Jogo de Pôquer ganha adeptos no País

Caixa de Baralho oficial para pôquer.                                         Foto: Felipe Cereser

Por Gabriel Elias e Felipe Cereser

Poucas coisas crescem tanto no Brasil de hoje em dia como o número de praticantes do pôquer. O tal jogo de cartas foi reconhecido pelo Ministério dos Esportes como um esporte mental em 2012, que exige inteligência, capacidade e preparação psicológica. Os torneios de pôquer arrecadam e distribuem quantias exorbitantes, e a fácil prática do jogo, seja fisicamente ou online, combinado com o boom da modalidade no País, atrai cada vez mais jogadores. Esse fato pode ser bom e transformar o Brasil numa potência mundial do esporte, mas também pode trair o amador que sonha alto, e acaba se perdendo no vício.

Inúmeros sites de pôquer disponibilizam formas para qualquer usuário jogar, seja com dinheiro, ou de forma recreativa. Para se inscrever em torneios com premiações, o jogador paga um valor de inscrição e, ao final, recebe um prêmio equivalente à sua colocação. Em sites como 888poker ou PokerStars existem campeonatos com inscrições a partir de US$ 1.

Sites oferecem diversos torneios com taxas de inscrição acessíveis.                                                           Fonte: site 888poker.com

Foi assim que André Akkari começou a constituir sua carreira como jogador de pôquer profissional. Em 2005, Akkari, um funcionário de uma empresa de tecnologia, recebeu uma proposta para desenvolver um projeto para um website de pôquer. A partir desse momento, o paulistano se interessou pelo jogo e começou a praticar. Em 2007 já despontava como uma promessa no esporte, e em 2009 se mudou para Las Vegas, onde acontecem os principais torneios de pôquer do mundo, com as melhores premiações.

O auge da sua carreira até aqui foi em 28 de junho de 2011, quando conquistou o bracelete do WSOP (World Series of Poker), a “copa do mundo” da modalidade, e faturou o prêmio de US$ 675 mil. Ele se juntou a Alexandre Gomes e Thiago Nishijima como os únicos brasileiros a vencerem uma etapa da série mundial.

Akkari é considerado relevante para o crescimento do esporte no Brasil, pois em 2006, idealizou o torneio nacional de pôquer, o BSOP (Brazilian Series of Poker), junto com sócios da empresa que organizava o Circuito Paulista da modalidade à época.

Akkari durante World Series of Poker 2008.                                           Foto: Wikipédia

Além disso, ele também ganhou destaque por se sagrar campeão do WSOP no período em que o jogo mais cresceu no Brasil. Em 2010, ano anterior ao título mundial de Akkari, o BSOP teve uma média de 631 jogadores inscritos por etapa, praticamente o dobro de 2009 (314 jogadores, em média). Para efeitos de comparação, em 2016 foram 1106 jogadores inscritos por etapa no BSOP, em média. O crescimento dos brasileiros também pode ser visto em escala mundial. No WSOP de 2006, o Brasil só teve um representante em ITM (zona de premiação do torneio). Em 2010, já eram 50 brasileiros em ITM, e em 2015 foram 183, fazendo com que o Brasil ficasse na quinta colocação entre países com mais representantes premiados.

Por mais que o pôquer tenha sido reconhecido como um esporte em 2012, ainda falta um tipo de regulamentação para a modalidade se consolidar de uma vez por todas no país. Com o aumento do interesse pelo jogo, os estabelecimentos especializados também ganham. Já são aproximadamente 200 espaços exclusivos para a prática do pôquer no Brasil, além dos lugares nos quais o pôquer aparece, mas divide a atenção com outros jogos. Cerca de 15% dos clubes fica em São Paulo.

A Confederação Brasileira de Texas Hold’Em – CBTH, criada para organizar e gerenciar torneios da modalidade pelo país, acredita numa regulamentação do esporte para ele poder crescer ainda mais. Uma padronização daria mais segurança jurídica aos clubes de pôquer, traria uma taxa de tributação sobre os estabelecimentos e os sites, formaria sindicatos dos dealers e outros funcionários envolvidos com o esporte, entre outras garantias. Por enquanto, os clubes de poker ainda são registrados como agremiações ou clubes-empresa. O pedido por regulamentação tem fundamento: além de ser um esporte reconhecido, uma pesquisa feita pela empresa americana de softwares Citigan analisou 103 milhões de mãos, e comprovou que o fator habilidade foi decisivo em 88% das vezes, enquanto a sorte prevaleceu em apenas 12%. Essa pesquisa é considerada a maior já feita envolvendo pôquer, com o maior número de jogadas analisadas.

E essa também é a opinião de Vico Scarpini. Jogador profissional com muitos lucros e instrutor do 4-bet, maior time de pôquer do mundo, Scarpini acredita que a CBTH tem um papel fundamental no avanço para a regulamentação do pôquer. “Acho importante o trabalho da Confederação na conscientização dos nossos políticos sobre o que é pôquer, o tamanho da comunidade e o que o mercado do poker pode oferecer ao país. Fazer esse trabalho de aproximação do pôquer com nossos representantes no Congresso vai ser fundamental numa futura regulamentação do pôquer e, por fim, a regulamentação do esporte”, afirma.

É possível se divertir de maneira saudável com o jogo.  Foto: SuperPoker

Por ser um jogo de cartas e envolver muito dinheiro, o pôquer ainda sofre preconceito por parte da população brasileira, e ainda não é visto como esporte. Scarpini acha que existem alguns fatores que podem mudar esse panorama: “Além dos jogadores profissionais e os amadores, tem sido muito importante ver cada vez mais atletas de outros esportes, artistas, empresários e personalidades influentes praticando e se divertindo com o pôquer e compartilhando essa experiência nas conversas com os amigos, família e redes sociais, principalmente. Acredito que isso esteja ajudando aos poucos na conscientização da população sobre o que é pôquer e que é possível se divertir e gerar entretenimento de maneira saudável com o jogo.”

O que alimenta ainda mais o erro da sociedade brasileira em achar que o pôquer é um jogo de azar, é justamente o ponto reforçado por Scarpini quando cita o “entretenimento de maneira saudável”. Muitas vezes, jogadores amadores que tentam entrar para o universo do pôquer acabam se perdendo no vício, apostando todo o seu patrimônio sem retorno. Para isso não acontecer, Scarpini acredita que uma preparação mental e psicológica é importante: “O fator psicológico no pôquer é fundamental tanto para profissionais como para jogadores amadores. Sobre amadores, é imprescindível que o jogador veja como principal objetivo se divertir e curtir um entretenimento como qualquer outro. O mais importante para quem não leva o pôquer como profissão é entender que o jogo é um hobby, e que é importante separar uma quantia para curtir esse hobby como qualquer outro, como ir ao cinema, sair para jantar, viajar… mas que isso não reflita negativamente na sua vida financeira e pessoal.”

O jogo compulsivo é uma doença reconhecida pela OMS, e segundo pesquisa do Ambulatório de Jogo Patológico do Hospital das Clínicas de São Paulo (ANJO), ela afeta até 3,5% da população. Para ajudar os doentes é que foi criado o “Jogadores Anônimos”, um programa de 12 passos que, a exemplo de “Alcoólicos Anônimos” e “Narcóticos Anônimos”, reúne várias pessoas afetadas pelo vício e que procuram uma cura para o prejuízo. Criado inicialmente em 1957 na cidade de Los Angeles (EUA), “Jogadores Anônimos” não tem fins lucrativos e não é ligado a qualquer instituição. Formado por homens e mulheres espalhados ao redor do mundo que se encontram semanalmente para compartilhar suas experiências, o JA chegou ao Brasil em 1993, inicialmente no Rio de Janeiro, e se baseia em 12 etapas para convencer a pessoa necessitada a largar o jogo.
As 12 etapas são aplicações de princípios espirituais registrados por pensadores ao longo do tempo, e praticando-as, o jogador compulsivo consegue se abster do mal que acontecia em sua vida. A recuperação passa principalmente pela retomada da consciência, admissão e organização da sua vida para obter uma espécie de recomeço. No site do JA (www.jogadoresanonimos.org.br), há depoimentos de ex-viciados que conseguiram sair do jogo compulsivo pelas práticas do programa.

Os 12 passos do “Jogadores Anônimos”.                                                                                                                    Fonte: Wikipédia

O que separa o pôquer do sucesso mundial, envolvendo esporte, fama e dinheiro, e uma potencial destruição de uma vida pelo vício e perda de seus bens mais comuns é uma linha tênue. Um detalhe pode tirar o jogador da porta do sucesso e jogá-lo no abismo da doença que é o jogo compulsivo. Neste mundo, o mais necessário é ter cuidado.

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