Acidente com carro autônomo da Uber levanta questões acerca dos reais benefícios da tecnologia autônoma

Por Yara Guerra

A História permite enxergar que a linha cronológica mundial  nunca foi monótona. Durante a Pré-História, a conquista do conhecimento e das habilidades racionais constituiu uma evolução gigantesca para os hominídeos pertencentes à tênue linha entre seres humanos e animais. Na Antiguidade, a evolução foi traduzida nos princípios sociais que surgiam, como a democracia grega e os governos romanos. Na Idade Média, o Renascimento comercial e o surgimento da burguesia alavancaram as sociedades europeias; na Idade Moderna, as grandes construções mercantis e a busca pelo novo permitiram o contato intercontinental e, chegando na Idade Contemporânea, pode-se ver os avanços tecnológicos moldaram o mundo, aproximando-o do que ele é hoje.

São as mudanças que movem a História. De forma gradual, o ser humano caminhou pela racionalidade e permitiu efeitos que transformaram o rumo dos acontecimentos. Hoje em dia, entretanto, esse processo se dá de uma forma muito mais rápida; impensável para aqueles da Idade Antiga: através do cerne da tecnologia contemporânea – a inteligência artificial.

IA, ou inteligência artificial, é aquela similar à humana que provém de softwares. Algumas características básicas desses sistemas são: capacidade de raciocínio (aplicar a lógica a um conjunto de dados até se chegar a uma conclusão), aprendizagem (aprender com os erros para uma ação futura mais eficaz), reconhecer padrões (visuais, sensoriais e de comportamento) e inferência (aplicar o raciocínio nas situações cotidianas). Com o surgimento do computador moderno, a IA ganhou meios para se estabelecer como uma ciência integral. Hoje, envolve áreas como visão computacional, análise e síntese de voz, lógica e redes neurais artificiais.

De acordo com o site Recorde, as empresas americanas – como Intel, Apple e Microsoft – investiram, juntas, US$76 bilhões em pesquisa e desenvolvimento no ano passado. Esses investimentos participam diretamente da economia do país (3% do PIB), contribuem para a relevância das empresas no mercado e são os grandes responsáveis por todas as novidades tecnológicas divulgadas anualmente. A Amazon foi a líder de investimentos, com US$22,6 bilhões gastos, 41% a mais do investido em 2016. E a previsão para os próximos anos é de que esse valor se multiplique.

Atualmente, para essas empresas, pensar em pesquisa e desenvolvimento significa pensar – antes de tudo – em inteligência artificial e tecnologias autônomas. Tal campo de exibição maquinária de softwares objetiva multiplicar a capacidade racional do ser humano e traz alguns questionamentos acerca de seus efeitos, pois não se sabe até que ponto pode ser benéfico à humanidade. Para a professora Anna Helena Reali, do Departamento de Engenharia da Computação e Sistemas Digitais da USP, por um lado, a tecnologia pode trazer ganhos de produtividade, automatizar diversas atividades repetitivas e perigosas e propiciar, de inúmeras formas, a melhora da qualidade de vida humana. Por outro lado, oferece riscos, como invasão de privacidade, tomadas de decisão que façam discriminações ou mesmo que sejam incorretas, que não possam ser melhor controladas ou debatidas.

“A sociedade deve estar atenta a estes riscos, que devem ser controlados por meio de legislações específicas. Da mesma forma que seres humanos podem incorrer em erros e más decisões e a sociedade procura legislar sobre isso, as tecnologias também podem oferecer estes riscos e a legislação deve se adaptar para controlar este problema”, ela afirma. “Outra questão importante é a transformação que a tecnologia causa no mercado de trabalho, automatizando certas atividades e criando outras novas. A sociedade deve se preparar para este dinamismo, educando melhor sua população para enfrentar estas mudanças”, completa.

Ainda atrás das gigantes da tecnologia, mas caminhando para alcançá-las, está a Uber. A empresa foi avaliada em 18,2 bilhões de dólares em julho de 2014 e conta com investimentos do Google e Goldman Sachs. Em pouco tempo, a ideia de oferecer transporte privado urbano através de e-haling ganhou os Estados Unidos, Portugal e Brasil.

As ambições da empresa, todavia, não acabam por aí. Há 3 anos, o serviço de transporte começou a fazer testes com carros autônomos e, em 2016, a ideia foi posta em prática. Funciona assim: uma pequena frota, em algumas cidades norte-americanas, oferece corridas que dispensam o condutor, mas conta com um motorista de prontidão a assumir a direção caso ocorra alguma eventualidade. O Volvo XC90, modelo escolhido como pioneiro de testes, é equipado com tecnologias laser, sensores e câmeras, além de um sistema de captação de dados e mapeamento para melhorar a compreensão do sistema sobre como dirigir.

A legislação dos Estados Unidos foi rígida quanto às limitações e deveres da empresa. Entretanto, não foi suficiente para evitar acidentes. No dia 19 de março deste ano, um dos carros autônomos da Uber – devidamente equipado e contando com a presença de um motorista no banco do condutor – atropelou e matou Elaine Herzberg, de 49 anos, uma pedestre que atravessava a rua a bordo de uma bicicleta e sacola de compras.

Uma investigação preliminar da polícia de Tempe concluiu que a Uber não teve responsabilidade pela morte de Elaine, pois, de acordo com as imagens capturadas pelas câmeras do carro, a vítima atravessava uma área pouco iluminada, a 90 metros da faixa de pedestre. Em depoimento, o motorista afirmou estar atento à rua, mas que não viu Herzberg atravessar a pista.

Imagens obtidas pelo Wall Street Journal, entretanto, mostram Rafael Valdez, motorista que monitorava o carro autônomo, de cabeça baixa por pelo menos cinco segundos antes do atropelamento. Além disso, ele já tinha passagem pela polícia e registro de infrações de trânsito, segundo uma reportagem publicada pelo mesmo jornal.  Questionado sobre o caso, um porta-voz da Uber disse que “a empresa não comenta casos particulares, mas que o funcionários cumpre os requisitos da companhia e continua no quadro de pessoal.”

Veja o momento do acidente na reportagem da ABC News:

Os erros se estendem, também, à tecnologia do veículo: o mesmo trafegava a 64km/h numa área em que é permitida uma velocidade de apenas 56km/h. Ademais, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a maior parte das vítimas de atropelamento sobrevivem ao choque contra automóveis que estejam a 30km/h, mas a maioria morre quando essa velocidade ultrapassa 50km/h. Busca-se afirmar se permitir o tráfego de um carro autônomo (no qual os cuidados deveriam ser maiores, vide informações da OMS) a 64km/h em uma área que limita a velocidade a muito menos seria irresponsabilidade da Uber ou desatenção do motorista.

De acordo com o doutor em ciência da computação pela University of Southern California, Dennis Fernando Wolf, é difícil afirmar com precisão o real motivo desses acidentes sem ter a informação completa dos sensores embarcados nos veículos. “É importante considerar que acidentes desse tipo são causados por motoristas humanos todos os dias sem a mesma repercussão. O principal objetivo do desenvolvimento de veículos autônomos é exatamente o aumento da segurança no trânsito”, afirma Wolf. “É claro que nenhuma tecnologia é completamente segura, ainda mais durante o seu desenvolvimento. Espera-se que com a evolução dessas tecnologias os riscos fiquem cada vez menores”, diz ainda.

A professora Anna Reali, por sua vez, pensa que, como toda nova tecnologia em uso, situações imprevistas podem ocorrer e causar acidentes. “Cabe aos desenvolvedores aprimorar tais tecnologias, visando sempre aumentar a segurança de seu uso. Eu acredito que carros autônomos são uma opção viável e deverão ser a tecnologia dominante no futuro, oferecendo mais segurança do que os carros atuais conduzidos por humanos. A evolução desta tecnologia deve ser feita com cuidado, automatizando pouco a pouco as tomadas de decisão dos condutores, ao mesmo tempo que aumenta a segurança na condução do veículo”, afirma.

Não é a primeira vez que um carro autônomo da Uber se envolve em um acidente. Em março de 2017, um desses veículos se chocou com outro e capotou, também no Arizona. Não houve feridos e só os carros foram danificados. No ano anterior, o motorista de um Tesla Model S (modelo de teste da empresa) morreu enquanto usava o seu sistema semiautônomo e um veículo autônomo da Google se chocou com um ônibus, sem causar ferimentos. Em 2017, ainda, uma van autônoma criada pela empresa Nayva colidiu com um caminhão em seu primeiro dia de teste. Nenhum dos oito passageiros da van, nem o motorista ficaram feridos.

Como resposta ao último acidente, a Uber suspendeu o uso de veículos autônomos nos Estados Unidos e no Canadá. Concorrentes do sistema, como a Toyota, também interromperam os testes de tecnologia autônoma nas vias públicas dos EUA.

São imprecisos os limites éticos e as ambições empresariais em torno da tecnologia. Tem-se uma fome de ir sempre além quando se trata da detenção do conhecimento; da expertise tecnológica. Sobre isso, disse Jack Hollis, vice-presidente da Toyota nos EUA, nos bastidores do Salão Internacional do Automóvel de NY: “Não sei bem qual a vantagem de ser o primeiro. O importante é oferecer 100 por cento de confiança ao cliente”.

Nem todos, vide acidentes ocorridos, concordam com Hollis. Resta a esperança de que desenvolvimento e segurança caminhem lado a lado no futuro que se constrói diariamente.

Após uma aula sobre inteligência artificial aos estudantes de jornalismo da PUC-SP, o consultor de tecnologias de softwares, Moacyr Mello, concedeu uma entrevista exclusiva sobre tecnologias autônomas e suas implicações. Confira no áudio:

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