‘Epifania’ leva plateia à mente de Clarice Lispector

Lilian Prado como Clarice Lispector. Foto: Divulgação

 

Por Guilherme Resck e Liana Ruiz

Com estreia na África e, este ano, em cartaz na Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro entre 6 e 23 de abril, “Epifania” proporciona ao público um grande misto de sentimentos. Idealizada e encenada pela atriz Lilian Prado, escrita por Maria Shu e dirigida por Bruno Carboni, a peça busca explicar como o romance “A Hora da Estrela”, de 1977, foi concebido por Clarice Lispector.

O lançamento da história protagonizada por Macabéa ocorreu no ano em que a autora, considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX, faleceu. Acometida por um câncer de ovário, Clarice Lispector produziu “A Hora da Estrela” enquanto lidava com a doença. E é justamente esse período que “Epifania” retrata.

O início se dá com a escritora, interpretada por Lilian Prado, percebendo os primeiros sintomas do câncer, que aparecem na forma de um forte e irritante cheiro de crisântemos do qual ela tenta se livrar. Os esforços de Clarice para voltar a “feder” incluem o despejo de lixo nos cômodos da casa e uma cansativa caminhada de ida e volta do mercado, que não cumprem com o objetivo.

Tomada, então, pelo desespero, resolve ir ao hospital para entender o que estava acontecendo consigo, e é nessa passagem pelo médico que ela é diagnosticada com câncer de ovário. Quando finalmente descobre o que provocava aquele cheiro desagradável, deixa-se levar por uma forte apatia e desilusão. Todo aquele mal-estar agora, para o bem ou para o mal, tinha um sentido: ela iria morrer em breve, não importando o quanto lutasse contra; seu destino estava traçado.

Lilian Prado como Clarice Lispector. Foto: Divulgação

É nessa situação que Macabéa surge, de forma inquietante, nos pensamentos de Clarice, como uma esperança de cura que a autora imaginava, até ali, que jamais sentiria. O romance “A Hora da Estrela” ganha forma diante do conflito interno de aceitar ou não o sentimento. Desse modo, em “Epifania”, ao entrar em contato com a mente de Clarice, o público pode se identificar com a autora.

Em uma conversa descontraída, a atriz Lilian Prado falou um pouco sobre sua preparação, sua relação com a peça e com a autora e como surgiu a ideia da criação teatral. Segundo ela, a concepção do monólogo surgiu através de uma epifania da “A Hora da Estrela”, que tinha lido há 10 anos, quando ainda cursava o ensino médio. “Eu reli a história e decidi que queria falar disso. Fui pesquisar a vida de Clarice e descobri muitas coisas. Entre elas, o fato de que enquanto estava escrevendo essa obra que tanto me emocionou, ela estava morrendo.”, comenta a protagonista.

E foi assim, com uma imensa vontade de fazer um trabalho autoral, que Lilian se utilizou de Clarice e do livro para a criação de “Epifania”. Seu desejo era, através de um monólogo, tentar fazer uma analogia entre sua vida, a da personagem Macabéa e a da própria autora.

Apresentada a proposta para Maria Shu, que aceitou colocar em prática de forma independente através de um coletivo de artistas, a dramaturga se utilizou de outros contos da autora para escrever a peça, fazendo conexões com as inúmeras obras, até conceber a personagem Macabéa como uma metáfora do sentimento de esperança; a esperança de encontrar a cura enquanto Clarice Lispector está escrevendo o romance.

“Eu fico até emocionada, porque quando estou em cena, imagino a minha esperança. Como ela fala comigo: os desejos que eu queria, as coisas que eu imaginava, as vontades que eu tenho na minha vida e como elas ainda estão nessa condição de espera. Será que devo manter essa esperança? Será que é tão nocivo criar uma expectativa? Será que não é ainda mais nocivo eu viver sem esperar nada?”, diz Lilian Prado sobre sua relação com a personagem.

Lilian Prado como Clarice Lispector. Foto: Divulgação

E questionada sobre a preparação para fazer a peça, a atriz comenta que nunca teve a pretensão de mimetizar Clarice. Seu foco foi buscar analogias que pudessem compor a personagem da maneira mais real possível. “Eu nunca tive uma doença terminal e nunca perdi um filho ou alguém muito próximo de mim, então busquei situações análogas a minha vida para poder trazer isso de alguma forma”, destaca a atriz.

A peça que emocionou a plateia com os últimos conflitos que antecederam a morte de Clarice Lispector termina sua segunda temporada, na Sede Roosevelt da SP Es cola de Teatro, com previsão de retorno para agosto de 2018, quando inicia a turnê pelo estado de São Paulo.

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