Projeto “Ponto Firme” une cárcere e passarela

Gustavo Silvestre é o responsável pelo Projeto Ponto Firme. Foto: Divulgação

Por Sofia Ferreira

O São Paulo Fashion Week, evento que simboliza a temporada de moda brasileira, emocionou os fashionistas de plantão no sábado, 21 de março, em sua estreia nessa temporada, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera. Fugindo do glamour, o evento trouxe dessa vez para a passarela um ideal diferente dos modelos padrão de todos os anos: a temporada de desfiles da 45° edição foi aberta, pela primeira vez pela apresentação do chamado “Projeto Ponto Firme”.

Vogue Brasil. Foto: Marcelo Salvador

 

O “Projeto Ponto Firme”, criado pelo designer e artesão Gustavo Silvestre, é voltado para profissionalização dos detentos da penitenciaria masculina Adriano Marrey, em Guarulhos, com cursos técnicos de crochê para criação de roupas, acessórios e decoração. Hoje, o projeto já tem mais de dois anos e meio de existência, e formou cerca de 100 detentos. Além do conhecimento adquirido e do passatempo, para cada 12 horas de estudo dentro da penitenciaria, os detentos ganham um dia a menos em seus totais de cumprimento de pena.

Vogue Brasil. Foto: Marcelo Salvador

Resultado de um trabalho de mais de nove meses, o desfile, apresentado nessa edição do São Paulo Fashion Week, contou com 30 looks confeccionados por 19 detentos do começo ao fim, que tinham aula da prática duas vezes por semana durante seis horas diárias, e produziram, durante as aulas ministradas por Gustavo – expert em moda sustentável – todas as peças de roupa e acessórios entre camisetas, calças, vestidos e mochilas que foram apresentadas na passarela. Devido a decisões judiciais, os detentos não foram liberados da penitenciária para desfilarem como modelos do desfile, mas o casting do “Projeto Ponto Firme” foi pensado especialmente para a ocasião: ex-detentos e pessoas “normais”, com características físicas que diferem do padrão das passarelas.

Vogue Brasil. Foto: Marcelo Salvador

A ideia da apresentação para o público geral surgiu durante um desfile de sucesso dentro da própria penitenciária, em uma exposição entre os detentos para mostrar e incentivar os demais trabalhos realizados. A aceitação foi tamanha que Gustavo resolveu trazer para a glamorosa passarela do SPFW o projeto, que andou lado a lado com as maiores grifes da alta moda brasileira. Os homens do grupo, em geral, são em sua maioria pessoas que já possuíam algum conhecimento e afinidade com as agulhas, tornando o projeto mais proveitoso para ambos os lados – mas as oficinas são abertas a todos que se interessem pela prática.

“A maioria de quem se prepara para sair encontra muitas dificuldades para chegar ao mercado de trabalho. Além dessa contribuição, também damos voz à criatividade tão potente de quem vive sob circunstâncias tão difíceis”, detalha Gustavo. As peças, produzidas com o apoio de doações de linhas, lãs e aviamentos de empresas parceiras, simbolizam, para Gustavo, muito mais do que um projeto social. Representam um novo olhar da moda brasileira, que hoje, ainda possui valorização unilateral das classes A e B, e da alta costura.
As peças desfiladas no SPFW N45 estão expostas no Museu da Resistência, dentro da Estação Pinacoteca, em São Paulo.

 

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