Luta feminista ganhou fôlego nos movimentos sociais

Em 1968 a sociedade é cutucada. Os movimentos feministas espalham-se ganhando fôlego, força e aliadas de peso e as mulheres saem às ruas levantando bandeiras contra a submissão, contra o preconceito no mercado de trabalho, contra o papel exigido e oferecido à mulher com as atividades domesticas como única opção de vida.

Por Sofia Missiato

As bandeiras feministas ainda tremulam por ideais como o fim da guerra do Vietnam, defesa dos Direitos Humanos e libertação sexual. A luta pela liberdade de expressão, pela publicação da palavra feminina, já vinha sendo travada por diversas escritoras que não conseguiam editoras para seus trabalhos, já que estas davam prioridade aos escritores. Deste modo, nublavam toda uma concepção de mundo, eliminando do universo escrito o ponto de vista feminino sobre diversas questões que poderiam propor alternativas ou, em parte, explicar de outro modo os problemas existentes.

Maya Angelou. Wikimedia

A mulher é oprimida também enquanto produtora de conhecimento e significados sobre o mundo. Algumas, como Maya Angelou, descrevem suas lutas como mulheres e negras, vítimas da segregação racial na infância. Elizabeth Bishop, escritora americana que viveu no Brasil durante quinze anos, teve que dar explicações sobre suas escolhas sexuais, visto que no Brasil morou por longo tempo com uma amiga. Sua companheira Lota de Macedo Soares suicidou-se em 1967. Bishop foi a primeira mulher e a primeira americana a receber, em abril de 76, o Prêmio Internacional Neustadt de Literatura. Simone de Beauvoir é considerada um ícone do feminismo radical, a segunda onda do movimento feminista (surgida nos anos 60), ela não foi propriamente ativista, porém sabe-se que no mundo das ideias era completamente assídua, desde quando o movimento de libertação da mulher surgiu com força durante a década de 60, e quando seu livro mais consagrado ‘’O Segundo Sexo’’ ganhava uma vida própria.

Beauvoir passou os anos 60 e 70 a opor-se ao General De Gaulle e à guerra na Argélia, a fazer campanha contra a tortura, a visitar líderes dos movimentos de libertação em todo o mundo, e a ajudar com seu feminismo radical os estudantes revoltados de Maio de 68, em Paris.

Simone de Beauvoir. Flickr

Desde lá a evolução do feminismo se deu por diversas vertentes, com o objetivo de abranger a todos e todas. O feminismo radical ganha relevância em torno dos anos 1960. Sua nomenclatura não denota alguma espécie particular de extremismo, mas tem razão de ser porque as fundadoras de tal vertente acreditaram encontrar a “raiz” da dominação masculina, que seria o patriarcado. Uma diferença entre o feminismo radical e as outras vertentes é o fato de que o radfem – como são também chamadas- não é reformista, mas, sim, abolicionista. Ele acredita que certas coisas devem ser destruídas para que haja uma libertação feminina. Como, por exemplo, a prostituição. Isso porque na sociedade o homem se beneficia com tudo pelo simples fato de ser homem e “defender” o direito de uma mulher de se prostituir seria o mesmo que defender o direito de um homem explorá-la. O feminismo radical também acredita que a raiz da opressão feminina são os papéis sociais inerentes aos gêneros, ou seja, reivindica uma espécie de volta de um determinismo quase que biológico: mulheres são aquelas que têm vagina, que têm filhos, que têm ovário, sendo assim, a não aceitação de transexuais no discurso, porque elas nasceram biologicamente como homens.

O feminismo liberal é uma vertente feminista inversa ao feminismo radical. O libfem, como é chamado popularmente, acredita que a forma de assegurar a igualdade entre o homem e a mulher é por meio de reformas políticas e legais. E que quando a mulher decide seguir um padrão de beleza ou se prostituir, ela está exercendo a sua liberdade de escolha. Enquanto no radfem é explicado e debatido que isso é algo à que ela foi condicionada. O feminismo liberal prega que as mulheres podem vencer a desigualdade das leis e dos costumes gradativamente, combatendo situações injustas pela via institucional e conquistando cada vez mais representatividade política e econômica por meio das ações individuais. Por isso, a ascensão de mulheres a posições em instituições como o congresso, os meios de comunicação e as lideranças de empresas são vitais para esta visão do feminismo.

O feminismo marxista entende que a causa da subordinação feminina adviria da própria organização da economia e do mundo do trabalho. Sendo assim, a libertação das mulheres se daria com a abolição da propriedade privada e com a transformação da divisão sexual do trabalho. A necessidade dos homens de transmitir a propriedade por herança e, para isso, ter certeza de sua descendência, fez com que fosse necessária a instituição do casamento monogâmico. Dessa maneira, as mulheres foram colocadas sob o controle de seus maridos, dentro da esfera privada da família e fora da produção social.

O Agemt  conversou com Rafaela D’Elia, 20 anos, estudante de jornalismo na UFRJ que afirmou ser feminista marxista pela necessidade que temos de luta estrutural. “Não considero que uma luta individualizada, que se limite à meu corpo, ou ao meu direito de consumir, vestir o que quiser etc baste. O machismo vem de muito antes do capitalismo na minha concepção, mas é um sistema que tem uma base patriarcal e machista. A dupla jornada de trabalho por exemplo é um dos pilares que temos nesta sociedade. Mesmo se alcancemos a igualdade salarial, que é uma pauta que eu percebo em todas as vertentes feministas, ainda teremos desigualdade através da dupla jornada, que só se quebra mudando noções de estrutura familiar também’’, explicou.

O Feminismo negro chega nos anos 80, ele surge da ideia de minoria dentro de uma minoria, ou seja, se o já existente feminismo pauta por igualdade salarial e questões de gênero, o feminismo negro pauta por pelo antirracismo já que mulheres brancas possuem mais privilégios que negras, por sofrer de uma dupla opressão, não é representada por outros “feminismos”. Ele inclui pautas como, no caso brasileiro, o genocídio da juventude negra e como isso tem impactado as mulheres negras. Questões como a intolerância religiosa e a valorização das religiões de matriz africana são também parte do debate feminista negro que, não são pautas nem prioridades em outros feminismos.

O Feminismo interseccional é uma corrente que procura a intersecção entre os tipos de opressão: de gênero, de raça e de classe social. A visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas intersecionais da sociedade. Este também é o feminismo mais receptivo à participação dos homens no movimento. “As radicais, nos anos 70 e mesmo hoje são completamente contra, porque para elas homens são opressores por natureza” diz Caroline Dias, 19 anos, estudante de Direito na PUC-SP. ‘’Para mim é essencial que feministas brancas estejam a par do que as mulheres negras estão discutindo, assim como pra mim é importante eu saber o que acontece com as pessoas trans uma vez que eu sou cisgênero, se o nosso feminismo não é pra todas essas mulheres, pra quem ele é?”, indagou.

A partir de variações dentro de uma mesma pauta, os feminismos sempre causaram confusões dentre a sociedade contemporânea, que vem discutindo com cada vez mais freqüência. Maio de 68 pode ser visto como uma introdução para todas as lutas, e especificamente para com a luta da mulher, o acontecimento foi de extrema importância.

Marcha de mulheres contra Nixon: 1972. Flickr

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