Instituto Moreia Salles inaugura exposição sobre independência do Mali

Por Luiza César e Natália Campos

Mural inicial da exposição com o nome do fotógrafo                                                                                       Foto: Natália Campos

Século XIX: Mali se encontrava como colônia da França, formando o Sudão francês, tal como diversos outros países da África. Seydou Keïta com apenas sete anos seguia a profissão de seu pai, ao se tornar carpinteiro. Seu interesse por fotografia surgiu ao ganhar do tio uma câmera-caixote Kodak Brownie 6 x 9 com seu primeiro filme de oito poses. Com apenas um clique, retratava os habitantes de Bamako, capital de Mali e cidade natal de Seydou, nascido em 1921. Autodidata, Keïta começa a exercer a fotografia profissionalmente e abre seu estúdio, realizando milhares de retratos com prudência em relação às vestimentas e aos gestos, criando sempre um vínculo com os clientes.

No último dia 15, no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, foi inaugurada uma exposição de Seydou Keita sobre a independência de Mali. A mostra traz, além de 44 imagens ampliadas pelo próprio fotógrafo (18 x 13 cm), outras 86 obras ampliadas (40 x 50 cm e 50 x 60 cm) para galerias e museus de arte. Interessado em retratar a população da capital, suas fotos, que percorrem o período entre a colonização e a independência, representam uma complexidade muito maior e misturam tradição e modernidade.

A movimentação é um fator muito presente em suas imagens, demonstradas pelas poses estabelecidas pelo artista assim como a ousadia em imagens em que a pessoa retratada mostra-se de costas para o fotógrafo ou em que um casal transmite um momento de intimidade perceptiva apenas através da interpretação. Além da fluidez dos movimentos, dando vida para as fotografias, elas são compostas também por equilíbrio e organização. A harmonia do preto e branco misturado com a diversidade de estampas e com a movimentação fazem a composição de uma foto, criada com apenas um clique.

Retrato de uma mulher feito por Seydou Keita                                                                                               Foto: Natália Campos

A captação dos signos históricos feita através de retratos que emblemam o status social da população é muito visível em suas 44 fotografias expostas, nas quais, objetos de valor eram ressaltados ao serem coloridos pelo próprio artista a pedido dos “modelos”. A busca por uma identidade cultural que consegue conquistar o que antes era privilégio colonial tem mais prioridade do que a construção de uma cultura imaculada.

A convergência entre o moderno e o tradicional é imposto pelo próprio fotógrafo que compõe suas imagens com vestimentas tradicionais, repletas de estampas e detalhes com atributos da vida ocidental, de um estilo de vida que diante de um momento pré- independência, era desejado.

Espaço de exibição de um curta e exposição de tecidos utilizados por Seydou Keita                                   Foto: Natália Campos

Os tecidos tradicionais evidentes nas fotografias fazem parte da história da colonização em que as rotas das caravanas eram mapeadas para conseguirem fazer as trocas comerciais, na qual a globalização começa a entrar em evidência. Suas produções, sendo assim, entram em um hibridismo cultural mostrando mais uma vez o poder da hegemonia.

Seydou Keïta teve sua primeira mostra individual em 1994 na Fundação Cartier, em Paris, cidade em que veio a faleceu em 2001. A história por trás das narrativas imposta em suas fotografias são ao mesmo tempo antigas por expor a relação colonial entre a África e a Europa e modernas por trazerem a busca de uma identidade cultural afetada pela globalização, em que, tradições são deixadas de lado por de uma afirmação urbana.

Pessoas caminham pela exposição.                                                                                                                Foto: Natália Campos

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