Memorial da Resistência guarda passado de repressão

Por Giovanna Linck e Enzo Kfouri

Hoje, um espaço que preserva as memórias da resistência; no passado um local de repressão. O Memorial da Resistência foi inaugurado em 2009 no mesmo lugar que abrigou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops/SP), entre 1940 e 1983, servindo como uma homenagem aos que lutaram pela democracia no Brasil.

Símbolo do Memorial, presente na entrada do local. Foto: Enzo Kfouri

 

O espaço conta com uma exposição de longa duração que está orientada em quatro módulos. O módulo A apresenta o tema do memorial e a história do Deops/SP; o B contextualiza o espaço no âmbito do Brasil republicano; no módulo C, o visitante pode ter acesso às celas, cada uma delas conta mais sobre a história do prédio e dos presos que ali estiveram. É possível ver uma reprodução das celas e ouvir relatos de ex-presos políticos através de fones disponíveis no local; o D é um centro de referência onde é possível acessar fontes documentais.

A entrada é gratuita e o museu, localizado no Largo General Osório, 66, na Santa Ifigênia, funciona de quarta à segunda, das 10h00 às 17h30. Além do acesso aos módulos, os visitantes podem conhecer a exposição “CANTO GERAL – a luta pelos direitos humanos”, que vai até dezembro deste ano, no 3º andar.

“As celas passam uma sensação de frieza, uma certa nostalgia, as portas de ferro, as trancas, as grades”, diz a ex-professora, Tânia Pereira, 48, em visita ao local. “No decorrer do passeio tem textos e fotos dos acontecimentos da época, correspondências e jornais antigos, que nos dão mais noção dos fatos”. Apesar de achar o lugar legal e repleto de informações, a ex-professora faz ressalvas quanto à localização; “eu achei o espaço conservado e limpo, porém o entorno não é muito seguro, o que, talvez, afaste alguns visitantes”.

 

Reprodução de uma das celas onde ficavam os presos. Foto: Enzo Kfouri

 

A construção passou pelo processo de tombamento em 1999 e por uma total revitalização, concluída em 2002. Em 2008, seu nome mudou para Memorial da Resistência, com mudanças no local que relembrassem mais a época de tortura, como uma homenagem sensível. A inciativa do Governo do Estado de São Paulo contou com a participação do Fórum dos ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo.

O memorial faz parte do “Programa Lugares da Memória” que realiza a identificação e sinalização de lugares onde ocorreram ações repressivas e de resistência, como por exemplo o CRUSP-USP, o teatro TUCA na PUC e a Rua Maria Antônia, com o objetivo de “expandir o alcance preservacionista do memorial”. Há também a “Coleta de Testemunhos” que conta com a participação de ex-presos políticos, seus familiares, pessoas que trabalharam no Deops/SP, ou que estiveram envolvidas de alguma forma. O objetivo é aumentar o banco de dados, ao qual o público em geral poderá ter acesso.

Placa em homenagem à PUC-SP na seção que relembra locais e acontecimentos importantes. Foto: Enzo Kfouri

 

Para José Arbex, professor do curso de jornalismo da PUC-SP, é fundamental ter espaços voltados a memória do período de ditadura, “só tem uma forma de você entender o momento presente em que você vive, que é fazendo uma reflexão do passado”, explica Arbex. “A memória não é uma coisa estática, ela é dinâmica. A partir do momento em que você estabelece uma relação crítica com ela e tenta entender o que aconteceu no passado, isso tem um potencial transformador. Eu diria que sem a memória não somos humanos”, completa.

A ideia de eternizar períodos sombrios do passado de uma nação não é exclusivamente brasileira, em outros países é desenvolvida de maneira até mais intensa. Argentina e Chile também passaram por regimes militares tão rígidos quanto ou até mais severos que o brasileiro e possuem memoriais conhecidos.

É raro ir à Santiago e não visitar o Estádio Nacional, assim como não fotografar a área preservada da arquibancada ou visitar o museu da ditadura chilena que lá está presente. Outro exemplo clássico são os campos de concentração desativados na Alemanha que se tornaram memoriais do holocausto e que preservam até os dias de hoje a memória das atrocidades da 2ª guerra mundial através de uma experiência chocante.

Segundo Arbex, o mais importante para a preservação da memória não é a expressão do espaço físico, mas a consciência dos cidadãos e as políticas públicas, “o espaço físico não tem tanta importância. O problema está no espaço político, no que significou a ditadura, e o que significa a democracia no imaginário das pessoas”.

 

Corredor onde os presos tomavam banho de Sol. Foto: Giovanna Linck

 

Arbex aponta a falta de conhecimento das consequências do período militar e a fraca consciência da população sobre os acontecimentos como alguns dos motivos que levam as pessoas a enxergarem os fatos com certo distanciamento, “você vai no memorial como se fosse ao Museu do Futebol ou um museu de artes plásticas. Você vê as celas e objetos de tortura, mas como você não incorporou aquilo no seu imaginário é como se não te dissesse respeito, você vê como uma curiosidade”.

O professor indica possíveis soluções para esse cenário: “Consciência, discussão, punição dos culpados pela ditadura, um julgamento real do que aconteceu no regime militar, um processo de retomada da história no sentido da crítica”. Ele ainda alerta para o fato de que “a mera repetição da memória não significa muita coisa”, ele diz que é importante aprender com os acontecimentos e pensar em atitudes para não deixar que o passado se repita, “além da memória você precisa ter uma ação crítica e reflexiva”, afirma.

 

Grades cercavam todo o local. Foto: Giovanna Linck

 

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