Mirante “9 de Julho” resgata espaço esquecido

Por Amanda Pucci e Maria Clara Serpa

Em um passeio pela principal avenida da cidade de São Paulo, a Av. Paulista, é quase impossível imaginar que ali um dia existiu um mirante com vista para boa parte da cidade. Esse local privilegiado ficou abandonado por quase 77 anos até ser reinaugurado como um espaço multicultural, em agosto de 2015. A junção de gastronomia, arte e entretenimento torna o Mirante 9 de Julho um novo ponto de encontro na região mais efervescente da cidade.
O cenário na avenida, projetada por Joaquim Eugênio de Lima em 1891, atualmente é muito democrático. Nos tempos antigos, no entanto, era completamente elitizado, composto por enormes mansões e casarões, lares de industriais, cafeicultores e figuras importantes na sociedade paulista. O Belvedere Trianon era um dos principais casarões da Paulista e nele ficava o mirante, projetado em 1912, com vista para o vale do Riacho Saracura, onde hoje está localizada a Av. 9 de Julho.

Com a degradação desse tipo de construção, em 1968 o Belvedere deu lugar ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), iniciativa do polêmico Assis Chateaubriand, com a única ressalva de que ele deveria deixar o vão livre para o mirante. Assim foi feito, porém, o mirante foi mantido sem uso por muitos anos.
A partir de então, tornou-se ponto de encontro da comunidade homossexual durante os anos 80 e 90 e veio à decadência nos anos 2000, quando começou a reunir inúmeros usuários de drogas e se tornou centro de tráfico. Mais recentemente, ficou conhecido como “Escada da Maconha”, devido ao número de fumantes que se concentravam na escadaria do mirante.

Até 2010, sequer a prefeitura sabia que a 10 metros do principal cartão postal da cidade existia um local com tamanho potencial. Foi através de um consórcio entre o Grupo Vegas e a MM18 Arquitetura, um investimento de quase R$ 800 mil e mais de quatro anos de projeto, que a revitalização do Mirante finalmente se consolidou. A subprefeitura da Sé também teve participação oferecendo alguns espaços públicos para ocupação.

Entrada do Mirante 9 de Julho com Av. Paulista ao fundo. Foto: Amanda Pucci

Após uma reforma do interior e arredores, o Mirante finalmente foi reinaugurado, em agosto de 2015. O espaço, atualmente, vai muito além de apenas uma bela vista. As mudanças incluem um espaço de coworking com wi-fi gratuito, um café, bar e um restaurante. Além disso, há também a Galeria Vertigem, um pequeno espaço para performances e exposições de arte.

Vista das escadarias do Mirante para a Av. 9 de Julho. Foto: Amanda Pucci

O Mirante 9 de Julho tem como principal proposta dar visibilidade a novos artistas, chefs e profissionais da cena paulistana. O Mercado Efêmero, espaço gastronômico, por exemplo, foi idealizado para que, a cada mês um chef que não possui restaurante próprio possa criar um cardápio. Lira Yuri, produtora cultural que comanda o espaço, afirma que a única exigência feita aos chefs é que haja pelo menos uma opção vegetariana no menu e que os preços sejam acessíveis – o prato mais caro atualmente é um hambúrguer por R$22,00.

Restaurante O Mercado Efêmero e bar Isto é Café. Foto: Amanda Pucci

“Adoro vir aqui nos finais de tarde para ver o pôr do sol e tomar um café. Todas as opções do cardápio são ótimas e o preço é muito justo para São Paulo. É difícil conseguir um ambiente tão legal sem o preço ser absurdo.”, diz Fernanda Morais, frequentadora do espaço. O destaque também fica por conta dos eventos organizados, como conta a visitante Isabella Ventura: “Todos os eventos que compareci foram muito bons. Quase todo final de semana tem feira de produtores independentes de roupa e acessórios e eu também gosto as apresentações de música e dança. O melhor para mim é conseguir ter um espaço com tanta coisa legal de graça ou por muito pouco. Sentia falta disso em São Paulo.”

A programação do espaço envolve happy hour às sextas-feiras e sessões de cinema ao ar livre, além de projetos diferentes todo mês. Em abril, por exemplo, aconteceu o projeto 18h30. Em cada um dos dias da semana o Mirante recebeu bandas e artistas diferentes tocando música ao vivo. O projeto deu oportunidade desses novos profissionais tocarem em um palco fixo mensal, com cache fixo e auxílio de assessoria de imprensa.

Show da banda Guantas, parte do projeto 18h30. Foto: Amanda Pucci

Como melhorias recentes, a assessoria do Mirante destaca as obras realizadas nas fontes e chafarizes históricos dos arredores, que incluíram mudanças nos sistemas hidráulico e elétrico, assim como a instalação de nova iluminação. Por fim, está prevista a construção de uma estrutura de vidro e aço que abrigará uma galeria de arte maior.

Pôster da campanha para revitalização das fontes e chafarizes. Foto: Amanda Pucci

Revitalizações como a feita no Mirante 9 de Julho são importantes para a história de São Paulo. Por muito tempo, a cidade foi muito excludente e contava com poucas opções de lazer gratuitas. Ao longo do tempo, essas mudanças farão uma enorme diferença na qualidade de vida dos paulistanos. Finalmente podemos nos considerar em um momento de democratização dos espaços e de valorização da cidade.

Como chegar:
O Mirante 9 de Julho fica embaixo do Viaduto Bernardino Tranchesi (atrás do vão do Masp), próximo à Estação Trianon-Masp (Linha 2 – Verde) e ao corredor de ônibus da Av. 9 de Julho, na parada Fundação Getúlio Vargas.
Há um bicicletário disponível na calçada da Rua Carlos Comenale para os que quiserem continuar o passeio de bicicleta pela região.
Endereço: R. Carlos Comenale, s/n – Bela Vista, São Paulo – SP
Telefone: (11) 3111-6342
Capacidade: 350 pessoas
Entrada: gratuita
Horários: Espaço cultural: 10 às 22h – terça à domingo (e feriados) Restaurante O Mercado: 12 às 22h – terça à domingo (e feriados) Café e bar Isso é Café: café – 10h às 18h; bar – 18 às 22h – terça à domingo (e feriados).

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