Por Victor Félix e Giuliano Formoso

 

 

As notícias falsas. Foto: Pixabay

Nos dias de hoje, é possível afirmar que o nosso mundo encolheu. O planeta diminuiu de tamanho. As pessoas estão cada vez mais próximas, as fronteiras foram redefinidas e as distâncias reduzidas. E isto ocorre graças ao desenvolvimento tecnológico desenfreado e à evolução da Internet. Todo o tempo, somos bombardeados por informações, que chegam até nós quase que instantaneamente. Se algo acontece no outro lado do mundo, em questão de segundos, já é possível saber o que ocorreu, como se todos os lugares do planeta fossem próximos uns dos outros. O mundo diminuiu. E neste contexto, as pessoas passam a acreditar cegamente em suas opiniões e suas visões, deixando de enxergar a realidade, o que de fato é real, de modo que a própria opinião se torna verdade absoluta e imutável; o egoísmo prevalece. A contemporaneidade é um momento da história onde o fato é substituído pela crença, pela opinião, pelas várias versões do próprio fato.

Este cenário é o que chamamos de Pós-verdade. Os sujeitos criam bolhas sociais privadas/individuais, onde apenas o que eles creem, suas opiniões, são “verdadeiras”. Só é importante aquilo que lhes interessa, de modo que deixam de ouvir o outro, o diferente. A doutora e professora de Comunicação e semiótica da PUC-SP Lúcia Santaella, fala um pouco sobre a atualidade em que vivemos. “O mundo das notícias é onde ocorre a Pós-verdade. O jornalista traz interpretações da realidade, daquilo que vai acontecendo no mundo imediato. Atualmente, todo mundo acha que virou jornalista, sem nenhum talento, sem nenhuma formação. Cada um tem o direito de falar aquilo que quer, no começo chamávamos isso de democracia. Agora, essa democracia se tornou paranoica. O que acontece é que se formam tantas versões sobre os fatos, que não sabemos mais para onde ir. Mesmo as pessoas que acham que não formam bolhas, acabam as formando. Temos essa força de atração por aquilo que agrada o nosso intelecto. Logo, surgem versões equivocadas, fake news que causam consequências sérias. A pós-verdade levou à eleição do Trump, por exemplo” disse a professora, no lançamento do livro “Como sair das bolhas” da professora da PUC-SP, Pollyana Ferrari, onde houve um debate sobre a formação de bolhas, educação e as fake news que contou com outros estudiosos e especialistas da área, como o jornalista e professor da ECA-USP Eugênio Bucci e o diretor editorial e de produtos da Associação Nova Escola Leandro Beguoci.

 

Lançamento do livro “Como sair das bolhas” e debate sobre “Fake News”. Foto: Giuliano Formoso

E é justamente nesta Pós-verdade que se formulam condições perfeitas para o desenvolvimento do fenômeno das fake news, que estão ganhando cada vez mais força, onde informações falsas são compartilhadas para defender a visão de mundo da pessoa que as compartilhou, bem como atacar a de seus opositores. Mas, o que de fato são as chamadas fake news? Sua definição não foge muito de sua tradução literal para o português: notícias falsas, mas que aparentam ser verdadeiras. São mentiras que acabam sendo tratadas como verdade e veiculadas nas redes sociais. Geralmente remontam situações para fornecer maior credibilidade às informações que estão sendo transmitidas.

Sem dúvida, a área onde as fake news mais atuam é a política. É possível ver com certa frequência partidos políticos, candidatos e ideologias serem difamados e caluniados através de informações falsas e mentiras que acabam viralizando nas redes sociais. E neste cenário politizado, as fake news ganham força: candidatos de determinado partido divulgam mentiras sobre o partido de oposição ao seu, na tentativa de difamá-lo e ganhar maior popularidade, consequentemente reduzindo a do partido “inimigo”. Não é surpresa para ninguém que mentiras, boatos, fofocas e calúnias sempre existiram. Porém nos últimos tempos, as fake news tomaram proporções estrondosas e se espalharam pelo mundo. E o grande estopim que possibilitou a expansão deste fenômeno, muito provavelmente, foram as eleições presidenciais dos EUA em 2016, quando Donald Trump se tornou presidente, em eleição rodeada de incertezas, apurações duvidosas e mentiras circulando na Internet.

Segundo a BBC, tudo começou em 2016, quando a BuzzFeed identificou um conjunto de histórias completamente inventadas, originadas em Veles na Macedônia. Constaram-se 140 sites que veiculavam notícias falsas e que estavam recebendo muitas curtidas, cliques e compartilhamentos no Facebook. Devido ao dinheiro gerado pela publicidade online, as pessoas envolvidas nestas falsas notícias queriam que suas histórias fossem veiculadas nas redes sociais o mais rápido possível, utilizando as eleições presidenciais dos EUA como artifício, mesmo sem nenhum interesse pela política americana. Pouco tempo depois, manchetes inventadas como “Papa Francisco choca o mundo e apoia Donald Trump” ou “Wikileaks confirma que Hillary Clinton vendeu armas para o Estado Islâmico” passaram a ser compartilhadas de forma frenética nas redes sociais. Inúmeras notícias a favor de Donald Trump e contra Hillary Clinton, difamando a imagem da candidata, foram veiculadas. Assim, o termo fake news passou a ser propagado.

 

Donald Trump (esquerda) e Hillary Clinton (direita). Foto: Wikipédia

Uma combinação perfeita de pessoas dispostas a inventar notícias falsas e divulgá-las nas redes sociais para conseguir dinheiro facilmente, somadas a uma eleição extremamente complexa e que dividiu opiniões, formaram um cenário perfeito para as fake news se espalharem. Vemos notícias duvidosas sendo compartilhadas no Facebook e em outras redes sociais todo o tempo, de modo que se torne praticamente impossível saber o que é verdade e o que é mentira; se de fato o que está sendo compartilhado, se trata de uma verdade. As pessoas compartilham notícias na Internet sem passar da manchete, sem lê-las até o final, aumentando o número de fake news veiculadas nas redes sociais.

Atualmente se torna cada vez mais difícil filtrar as informações que recebemos. E isso foi acentuado com o avanço da Inteligência Artificial, que possibilitou a criação de robôs que realizam tarefas online automaticamente, os chamados bots, utilizados na veiculação de notícias falsas. E mesmo que tenha sido desenvolvido um sistema de detecção de robôs nas redes sociais, milhares de perfis falsos controlados por humanos são criados diariamente, com o objetivo de propagar as fake news por toda a Internet. O professor Eugênio Bucci reflete sobre a evolução tecnológica dos tempos atuais. “Vivemos em uma sociedade de imperativos de ordem tecnológica que atropelam as extensões propriamente humanas. Nós humanos nos convertemos nos principais vetores do que vem envenenando o debate público. Mesmo existindo o robô, o algoritmo, a inteligência artificial, nós ainda somos os principais vetores, movidos por uma pulsão de desejo. O sujeito deseja e não sabe o quê e o porquê”, afirma Bucci. Ele também fala sobre as transformações da essência do jornalismo ao longo dos anos. “No início, os jornais interpelavam um sujeito racional, em torno de assuntos de interesse público, ligados à política e ao poder. O entretenimento e o divertimento eram penduricalhos laterais nos grandes veículos jornalísticos, nos jornais. Em um século, esses penduricalhos se tornaram principais. Os relatos jornalísticos passam a circular pelas leis do entretenimento, do divertimento, do espetáculo”, reflete o professor. A ascensão da diversão/lazer nos meios jornalísticos aumenta a veiculação de informações imprecisas e incorretas, uma vez que os jornais transmitirão o que as pessoas querem ver, consumir, não necessariamente correspondendo à realidade.

Pesquisas da Folha de São Paulo indicam que as pessoas tendem a acessar, interagir e compartilhar publicações de páginas sensacionalistas, escandalosas e de fontes duvidosas, ao invés de páginas de jornalismo de verdade, vinculadas à jornais renomados. A Folha analisou, no último trimestre, 72 páginas online: 21 que veiculavam informações duvidosas e 51 de jornalismo profissional. O resultado foi que as fake news tiveram 61,6% de aumento nas interações, enquanto que as páginas de jornalismo profissional sofreram queda de 17% no acesso às notícias.
Existem muitos exemplos que ilustram a proporção que uma notícia falsa pode atingir ao ser veiculada na Internet. Por exemplo, o caso de Marielle Franco, ex-deputada do PSOL que foi assassinada dia 14 de março deste ano, no Rio de Janeiro. Após sua morte, com o objetivo de difamar a imagem da ex-deputada, muitas informações falsas sobre ela passaram a ser espalhadas nas redes sociais, como por exemplo que Marielle Franco teve um relacionamento e ficou grávida do traficante Marcinho VP ou que ela foi eleita pela facção criminosa “Comando Vermelho”, entre várias outras. A veiculação de tais informações alcançou proporções estrondosas, o que acarretou em vários discursos de ódio envolvendo Marielle. Pouco tempo depois foi criado um site em sua homenagem e memória, onde são desmentidas e esclarecidas as mentiras que estavam sendo espalhadas sobre ela na Internet. “Uma coisa é debater sobre posicionamentos políticos. Outra bem diferente é caluniar, repercutir mentiras e desrespeitar a sua memória e o luto de seus familiares e amigos” diz o site.

 

Ex-deputada Marielle Franco. Foto: Flickr

Outro exemplo seria a difamação de candidatos às eleições presidenciais de outubro no Brasil. O Globo divulgou que o deputado Jair Bolsonaro do PSL, pré-candidato à presidência da República, passou mal em Roraima e foi internado em um hospital no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, ele desmentiu as últimas notícias ao publicar um vídeo onde explica que passou mal no aeroporto, mas não houve internação. Bolsonaro criticou também a atitude do jornal ao veicular tais informações falsas que, segundo ele, talvez tivessem a intenção de dar a ele uma postura frágil, de saúde fragilizada, enfraquecendo-o tão perto das eleições. Além disso, recentemente, notícias relacionadas ao ex-presidente Lula foram veiculadas, desde antes de seu julgamento e prisão. Por toda a Internet, uma foto de jogadores do Corinthians segurando uma faixa onde está escrito “Força Lula” como meio de protesto à prisão do ex-presidente, está sendo compartilhada freneticamente nas redes sociais. O fato é que esta informação é falsa: esta foto data de 2011, quando Lula foi diagnosticado com câncer e ele, por ser corintiano assíduo, recebeu uma homenagem do seu time do coração.

Pesquisadores estão receosos de que a propagação desenfreada de fake news possa influenciar os resultados das eleições de outubro aqui no Brasil. É importante lembrar que muitas notícias falsas foram veiculadas na Internet na época das eleições presidenciais em 2014, quando Dilma Rousseff foi eleita, além das eleições dos EUA já citadas anteriormente, onde as fake news provavelmente foram determinantes no resultado final das eleições. Os casos recentes de Bolsonaro e Lula já são evidências de um futuro movido pela desinformação.
Mark Zuckerberg, CEO e criador do Facebook, comentou sobre a veiculação de notícias falsas por agências russas durante as eleições presidenciais dos EUA, quando se apresentou ao Senado americano para responder ao vazamento de dados pessoais de 87 milhões de pessoas no Facebook. “Isso é uma corrida armamentista” disse Zuckerberg. Ele afirmou que está trabalhando para aumentar a equipe de segurança da rede social, que hoje conta com 15 mil pessoas, além de admitir que o Facebook foi lento em reagir a estas informações duvidosas.
Logo, como escapar dessas informações falsas que circulam diariamente em nossas redes sociais? A Federação Internacional das Associações e Instituições de bibliotecária (IFLA) divulgou algumas dicas de como evitar as fake news. Sempre procurar a fonte das informações, ler as notícias do início ao fim, nunca parar na manchete, checar sempre quem escreveu o texto, verificar outras fontes além daquela e verificar a data de publicação são alguns dos meios publicados pela Federação, a fim de impedir ou ao menos reduzir a propagação de informações erradas e falsas.

Um dos grandes problemas no que se refere às fake news é a interpretação equivocada do que está sendo visto, lido e veiculado. Muitas pessoas não possuem educação suficiente para compreender o que estão consumindo e acabam interpretando as notícias de maneira errada. Logo, a educação de base se torna um obstáculo. Uma das soluções seria o investimento no ensino, estimulando uma boa interpretação de texto e a análise de textos ambíguos e duvidosos, como pensa Leandro Beguoci. “O ensino público é um problema. Existe muito trabalho de base a ser feito que hoje não existe na maioria das escolas. Muitos dos problemas de fake news são interpretação de texto. As pessoas não conseguem fazer distinção do encadeamento lógico de um texto. Em notícias falsas, muitas vezes um parágrafo contradiz outro. Muitas vezes estão descontextualizadas, as pessoas não olham sequer a data de quando tal notícia foi publicada. E 80% das crianças do Brasil são educadas em escolas públicas. Isto é uma questão concreta”, afirma.

Eugênio Bucci acredita que a veiculação de informações falsas também se trata sobre as relações emotivas/afetivas dos indivíduos bem como suas respectivas bolhas sociais. “As pessoas compartilham mensagens envenenadas para reduzir sua carência afetiva, ganhar agrados de seu grupo, se tornar conhecido, amado, popular. Estamos lidando com um momento da civilização em que a verdade é invocada e contemplada com certa autoridade divina errada. As pessoas acreditam na ciência como uma fonte da verdade. As pessoas dizem que isto está cientificamente provado, e, portanto, é verdade. A força da ciência resulta do oposto: da qualidade de ser falível, contestável, retrabalhada e de dizer o oposto, e assim sucessivamente. Esta relação divina com a verdade dificulta o combate às mentiras. A civilização busca verdades para adorar”, reitera o professor.

“Nosso mundo encolheu”. Foto: Pixabay

Ainda assim, o meio influencia o homem, de modo que, em um mundo movido pela mentira, se torna extremamente difícil para qualquer pessoa evitar cair nas armadilhas das fake news.

Leave a Reply