CaminhaDown traz mensagem de inclusão e superação ao Parque Villa-Lobos

Por Ana Carolina Avólio e Thays de Oliveira Reis

 

Super-heróis e personagens infantis divulgaram sua mensagem: todos são diferentes.                        Foto: Ana Carolina Avólio

Vozes, músicas, risadas, choros de emoção, gritos de animação e apoio. Todos os sons expressavam o mesmo desejo: a inclusão de pessoas com Síndrome de Down em uma sociedade dominada pelo preconceito. O Parque Villa-Lobos, na Zona Oeste de São Paulo, foi o local escolhido para sediar a quarta edição do CaminhaDown, uma caminhada que retomou o debate sobre respeito e – o principal – mostrou a todos que indivíduos com a Síndrome são tão diferentes quanto todas as outras pessoas no mundo.

O evento, idealizado por Rosana Bignami, teve sua primeira edição em 2015, no Parque Ibirapuera. Após o sucesso da caminhada e a mobilização de centenas de pessoas em prol da causa, Rosana Ernani fundou o movimento BikeDown, que disponibiliza bicicletas coletivas para deficientes intelectuais, trazendo o debate acerca da mobilidade à tona. De acordo com Ernani, a ideia é plantar a semente para que eles comecem a pedalar pelas ciclovias e, no futuro, se locomovam sem medo pela cidade. “Meu filho anda de metrô, pega ônibus, se locomove. Há 30 anos eu nunca imaginava que ele ia andar sozinho por São Paulo e atualmente isso é uma realidade. Por que não plantar hoje a sementinha da bicicleta?”, indagou.

As bicicletas retomaram o debate sobre deficientes intelectuais e mobilidade urbana.                       Foto: Ana Carolina Avólio

Em 2017, o movimento se juntou ao CaminhaDown e a repercussão foi surpreendente. Já este ano, a Prefeitura de São Paulo em parceria com a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência, disponibilizou recursos ao evento, que pela primeira vez contou com um palco e uma completa infraestrutura. “Foi muito importante, sem a Prefeitura não teríamos o palco, agora acredito que vamos conseguir isso permanentemente. O evento está melhorando e crescendo”, afirmou Rosana Bignami.

Realizado quatro dias após o Dia Internacional da Síndrome de Down, data celebrada em 21 de março – fazendo alusão aos três cromossomos presentes no par número 21, característico das pessoas com Síndrome de Down – e presente no calendário oficial da Organização das Nações Unidas e de seus 193 países-membros, a celebração trouxe uma programação artística e esportiva diversificada, de aulas de tai-chi-chuan a intervenções artísticas com bailarinos profissionais. “Nosso desejo é despertar os deficientes intelectuais para as possibilidades que existem neles”, afirmou Rosana Ernani. “Não queremos que as pessoas pensem ‘ah, você é bonitinho’, mas sim que elas vejam uma pessoa com Síndrome de Down e achem normal o que ela está fazendo. Isso é inclusão: saber que todos têm os mesmos direitos”.

Amanda Oliveira, participante do projeto Tecer Sabores. Foto: Ana Carolina Avólio

Um dos temas mais abordados foi a educação e seu importante papel na transformação social. “A educação inclusiva é necessária, não adianta as crianças com Síndrome de Down estarem juntas, elas precisam estar socialmente inseridas para que no futuro isso seja natural e ocorra sem esforço”, constatou o vereador Cláudio Fonseca (PPS) durante a abertura do evento. Atuando nas áreas de educação, cultura e esportes, o político luta para que os deficientes intelectuais tenham mais espaço na cidade – essa também é a luta de Cid Torquato, secretário municipal da Pessoa com Deficiência, que marcou presença na caminhada e reafirmou seu compromisso em tornar São Paulo uma cidade mais inclusiva.

O ponto alto do evento foram os projetos apresentados visando à inclusão social de pessoas com deficiência mental. Um dos destaques foi o Tecer Sabores, projeto que promove a autonomia, convivência e integração de deficientes até 18 anos por meio da gastronomia. Os participantes são incentivados a fazer tudo em grupo – desde as compras até o preparo dos alimentos – sem o auxílio dos monitores. Durante a caminhada, o grupo marcou presença distribuindo várias gostosuras, como biscoitos e bolachas, preparados pelos adolescentes.

Entre aulas de zumba, shows de tambores, oficinas de pintura e brincadeiras com super-heróis e palhaços, pessoas com Síndrome de Down eram convidadas a ir ao palco e compartilhar suas experiências. Uma delas foi Maria Carolina Fraga, de 24 anos. A jovem contou que trabalha como chefe de cozinha no café Chefes Especiais, local cujo atendimento é realizado exclusivamente por deficientes intelectuais. Mais que um exemplo de superação, Maria quebrou paradigmas ao narrar sua rotina independente e mostrar que tudo é uma questão de oportunidade e por isso chances devem ser oferecidas aos deficientes.

Família de Rafael Denvers, 2 anos, foi a caminhada lutar pelos direitos de deficientes intelectuais. Foto: Ana Carolina Avólio

Enquanto isso, o público se emocionava com os relatos e aproveitava para compartilhar suas histórias “Uma vez, levei meu filho ao médico e ele disse ‘a senhora sabe que ele nunca vai chegar à universidade, não sabe?’ e eu simplesmente não acreditei que estava ouvindo aquilo de um profissional”, desabafou Joselice Denvers, mãe de Rafael, de 2 anos. Quando questionada sobre qual ponto a sociedade precisa melhorar, ela não hesitou em apontar o preconceito ainda existente. “Meu filho não é um ser diferente. A deficiência está nas pessoas”.

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