acompanhado greves de trabalhadores mexicanos em 1914. Jack tinha afinidade com temas políticos, os quais estudou em Harvard na década de 1910, e já tinha uma experiência com cobertura de movimentos sociais e políticos. Além da experiência no México, Reed cobriu a Primeira Guerra Mundial, quando se interessou pela Revolução Bolchevique e, então, foi para a Rússia acompanhar seus desdobramentos.

“Ten Days that Shook the World (Dez Dias que Abalaram o Mundo) continua sendo um modelo e continua sendo o melhor relato sobre aquele intento tão bem-sucedido que depois fracassou com tamanho estrondo. Obviamente não era neutro: o jornalismo nunca o é, não pode sê-lo. Foi há exatamente um século – e, até hoje, nem o tempo nem as revoluções nos convenceram de que cem anos são só uma convenção. Foi há exatamente um século, e esse dado menor serve para voltar à pergunta do milhão: como foi que intenções tão boas deram resultados tão maus.” – Martín Caparrós, sobre o livro de Jack Reed

As palavras do jornalista argentino Martín Caparrós, em texto para o El País, exemplificam e demonstram a influência e contribuição que Reed teve, a partir da sua obra, na interpretação de um dos eventos históricos mais importantes da história recente.

Gao Xingjian

Gao Xingjian, pintor, escritor, cineasta chinês e Nobel de Literatura em 2000

O pintor, escritor, cineasta e Nobel de Literatura em 2000, Gao Xingjian é um nome que muito tem a dizer a respeito não da Revolução Russa em si, mas do duelo ideológico que o mundo vive até os dias de hoje. Xingjian nasceu na China em 1940, mas não gosta de lembrar de seus tempos no país de origem.

“A China já não é o meu país, é o meu país anterior. Há 30 anos não tenho nenhum contato com nada relacionado a ela. Não tenho um passaporte que me credite como cidadão do mundo, mas me considero um. ”

O multiartista tem cidadania francesa desde 1998 e faz uma dura crítica à polarização ideológica que domina o cenário político mundial nas duas últimas décadas. Segundo Xingjian, ainda “estamos presos sob o jugo das ideologias do século XX”. O escritor se refere, basicamente, ao nacionalismo e ao comunismo e acredita que seria necessário um “Novo Renascimento” para libertar as sociedades modernas das velhas amarras ideológicas que ainda insistem em polarizar os cenários políticos mundiais.

La fin du monde, obra de Gao Xingjian – 2006

Segundo Xingjian, a democracia estaria sofrendo uma séria degradação e estaria se resumindo a uma “simples apuração de votos, sem perspectiva, horizonte e futuro. ” O escritor, que é um crítico do cenário político chinês e já teve seus problemas com o regime comunista, usa o termo “declínio do Ocidente” para caracterizar a tal degradação democrática. De acordo com a análise Xingjian, as ideologias acabam por se tornar dogmas que não permitem espaço para reflexões e considerações mais profundas.De uma maneira ou de outra, essas personalidades contribuem para interpretação não só da Revolução Russa em si, como também para a análise das ideologias e da dinâmica sob as quais os discursos e narrativas ideológicas são construídos e reproduzidos até os dias de hoje.

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