Da corrente ortodoxa a mais liberal, eles representam 15% da população na capital

Por Elaine Bertoni

O início da imigração judaica para São Paulo é oficialmente datada em 1810, mas foi entre os anos de 1920 e 1940 que milhares de famílias se estabeleceram no Brasil, para fugir da Segunda Guerra Mundial. Na época, muitos foram para o bairro do Bom Retiro, trabalhando com o comércio em ruas como Ribeiro de Lima e José Paulino. Com a consequente melhoria financeira, essas famílias começaram a migrar para bairros mais nobres, como Higienópolis, seu maior reduto atualmente. Hoje, são mais de 60 mil judeus na capital.

A corrente ortodoxa tem sua aparência mais diferenciada por terem no físico e no vestuário suas marcas religiosas. É comum ver homens de barba longa, casaco e chapéu preto ou com a cabeça coberta por um acessório típico, a quipá. Eles se dividem em hassídicos, uma vertente do ramo asquenazita, originária da Europa Central e Oriental; sefarditas, vindos da Península Ibérica e do norte da África, e os orientais (Iraque), com aparência e rituais diferentes. São todos considerados ortodoxos por seguirem tanto as leis da Torá quanto as do Talmude, outro livro sagrado do judaísmo. Entre essas leis, estão as referentes à relação homem-mulher. Separados desde a escola, possuem funções e direitos claramente bem definidos e segregados. As mulheres ortodoxas devem usar roupas que escondem o colo, os joelhos e os cotovelos. As casadas devem cobrir o cabelo natural com uma peruca. Além disso, também devem se sentar em um local a parte durante as rezas na sinagoga, algumas vezes separadas por um biombo.

Os ortodoxos representam 15% da comunidade judaica paulistana. Por guardarem o sábado, o chamado Shabat, os mais religiosos não podem nem ao menos apertar o botão do elevador de seu prédio. Por isso, em Higienópolis, foi criado um elevador especial: o elevador fica parado por alguns minutos em cada andar, para que não façam nenhum “esforço”. Além disso, também seguem à risca o mandamento bíblico “crescei e multiplicai-vos”, e assim, possuem famílias com proles de cinco ou até mais crianças.

O professor e Rabino fulano destaca a influência que essa comunidade tem sobre a vida paulistana:“houve influência, sem dúvida, no quesito de justiça social para um bem maior. Ao ingressarem nas faculdades e no ambiente profissional, membros da nossa comunidade, aos poucos, procuraram contribuir não só com seus semelhantes religiosos, mas como para toda a sociedade”.  Em relação ao preconceito e a recepção dos imigrantes judeus na região, Chamovitz lembra da Era Vargas como uma época de antissemitismo muito evidente por ser exatamente contemporâneo ao nazismo e a Segunda Guerra Mundial.

A culinária kosher (do hebraico, permitido/adequado), mais um diferencial da religião judaica, consiste em ingerir apenas alimentos permitidos pelas leis da religião, como proibir o consumo de carne de porco, frutos do mar e a mistura de laticínios com qualquer tipo de carne. Dessa forma, uma prática comum entre os empresários judeus é patrocinar a instalação de restaurantes kosher, principalmente nas áreas nobres da zona oeste de São Paulo. Assim, constroem com o passar dos anos, uma rede de apoio e identificação social e religiosa na região.

Diversos ambientes e centros culturais foram criados com a função de unir um povo que já foi muitas vezes excluído e castigado durante a história. Um deles é o Centro Judaico BAIT, fundado em 2005 e localizado no bairro de Higienópolis. É uma instituição que oferece atividades religiosas, culturais e sociais, cursos, palestras e eventos de temática religiosa. Além disso, possui uma sinagoga que dispõe de serviços que independem de conhecimento judaico.

Umas das mais famosas instituições é A Hebraica, clube recreativo do bairro de Pinheiros, possui mais de 22 mil associados da comunidade judaica, uma das maiores da América Latina. Funcionando desde 1957, foca suas atividades na área esportiva, cultural e de entretenimento.

Foto aérea do clube Hebraica

No quesito espiritual, São Paulo possui 55 sinagogas espalhadas pela cidade. A Sinagoga Kehilat Israel (Comunidade Israelita) é a mais antiga sinagoga de São Paulo,foi fundada em 1912. Localizada no Bom Retiro, é o primeiro espaço físico documentado dos judeus na cidade. Foi nesse local que o Memorial da Imigração Judaica foi construído. Ele conta com um acervo de documentos, fotos, utensílios e objetos raros trazidos de Israel e de países europeus.

Sinagoga Kehilat Israel em 1912. Neste local foi erguido o atual Memorial da Imigração Judaica

Fachada do Memorial no Bom Retiro

Interior do Memorial da Imigração Judaica

A Sinagoga Beth El é um dos templos também localizado no Bom Retiro. O prédio contém sete lados, com o intuito de destacar assim esse número  que domina os ciclos naturais, sendo as sete cores do arco-íris e os sete dias de criação.

Sinagoga Beth El

 

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