Movimento político e revoltas estudantis mudaram os rumos da França

O movimento de maio de 1968, na França, tornou-se ícone de uma época pela renovação dos valores e veio acompanhado pela proeminente força de uma cultura jovem.

Por Adriano Rodrigues Madruga 

 

Maio de 68-início das manifestações.

O começo de tudo foi uma série de conflitos entre estudantes e autoridades da Universidade de Paris, em Nanterre, cidade próxima à capital francesa que tinham como principal incentivo temas como: melhores qualidades de estudo e a unificação dos dormitórios masculinos e femininos que a instituição não permitia. Como forma de mostrarem seu descontentamento fizeram várias pichações nos muros e depredações do patrimônio estudantil. No dia 2 de maio de 1968, a administração decidiu fechar a escola e ameaçou expulsar vários estudantes acusados de liderar o movimento contra a instituição. As medidas provocaram a reação imediata dos alunos de uma das mais renomadas universidades do mundo, a Sorbonne, em Paris.

Daniel Cohn-Bendit 1968 | by vfutscher

Eles se reuniram no dia seguinte junto aos alunos da Nanterre para protestar, saindo em passeata sob o comando do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit, onde com muito vigor unificou os estudantes sob uma única causa. A manifestação toma corpo fazendo com que a reitoria chamasse a polícia para proteger a universidade (algo que nunca acontecia), ocorre então o confronto nos arredores da Sorbonne, Quartier Latin. No dia 5 de maio, 10 mil estudantes entram em conflito com a polícia. Mas em 10 de maio a revolta se intensificou, o Quartier Latin é tomado por barricadas, carros queimados, paus e pedras pelo chão. Vinte mil estudantes entram em um conflito sério com as autoridades, a violência é grande e muitos saem feridos. Enquanto os policiais vinham com cassetetes, os estudantes arrancavam as pedras das calçadas e atiravam como resposta. Este foi o maior conflito e ficou conhecido como “A noite das barricadas”. A polícia ocupou a Sorbonne por uma semana, enquanto isso, as manifestações continuavam.

Maio de 68 – Uma Paris livre/noite das barricadas

A repressão contra os estudantes durou vários dias e as ruas de Paris viraram um cenário de batalha. A reação do governo só ampliou a importância das manifestações: o Partido Comunista Francês anunciou seu apoio aos universitários buscando uma maior aproximação aos manifestantes por conta das eleições futuras e uma influente federação de sindicatos, até então em um movimento separado,convocou uma greve geral para o dia 13 de maio com a intenção de investimentos e melhores salários aos sindicalistas.  A opinião pública não conseguia entender como um movimento tão grande poderia acontecer sem líderança. Da mesma forma, trabalhadores em todo o país começam a ocupar as fábricas. Acontece uma greve geral. Estudantes e trabalhadores começam a fazer contato, conversando e declarando apoio mútuo.

França: a greve geral-maio 1968.

No dia 20 de maio, a crise atinge seu auge. O país está paralisado. Não há metrô nem ônibus, as linhas de telefone não funcionam, assim como outros serviços elétricos; as indústrias estão paralisadas, ocupadas pelos trabalhadores. São ao todo seis milhões de grevistas ocupando 300 fábricas, outros também tomam o porto de Marselha.

Através da representação direta, milhares de estudantes se encontram em galerias e teatros para discutir os mais variados assuntos: a ocupação, educação, política, trabalho, meios de comunicação. A autogestão é colocada em prática, e comprova-se válida. Não há um espírito de liderança, mas todos querem fazer algo pela mudança da juventude atual e futura, o que os estudantes buscavam era um novo formato de vida e um questionamento constante à autoridade, a intenção era dissolver a instituição vertical, construir de baixo para cima, colocar para fora o poder.

Interior da sede de L’ Atelier Populaire des beaux arts. Paris, 1968.

 

Um dos mais conhecidos slogans de maio de 68.

Aos poucos o movimento começa a ceder. A CGT (Confederação Geral do Trabalho) consegue fechar acordos com o governo e o patronato para melhores condições trabalhistas, isto diminui os ânimos no movimento operário. Neste ponto, os sindicatos agiram claramente contra a revolta. No dia 30 de maio, o general De Gaulle dissolve a assembleia nacional e convoca eleições ao mesmo tempo em que movimentos pró-gaulistas (muitos provavelmente assustados com os acontecimentos) começam a manifestar-se. No dia 16 de junho a polícia retoma a Sorbonne e expulsa estudantes estrangeiros envolvidos no ato. O movimento perde força até que finalmente cede em 21 de julho. As eleições antecipadas deram larga vitória aos gaulistas que então retomam o controle da França que após as revoltas se encontra destruída tanto economicamente quanto no aspecto urbano.

 

Paris, O Quartier Latin após as manifestações.

Mesmo sem alcançar algum tipo de conquista objetiva, as manifestações indicaram uma mudança de comportamentos. As artes, a filosofia e a política seriam o espaço de ação de um mundo marcado por mudanças. Por conta dos pensamentos iniciados na França que após anos culminaram em outros eventos pelo mundo, por exemplo, No Leste Europeu, a Checoslováquia parecia se desgarrar da dominação soviética, com sua liderança progressista. Moscou logo reagiria, enviando seus tanques, como fizera 12 anos antes na Hungria, suprimindo o movimento de abertura que ia tomando corpo. A Primavera de Praga foi outro movimento de rebeldia importante daquele ano, preconizando a queda do sistema socialista na Europa em 1989. No Brasil, os protestos começam em resposta ao descontentamento de parcelas da população e é organizada a Passeata dos cem mil, contra a repressão que crescia quatro anos depois da intervenção militar de 1964. Descontentes com os rumos do regime militar, as revoltas populares arquitetadas pelos estudantes tomavam as ruas, e ao mesmo tempo, a “revolução armada” ganhava corpo entre os jovens rebeldes.

 

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