Racismo, misoginia e pobreza são temas de poesia marginal

Por Thays de Oliveira Reis e Ana Carolina Avólio

 

Slam das Minas representado por Luz Ribeiro, Mel Duarte, Pam Araújo e Carolina Peixoto. Foto: Renata Armelim

Em meio a debates sobre racismo, misoginia, pobreza e amores, a população periférica resiste e mostra sua potência na arte. Faz da vivência, poema e com um grupo de palavras, concretiza a transformação. A poesia das margens faz pela sociedade muito mais do que a academia já fez. Aproxima a arte do cotidiano, devolve a política para as mãos da população e une diversas pessoas para trocar histórias e se ouvirem mutuamente. Como diz o poema da slammer Mariana Felix “A poesia marginal explica: Foi o hip-hop e não os decassílabos dos Lusíadas que fez muito moleque que hoje escreve, enfim, parar de cheirar cocaína”.

Os Slams são campeonatos de poesia, em que os participantes possuem apenas 3 minutos para apresentar sua arte – uma poesia sem adereços ou acompanhamento musical. Geralmente de autoria própria. O Júri é escolhido na hora na plateia e dá notas de 0 a 10, mesmo que os ouvintes sempre gritem “credo!” quando a nota é abaixo do limite máximo.

Juradas dando nota máxima a poeta participante. Foto: Renata Armelim

Movimento que teve início em Chicago, Illinois com Marc Smith em 1984, o slam ou ainda conhecidos em inglês como poetry slam ou spoken word (palavra falada, em inglês), se espalhou pelos EUA e, nos anos 90 pela América. Foi adotado por muitos jovens e artistas independentes, que viram nessa forma de fazer arte uma oportunidade de ampliar a literatura e fazê-la mais acessível, desde seu público ao seu conteúdo. A intenção era e ainda é fazer uma arte próxima da vida cotidiana, próxima da vida real e da população.

O nome “Slam” também não é traduzido. Seria uma representação de um barulho, um estrondo, algo como uma porta se fechando alto. Essa onomatopeia simboliza o conteúdo das poesias recitadas, textos fortes, impactantes, com barulho, com grito, com uma crítica que pode causar inúmeras sensações, de risadas a lágrimas nos olhos. É sentimento e intensidade, diferente da usual declamação pausada de poesia clássica.

Nos slams se discute amor a política, abuso e violência. Racismo, feminismo e a luta de classes e suas desigualdades também se fazem sempre presentes. Em 3 minutos os poetas tomam as responsabilidades para si, representam um grupo e falam pelas dores próprias e dos seus iguais, que retribuem gritando, aplaudindo e participando ativamente das apresentações.

No Brasil, a primeira batalha de poesia foi idealizada por Roberta Estrela D’alva, atriz, diretora e poeta que ganhou em terceiro lugar na Copa do mundo de Poesia Slam de 2011, além de membra fundadora do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, que mistura teatro com hip-hop. Foi o coletivo que organizou a primeira competição da poesia, chamada de ZAP – Zona Autônoma da Palavra.

SLAM DAS MINAS

O Slam das Minas surgiu no Distrito Federal em 2015, seguido por São Paulo, Goiânia, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Pernambuco, Salvador, Minas Gerais, Belém, Alagoas, Mato Grosso e com projeção para crescer ainda mais.

Tatiana Nascimento, idealizadora desse slam feito apenas por mulheres, trata o sucesso da ação como uma semente que frutifica. “Acho que isso tudo é quinem achar uma semente alada, dessas que têm asas translúcidas y às veis passam displicentes num vento morno na frente da nossa mirada: pequena, delicada, secreta, mas corajosa…” é assim, com uma narrativa poética, rica na simplicidade, escrevendo palavras como elas soam, com diversas influências e elementos, que Tatiana descreve o processo de disseminação do Slam das Minas na introdução do livro “Mudas – falas são sementes em germinação”, livro independente de 25 poetas que já passaram pelo Slam das Minas.

Recebido com emoção pelo público que lotava as cadeiras e salas laterais da Casa das Rosas, o Slam das Minas se apresentava pela terceira vez no local, em um evento que acontece anualmente. Em cima do palco quatro mulheres unidas pelo mesmo ideal: criar um espaço de voz e acolhimento para as minas, monas e manas no contexto da competição de poesia falada.

E elas dão o recado logo no começo da tarde com seu manifesto, ou melhor, “Manifesta”, que convida as mulheres a falarem, os homens a respeitarem e, por fim, convida o participante a se abrir à transformação “Prepare sua alma, do jeito que entrou aqui, não mais sairá” uma profecia do Slam das Minas que se cumpre a cada encontro espalhado pelo país.

Com direito a Pocket Show de Danna Lisboa, artista trans e negra, lançamento do livro Sangria de Luiza Romão e uma pequena apresentação de dança descontraída das organizadoras, o encontro foi cheio, não só de poesia, mas de pessoas compartilhando suas próprias histórias dispostas a se ouvirem, além de uma novidade no Slam das Minas SP: Foi o primeiro evento que contou com intérprete de libras, garantindo maior acessibilidade.

Antes da competição de fato, o microfone ficou aberto para qualquer um que desejasse falar, nessa fase não há jurados nem notas, apenas as performances. Uma dupla que se destacou foi “OsRetirante”, um homem e uma mulher que constituem um projeto de resgate da cultura nordestina que recitou um poema sobre a segunda violenta Guerra de Canudos.

Depois do aquecimento, começa de fato a competição. “Slam das minas, monas monstras!” é o grito de guerra antes de cada poesia e, a partir desse momento apenas mulheres falam. Na maior parte das vezes política e social, a crítica se faz exemplificando na própria vida, o contexto de uma problemática maior. Temas como o machismo, misoginia, racismo, violência e religião foram recorrentes nas pautas das mulheres que passavam pelo microfone.

As poetisas recitaram seus poemas e, após uma primeira rodada em que todas as inscritas se apresentaram, só passou para segunda etapa/fase quem gabaritou a pontuação, ou seja, recebeu 10 pontos de cada uma das 3 juradas escolhidas aleatoriamente na plateia.

Kimani e Luiza Romão, vencedoras do slam. Foto: Renata Armelim

Kimani, poeta que mostra a militância na sua arte, ganhou em primeiro lugar junto com a escritora Luiza Romão, que aborda temas como a corrupção e frustração na política e estava lançando seu livro Sangria. O terceiro lugar foi conquistado por Tayla Fernandes com poemas sobre ser mulher e sobre o preconceito contra a população negra.

Assistente social e estudante de psicologia na FMU, Cynthia Santos adotou o vulgo Kimani, que significa menina doce em africano, para publicar as coisas que escrevia sem que a identificassem. Hoje, sem medo de dizer o que pensa, o vulgo representa sua força e potência.

A poeta conta que seu gosto pela escrita vinha desde pequena em cartinhas de amor que escrevia para a família, mas foi para lidar com um fim de relacionamento que essa escrita se aprimorou e se tornou crucial na sua vida. Hoje sua poesia tem muito a ver com sua luta “Pra mim é muito tranquilo escrever uma poesia sobre ser negra ou sobre me incomodar com a possibilidade que uma classe social tem e outra não, porque eu sou assistente social, é isso que eu vivo diariamente”. Explica a poeta “escrever é só um desabafo, um contínuo e, de certa forma, uma resposta”.

Poeta Kimani declamando sua poesia. Foto: arquivo pessoal.

Kimani conheceu o campeonato de poesia através de vídeos do Slam Resistência, grupo que se reúne toda primeira segunda-feira do mês na Praça Roosevelt. Porém, a primeira vez que participou foi no Slam da Norte em março de 2017 “minha primeira vez foi bem forte, como são todas as vezes, mas no começo você aprende e percebe que tem 3 minutos para falar e ser ouvido. Para alguém que nunca fala, nunca comenta o que sente, 3 minutos são uma eternidade para você se expressar.”

O Slam cresceu consideravelmente nos últimos anos e, mais do que tamanho, ganhou importância na vida dos jovens, que podem se expressar e serem realmente ouvidos. Como estudante de psicologia, Kimani acredita que a fala é um processo terapêutico que ajuda as pessoas preteridas e excluídas do sistema a se encontrarem e lidarem com suas questões pessoais ou num sentido coletivo “A fala é terapêutica porque você precisa decodificar todo um emaranhado de sentimentos. É preciso entender, peneirar e racionalizar esses sentimentos em escrita. Além disso, o ser ouvido também é terapêutico e o slam promove isso, um espaço onde as pessoas podem falar e serem ouvidas.”

Além de ouvir a voz de inúmeras pessoas preteridas na poesia, o Slam das Minas também convidou uma artista trans e negra para fazer um show. Danna Lisboa realizou um pocket show, dançou junto com a plateia e entre cada música, contava um pouco de sua história e de sua luta por ser uma mulher trans negra.

Danna começou sua carreira nos palcos LGBTQ+ de São Paulo nos anos 2000 e, após um período de sucesso se apresentando, passou por um relacionamento abusivo que a fez desenvolver depressão em 2006. Depois de um período de luta e luto, encontrou na dança incentivo e uma maneira de sair daquela situação. A cantora já escrevia músicas antes de se apaixonar pela dança, mas foi com o tempo e unindo os dois amores que ela foi criando coragem para mostrar sua música. “Daí pra frente fui descobrindo mais e mais sobre meu som e agora estou aqui.”

Na cena musical, Danna vê várias pessoas trans ocupando os espaços e fazendo sua arte, mas acredita que nada está ganho ainda; “eu passo transfobia quase todo dia, mas a arte é um meio de informar e educar. Acho que estamos caminhando, mas a existência de pessoas trans na sociedade ainda está longe de ser normalizada”.

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