Moda Consciente: a importância de saber consumir

Por Lara Guzzardi e Laura Lourenço

 

No modelo de economia capitalista a moda segue um padrão de consumo rápido, descartável, não consciente e desenfreado. Todas as ações humanas fazem uma enorme diferença nesse ciclo de comprar, usar, jogar fora e consumir novamente e por isso, muitas pessoas começaram a pensar nas consequências geradas devido a esse processo repetitivo da indústria da moda. O meio ambiente é o principal prejudicado: segundo matéria da BBC publicada em março de 2017, especialistas afirmam que a fibra sintética usada para produzir calças ou malhas de poliéster, por exemplo, requer 70 milhões de barris de petróleo todos os anos e demora mais de 200 anos para se decompor.

“A viscose, outra fibra artificial, mas feita de celulose, exige a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos. E, apesar de natural, o algodão é  uma fibra cujo cultivo é o que mais demanda o uso de substâncias tóxicas no mundo – 24% de todos os inseticidas e 11% de todo os pesticidas, com óbvios impactos no solo e na água. Nem mesmo o algodão orgânico escapa: uma simples camiseta necessitou de mais de 2.700 litros de água para ser confeccionada”, diz a reportagem.

A conscientização sobre o assunto teria começado com um importante passo dado pelos EUA e por outros lugares ao redor do mundo. Em 1973, foi assinado um acordo entre vários países que criou um sistema para limitar a quantidade de importações de tecidos e vestuário de países específicos, para proteger os interesses comerciais. Porém, o acordo acabou dirigindo-se para os custos de produção no mercado interno e sendo eliminado em 2005, após ser substituído por um acordo da Organização Mundial do Comércio, e as chances de terceirizar a fabricação no exterior foram abertas.

Acima, trabalhadoras em fábrica de tecidos. Abaixo, infográfico sobre produção têxtil. Foto: Divulgação.

 

Segundo a professora da San Francisco State University, Connie Ulasewicz, pesquisadora do assunto referente à moda sustentável, “as empresas mudaram sua produção para lugares como Camboja, Vietnã e Mongólia, onde não existem requisitos mínimos de salário, idade ou regulamentares relativas ao número máximo de horas trabalhadas. Quando isso aconteceu, as pessoas também perderam o contato de como e onde foram feitas suas roupas”. Assim, o trabalho escravo começou a se difundir pelos países menos desenvolvidos e de algum tempo para cá, após o processo de conscientização, foi descoberto que milhares de marcas de roupas fashion, grandes e influentes, como Zara, Renner, Marisa e M.Officer, utilizavam esse tipo de trabalho cruel e ilegal que prejudica milhões de pessoas, principalmente crianças,de todas as idades.

Fast Fashion x Slow Fashion

Loja de roupa “fast fashion”. Foto: Divulgação.

 

Desde a Revolução Industrial, os produtos deixaram de ser feitos à mão para serem produzidos em larga escala nas fábricas. As roupas foram uma das mercadorias mais afetadas com esse processo: perderam a durabilidade e ganharam em quantidade. Os investimentos da moda passaram a ser direcionados às tendências e desejos dos consumidores, coisas que mudam de forma extremamente rápida, obrigando a produção da indústria fashion correr no mesmo ritmo frenético. Sem qualidade, com o preço mais baixo e o consumo mais elevado, o Fast Fashion favorece e alimenta o sistema capitalista sob o qual vive a maior parte da população mundial.

Voltando às origens da fabricação de roupas por meio do trabalho artesanal, o Slow Fashion é um movimento que nasceu para propor um novo estilo de vida e de consumo. A ideia apresentada é que o número de peças no armário diminuirá significativamente, quebrando o ciclo de consumo não consciente e desenfreado, mas a qualidade do produto será muito melhor, fazendo com que as roupas durem muito mais tempo e evitando que as descartemos excessivamente e sem necessidade, não compactuando com a degradação do meio ambiente e com o trabalho escravo.

Entrevista com Luciana Nunes do Lucid Bag

 

 

O Lucid Bag é o primeiro guarda-roupa coletivo do Brasil, e consiste no empréstimo e aluguel de roupas e acessórios. É uma iniciativa ecológica e sustentável criada em Goiânia, no ano de 2014, pela jornalista Luciana Nunes, mas atualmente o armário compartilhado se expandiu para todo o país de forma online também. “Em 2014, fui para a Espanha fazer um curso para abrir minha cabeça, descobrir o que eu gostaria de fazer e acabei tendo uma ideia maluca. Na época, ainda não existia nada sobre guarda-roupa coletivo, que pudesse ser utilizado entre a comunidade para variar os looks, e para que as trocas de roupas pudessem acontecer sem a nossa necessidade de ter que comprar. Então, a primeira coisa que eu fiz foi colocar o meu guarda-roupa à disposição para começar o negócio, e a partir daí várias pessoas se interessaram e começaram a entrar e a contribuir”, diz Luciana.

Sobre o surgimento da iniciativa, a criadora conta que o Lucid Bag nasceu da sua  vontade de fazer a diferença no mercado de moda, algo que fosse sustentável e influenciasse o seu público a ter uma atitude mais consciente na forma como se relacionam com o consumo da moda. Quando estudou em Barcelona, conheceu negócios parecidos, como brechós e outras iniciativas em moda, que a inspiraram a ter ideias novas e levar para o âmbito de produtos que fossem emprestados, alugados, coletivos, amplos. mas que depois voltassem para o seu lugar origem. “É algo ainda muito novo no mercado, as pessoas não conhecem, mas a recepção tem sido maravilhosa, todo mundo tem gostado muito, as meninas que são assinantes são realmente pessoas assíduas da comunidade. Além do guarda-roupa ser compartilhado, um dos nossos princípios é compartilhar o lucro também, então a pessoa que está emprestando a peça sabe exatamente quanto a gente está ganhando com o empréstimo, para onde vai o dinheiro e quanto ela ganha com isso”, conta a jornalista.

Hoje o Lucid Bag possui três guarda-roupas físicos, dois em em São Paulo (localizados na Vila Madalena e na Barra Funda), um em Goiânia e um no Rio de Janeiro. Fora as lojas físicas, existe o site, www.lucidbag.com.br, destinado às pessoas de outros locais do país que tenham interesse em pegar peças emprestadas e alugar. Nos Lucid Bag físicos, a empresa trabalha por assinatura mensal, com pacotes de 50, 150 ou 300 reais, para utilizar durante o mês. A diferença entre os preços é a qualidade e o quão únicas são as peças que o usuário precisa pegar. O site online possui os mesmos looks e permite o aluguel deles em qualquer lugar do País. São os mesmos valores, porém a pessoa que não é assinante, não vai ter como receber 3 bags com peças no mês, vai receber somente 1 bag, para poder usar e devolver em 10 dias.

Segundo a fundadora, a preocupação com a sustentabilidade e o com o impacto negativo do Fast Fashion no meio ambiente foram importantes fatores que também impulsionaram a ideia de criar sua plataforma de conteúdo e suas lojas físicas: “A intenção do Lucid Bag é colocar para circular as peças que estão esquecidas nos guarda-roupas das meninas e, consequentemente, diminuir as compras por impulso, porque quando você começa a perceber o tipo de peça que está comprando e  a deixando parada, começa a se conscientizar também das compras mal feitas e desnecessárias que tem feito. Nós chegamos em um momento climático muito difícil, acompanhamos muitos desastres,e o assunto está muito forte na mídia, tanto externa quanto interna. As marcas já estão tendo que se virar para atender essa demanda, são pessoas realmente mais engajadas politicamente, mais conscientes do que tem acontecido no mundo e que despertaram para o conhecimento de que a gente pode fazer sim, a diferença. Muitas vezes, achamos que fazer isso é pouca coisa para o tanto que o mundo precisa, mas esquecemos que a política é assim, é micropolítica. Começamos primeiro pelo meio da moda, então podemos ver que até o Fast Fashion está tentando se adequar a esse lado mais sustentável e é uma tendência. Quando eu apostei nesse negócio, além de ser algo que eu acreditava muito, era bom para o mercado também, porque tenho certeza que é uma tendência que só tende a aumentar”, conclui Luciana.

 

Brechós

 

 

Artigos de Brechós na Vila Madalena, SP.                        Foto: Laura Lourenço.

Comumente confundido com um antiquário ou um bazar, o brechó é uma loja de artigos usados, principalmente de roupas, calçados, acessórios, louças, objetos de arte, bijuterias e objetos de uso doméstico. Nasceu historicamente no século XIX, quando um mercador ambulante chamado Belchior ficou conhecido por vender roupas e objetos de segunda mão no Rio de Janeiro. Com o passar do tempo a pronúncia do nome dele acabou dando origem ao termo “Brechó”.

Os brechós se tornaram populares pelo preço extremamente mais acessível do que uma loja convencional e atualmente também são bastante procurados por serem um meio muito amplo de contribuição com a sustentabilidade no mundo da moda. O ato de comprar em brechós gera grandes benefícios:

– evita-se que as roupas usadas cheguem em aterros sanitários onde ficarão paradas até se decomporem;

– diminui significativamente o consumo de água e energia já que não são produzidas peças novas para o reuso;

– estimula a criatividade com pouco dinheiro oferecendo oportunidades de desenvolver um estilo pessoal e não tão massivo;

– promove a reutilização e a cidadania, pois doar peças usadas para brechós significa compartilhar com a sua comunidade, até porque muitos brechós têm finalidade beneficente;

– utilizar a consciência do consumo, podendo ainda misturar as roupas de brechó com as roupas já compradas em lojas de marca e assim também reaproveitar as peças antigas do armário.

 

Calças usadas à venda em Brechó. Foto: Laura Lourenço.

 

 

Os 7 brechós físicos mais famosos no Brasil:

  1. Minha Avó Tinha Brechó (Lapa, São Paulo)

                    Bolsas à venda em Brechó.                        Foto: Divulgação.

 

2. B.Luxo Vintage Shop (Rua Augusta, São Paulo)

 

Os brechós crescem à medida que a população tem consciência do fast fashion. Foto: Divulgação

 

  1. Brechó Balaio De Gato (Centro de Curitiba, Paraná)

    A moda consciente vem adquirindo espaço no Brasil, principalmente nas capitais. Foto: Divulgação

  2. Me Gusta Brechó (Porto Alegre, Rio Grande do Sul)

    Há vários tipos de brechó, com roupas comerciais e alguns com roupas de marca. Foto: Divulgação

  3. Brechó Fast Fashion (Ipanema, Rio de Janeiro)

    Mulher provando roupas do brechó. Foto: Divulgação

  4. Brechó Roxie (Fortaleza, Ceará)

    Os brechós atingem tanto plataformas online quanto físicas. Foto: Divulgação

  5. Brechó Brilhantina (Belo Horizonte, Minas Gerais)

    Pode-se encontrar artefatos retrôs nos brechós, além de marcas comerciais. Foto: Divulgação

    Os 7 brechós mais populares no exterior:

     

    1. Absolute Vintage (Londres, Inglaterra)

    Os brechós são um modo de contribuir para o consumo sustentável. Foto: Divulgação

    2. Beacon’s Closet (Brooklyn em Nova York, EUA)

    Os brechós também trazem roupas de outras coleções mais antigas de marcas fast fashion. Foto: Divulgação

    3. Brechó ao ar livre no Mauer Park (Berlim, Alemanha)

    Brechós ao ar livre podem ser vistos em feiras locais. Foto: Divulgação


    4. Free’p’star (Paris, França)

    Existem brechós que se assemelham a lojas convencionais.                                Foto: Divulgação

    5. Juan Perez (Buenos Aires, Argentina)

     

    Em brechós, pode-se encontrar também roupas infantis.                                   Foto: Divulgação

    6. Laura Dols (Amsterdã, Holanda)

    A raridade da peça aumenta o seu preço.                                                             Foto: Divulgação

     

  6. HUMANA Vintage, brechó da ONG de proteção ambiental (Itália, Espanha e Europa em geral)

    Os brechós também podem seguir as estações anuais em suas vitrines. Foto: Divulgação.

    Os 5 maiores brechós online:

     

    1. Brechó Trash Chic
    1. Tatileine Brechó
    2. Boutique São Paulo
    3. Enjoei
    4. Elo 7

 

Veganismo

Foto: Ilustração

 

É considerado vegano todo indivíduo que não consome absolutamente nada de origem animal, sejam os alimentos, objetos, o vestuário,e as maquiagens, por exemplo. Assim, para atender esse público que possui uma postura política que promove também o consumo consciente e menos poluente e está crescendo cada vez mais no Brasil e no resto do mundo, passaram a surgir marcas que produzem esse tipo de produto que não envolve a exploração de animais em sua fabricação. O mercado da moda também passou por uma transformação e em grande parte aderiu à causa vegana: a marca fashion La Loba é a primeira no Brasil a receber o selo Vegan Society, da organização que criou e registrou o termo veganismo em 1944.

Foto: Ilustração

 

Já existe uma boa variedade no País, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, de lojas fashion veganas, a exemplo das marcas de roupas como a KING55 Svetlana, as de calçados como Insecta Shoes, a linha da VERT Nica Prince, as de óculos escuros como Zerezes e as de bolsas, cintos e acessórios em geral, como a própria La LobaNico Serra Será O Benedito?

A maior parte dessas marcas utiliza garrafa PET, retalhos e pedaços reutilizados de tecido, lavanderias que utilizam a água da chuva para lavar e tingir calças e t-shirts, produtos sem componentes químicos que possam ser nocivos à natureza, lona de caminhão reaproveitada, pneus, juta, couro vegetal e tecidos orgânicos em suas coleções, ao invés de  materiais poluentes ou de origem animal como lã, seda, couro, borracha, poliuretano e cola. Além disso, os trabalhadores envolvidos em toda a cadeia produtiva das marcas veganas são submetidos a condições dignas de trabalho, contribuindo para o fim da escravidão na indústria da moda.

A estudante Lara Guedes, que aspira à profissão de veterinária e é engajada nas questões animais e ambientais, é vegana e possui um instagram onde ensina receitas absolutamente livres de alimentos que tenham origem animal. Em entrevista, ela conta como o veganismo colabora com o bem do meio ambiente e sobre a experiência de se aventurar na cozinha.

1- Como você acha que o veganismo colabora com o meio ambiente?

Lara: A prática do veganismo, por envolver diversas áreas e não só a alimentação, acaba tendo inúmeros impactos. O meio ambiente é um dos maiores afetados positivamente. Pelo não consumo de animais e seus derivados, a quantidade de área desmatada e a emissão de CO2 (gás carbônico) e CH4 (gás metano) são reduzidas extremamente. Apenas um quilo de carne bovina a menos na sua alimentação deixa de gastar quinze mil litros de água, dez mil metros quadrado de área desmatada e trezentos e trinta e cinco quilos de CO2.

 

2- Por que você decidiu criar o instagram de receitas?

Lara: Criei o instagram de receitas para desmistificar o que os veganos comem e compartilhar minhas receitas. Antes, a culinária nunca tinha sido uma paixão, mas o veganismo me fez amar e experimentar novos sabores e me aventurar na cozinha. Assim, o Instagram ajuda a inspirar mais pessoas e partilhar ideias.

 

3-Como ser vegana mudou sua vida?

Lara: Sempre falo que o veganismo me transformou por completo: meu jeito de pensar, minha alimentação, meus ideais e até a forma de me aceitar. A ideologia envolve muitos fatores que te transformam como um todo, só virando vegano para entender.

 

4-Você acha que todo o movimento do veganismo está ganhando mais espaço, tanto na alimentação quanto na produção de produtos que não são testados em animais?

Lara: Com certeza! Minha irmã, há mais de doze anos parou de comer carne vermelha e ela sentia muita dificuldade em comer nos restaurantes que frequentava. Hoje, quase todos os lugares tem pelo menos uma opção vegetariana ou vegana. O mercado está abrangendo muito o movimento e cada vez há mais marcas novas  e opções em restaurantes e supermercados disseminando o veganismo.

 

 

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