À vista do Farol Santander, os pontos de José Saramago

 Por  Marina Monari e Gabriel Buchmann

            A exposição como biografia do autor

            Com sua primeira exposição bibliográfica, o Farol Santander já estreou em grande estilo com “SARAMAGO – os pontos e a vista”, que trata sobre as obras do autor, mas principalmente sobre sua vida, por meio de depoimentos dele e de sua esposa.

            O autor, José de Sousa Saramago, nasceu no ano de 1922, em Azinhaga, Portugal. Ganhou o Prêmio Camões em 85 e o Nobel de Literatura em 98. Possui uma extensa obra ( crônicas políticas, artigos jornalísticos, contos, romances, prosas poéticas), que inspirou alguns filmes – como Ensaio Sobre a Cegueira, com o diretor brasileiro, Fernando Meirelles – e é aclamada por trazer a literatura portuguesa aos holofotes mundiais. E além de tudo, é um desafiador da linguagem, com uma narrativa pervertida, pontuações e marcações pouco comuns para a escrita, mas que ele define como a linguagem em si, a linguagem do povo.

            Encontrou seu lar em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, após casar-se com a espanhola Pilar Del Río.

            A exposição é dividida em fases, as da vida dele. E cada uma delas é projetada em algum objeto que complementa muito bem aquilo que José Saramago fala.

            De acordo com a jornalista e espectadora da exposição, Danielle Caroline Amaral, a divisão é linda, criativa e de imensa profundidade, “não imagino de outra forma.”, completa. Para Ariadne Bognar, também jornalista, as divisões vão conduzindo, despertando e emocionando; ao mesmo tempo que são um momento de conhecimento do autor e reconhecimento do espectador.

 

            As divisões

            O começo mostra José Saramago, ele em primeira pessoa. Cada etapa abre uma porta em quem vive a experiência da exposição. Cada cômodo é explorado de maneira sutil, mas ao mesmo tempo com um impacto extremo, como se fossem convites para olhar a relação leitor- autor de forma mais ampla, para identificá-lo como ser humano.

            Parte de sua infância é contada em cima de um livro de vendas; o autor fala sobre como veio a se chamar Saramago e porque – como raridade, o filho deu o nome ao pai. Com imagens e projeções de seu lar em um banco de areia, conta como Lanzarote tornou-se sua casa, mesmo que não tenha nascido ali.

            Em uma cabeceira que era da cama de seus avós, onde eram colocados os porquinhos nas noites frias para que não morressem, José Saramago discorre sobre um sonho que teve, como interpreta-os por realidade virtual, sobre a saúde ser igual a um motor de carro que não se ouve, mas de repente começa a dar uns problemas e fala tudo isso de uma cama, pois estava internado; recuperou-se, terminou um de seus livros mais vendidos A Viagem do Elefante e dedicou “A Pilar, que não deixou que eu morresse”.

            De frente a um espelho há um banco, onde o espectador senta e ouve sobre a decisão do autor: só se tornou escritor aos 60 anos, quando perdeu seu último emprego, no jornal Diário de Notícias – Lisboa, como não sabia o que fazer, decidiu não decidir por nada e assumir o cargo de escritor.

            A fase “Objeto quase”, foi para Ariadne a melhor, “Saramago nos aproxima da nossa essência e nos incentiva a não nos coisificarmos… Ele nos toca, nos comove e perturba.”, disse a jornalista.

            Sua infância foi contada dentro de um baú forrado de jornais; sua interpretação sobre a linguagem em uma janela.

Reprodução Google

            Sobre um mural de brinquedos fala sobre o Partido Comunista – de que fazia parte-, onde também é projetada sua visão sobre o Natal; seus inúmeros deslocamentos, em uma mala de viagens.

            Com óculos 3D pendurados em fios do teto, o segmento intitulado de “Visão”foi a parte que mais impressionou Danielle . Para ela, a visão que um corvo tem de Julieta, que é completamente diferente da de Romeu, serviu como uma metáfora para a nossa vida, de como as pessoas sempre vão ter diferentes pontos de vista sobre o mesmo fato.

            No entanto, as partes mais impactantes ficaram para o final. O encontro com Pilar; seu ateísmo, que foi descrito por ele durante uma viagem num carro e projetada na exposição em uma meia lataria com bancos, onde o espectador entra e senta-se como se o estivesse entrevistando; e principalmente sua visão sobre a morte, de que ele não tinha medo – mas Danielle tem muito e preferiu não assistir até o final, pois o medo do infinito que isso significa foi maior. Saramago tinha mesmo era vontade de ser uma árvore – para se alimentar da terra, crescer, se alargar, dar frutos ou flores se tiver que dar e morrer quando for sua hora de morrer, quando tiver cumprido seu propósito. No final, a lápide de um indignado e a vista do Farol Santander à cidade de São Paulo.

            Danielle definiu a exposição como uma das coisas mais lindas e profundas que já viu, ainda mais por ser nacional e gratuita, gostou muito da interatividade que ela proporcionou durante a trajetória do escritor e que serve de lições para a vida.

            A exposição permite que se veja, acima de tudo, um homem comum; mas de pensamentos coerentes sobre a vida, sobre a realidade socioeconômica atual (sim, atual) e mais, leva o espectador a questionar pensamentos concretos sobre detalhes cotidianos.

 

Informações:

SARAMAGO – os pontos e a vista

Local: Farol Santander

Data: de 06 de março a 03 de junho

Horário: Terça a Sábado das 9h00 às 20h00 e domingo das 9h00 às 18h00

Entrada franca

 

 

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