“Manas, monas e monstras” transformam dor em arte

Slam das Minas

Salão Casa das Rosas. Foto: Marjorie Wartanian

 

Por Clara Peduto e Marjorie Wartanian

 

Pensa em um rolê insano. Não é balada eletrônica e muito menos um show da sua banda favorita, mas que você vai se arrepiar e, talvez, até se emocionar, é garantia. E mais uma coisa: é de graça! Ele acontece uma vez por mês, e, dessa, foi na Casa das Rosas: é o famoso Slam das Mina! Se você luta pela união e força das mulheres, esse é o evento certo para se conhecer.

O Slam é uma competição – muito saudável – entre mulheres que expõem suas próprias poesias ou raps. A premiação normalmente é em dinheiro, livros ou uma bijuteria vendida pela loja Anjo Negros Store, que sempre colabora e incentiva o evento. Entretanto, nenhuma delas está ali pela recompensa. Todas buscam, de alguma forma, desabafar suas angústias, contar os perrengues de suas histórias, defender suas ideologias e, claro, apoiar o vínculo das mulheres.

 

Mic. Aberto

Poesia em conjunto. Foto: Marjorie Wartanian


Antes do espetáculo, as apresentadoras deixam a plateia a vontade para ir ao palco, caso queiram, expor escritos que gostem ou autorais, é o momento do chamado “mic. aberto”. Entre rimas pra lá e pra cá, teve até criança de 6 anos citando Carolina Maria de Jesus e um casal recitando sua poesia sobre as péssimas condições do Nordeste de um modo dramatúrgico. Antes de cada apresentação, é cantado o grito de guerra: Slam das Mina! Monas, monstras! Durante toda a competição as intérpretes traduziram as poesias para os deficientes auditivos. No mês de abril o Slam bombou de gente. A batalha foi tão intensa que as júris – membros da plateia escolhidas pelas apresentadoras do Slam – tiveram bastante dificuldade em dar uma nota menor que 10 para a grande maioria e até o resultado final deu empate. As duas vencedoras foram Luiza Romão e Kimani.

Luiza Romão

Vencedora Luiza Romão. Foto: Marjorie Wartanian

 

Kimani

Vencedora Kimani. Foto: Marjorie Wartanian



Através de sua poesia, uma das poetas relata uma forte história sobre relação abusiva, abandono da família e estupro. No final, ela assume que quem passou por tudo aquilo foi ela mesma. Confira:

Caiu fora,

se mandou,

nem ligou,

esfumaçou.

Ela se sacrificou,

seu corpo retalhou,

sua alma aprisionou,

sangrou, batalhou, guerreou.

Tudo porque amou,

confiou e acreditou.

E ele a apunhalou,

mas ela ficou.

Quase se matou,

quase desmoronou,

mas é forte,

se levantou

e se empoderou.

No dia a dia se dedicou

cresceu

trabalhou

seu chefe a usurpou

quase a escravizou

e até assediou.

Novamente sangrou, batalhou, guerreou.

Um desconhecido se excitou

     se deu o direito e a estuprou.

        A PM se calou quando esse playboy em dinheiro sacou.

   A sociedade a humilhou

os parentes a julgou

       mas a cabeça não abaixou.

Não sabe se errou  ou acertou.

      Seu destino não voltou, só andou…

e mais e mais estudou

O sucesso ainda não alcançou

       Mas a chama que queima no seu peito a motivou, não se apagou,

só a empurrou

Pra cima, pra longe, pro alto

E você sabe o que ela sonhou?

Aguarde, espere

   Pois ela sapateou e agora escancarou na cara de todos

Que ainda há a coragem que escutou

E se alguém aqui não gostou

Entenda-se com ela

Pois essa mulher é quem esse poema recitou.


Assistir ao slam gera um sentimento único e inesquecível. A euforia é tanta que é notável nas meninas da plateia o orgulho de ser mulher. Conhecemos, no palco, verdadeiras artistas. Mulheres fortes, guerreiras e, principalmente, talentosíssimas. Com o dom da palavra, elas conseguem tocar na alma de quem as ouve.

Por falar em alma, após as batalhas a transexual Danna Lisboa apresentou um show incrível. Uma de suas músicas chamada “Soul” mostra que todos somos um só e dependemos do outro para sermos alguém. A cantora brinca com a palavra em inglês que é o nome da canção e diz “se eu ‘soul’ é porque você é’”. Todas as suas músicas são suas crenças em letras melodiosas, a partir de tudo que ela viveu e quer transmitir.

 

Mic. Aberto

Poetisa. Foto: Marjorie Wartanian

 

Como surgiu a Poesia Slam

Um microfone na mão e opiniões a serem divididas. Se eu estou falando do Rhythm And Poetry? Não. A poesia, que teve origem em batalhas entre os artistas, não é exclusividade do RAPA história da poesia slam, ou slam poetry, em inglês, teve início na década de 80 numa escola de Chicago, Estados Unidos, país em que a cultura hip hop tomava forma. Marc Smith deu início ao que crê-se ter sido o primeiro campeonato de poesias ao microfone, julgado pelo público, que dava notas a cada poeta. Aos poucos a iniciativa se espalhou e, nos anos 90, diversos países da América começaram a adotar esse modo de expressão. Também conhecido como spoken word, ou palavra falada, o gênero ganhou força com a aceitação de adolescentes e poetas independentes, que viram nessa forma de fazer literatura um campo maior de possibilidades de inovação e arte. As temáticas, normalmente sociais, são diversas, mas alguns temas são mais recorrentes: feminismo, racismo, política, crimes contra negros, identidade de gênero e diversidade sexual. No Slam do dia 15 de abril, a vencedora Kimani só poetizou sobre o racismo e o preconceito com religiões africanas – assunto pouco difundido na mídia mas com extrema importância.

As idealizadoras do projeto em SP são Carol Peixoto, Pam Araújo, Mel Duarte e Luz Ribeiro. As meninas criaram o Slam em maio de 2016, no mês das mulheres. Para Luz, vencedora do último Slam BR, o Slam “possibilita que pessoas ditas ‘marginais’ expressem o que pensam”. Afirma que a proposta é agregar e fortalecer o gênero que utiliza a palavra como principal forma de manifestação e para criar um espaço de voz e acolhimento “para as minas, monas e manas”, além de garantir uma vaga feminina para o Slam BR.

A iniciativa surgiu por meio de uma inquietação por causas machistas. Na competição nacional de Slam, em 2015, nenhuma mulher chegou na final, sendo que metade dos participantes eram do gênero feminino. “Os versos das mulheres não perdiam em nada para os versos dos caras, então como a gente não conseguia passar de fase?”, disse Luz Ribeiro. Pam Araújo diz que não sabia a grande proporção que a ideia tomaria, porque, inicialmente, criaram-na especialmente para ter uma vaga para mulheres no Slam BR, pois notaram a necessidade de tê-las nesses espaços. Nas batalhas, todas têm liberdade para fazer poesia sobre assuntos que sempre causaram revolta e dor. “Eu nunca tinha ouvido tanta poesia de amor lésbico quanto aqui no Slam, porque as meninas não se sentem seguras para se expressar em outros espaços. É não usar tanto a poesia só como uma ferramenta de discussão, mas também pra falar de sentimentos com liberdade”, concluiu Carol Peixoto. O comentário geral do público é de que sempre que frequentam esse evento, saem dele internamente diferente do que entrou.

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