MuBE convida paulistano para ouvir esculturas

Por Guiherme Resck e Liana Ruiz

Em cartaz até o dia 15 de abril de 2018, “Esculturas para ouvir”, do Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE), se destaca por proporcionar experiências que misturam imagem com música. Dando visibilidade para obras de artistas como Paulo Nenflídio, Cadu e León Ferrari, a exposição, na capital paulista, adere à continuidade do campo artístico que ganhou notoriedade a partir da década de 70.

Segundo o professor de comunicação e semiótica Norval Baitello Junior, tanto a cultura quanto a sociedade contemporânea “tratam o som como forma menos nobre, um tipo de primo pobre, no espectro dos códigos da comunicação humana”. Em seu seminário “Cultura do Ouvir”, é explicado, entretanto, que a visibilidade tem “um tempo naturalmente muito mais curto e muito mais veloz do que o tempo da audição, do fluxo do ouvir”, de modo que “tudo que é visível, morre mais rápido”. Nesse contexto, a importância das esculturas sonoras expostas no MuBE está, sobretudo, no equilíbrio que apresentam entre o enxergar e o escutar.

Aqueles que estão acostumados ao valor que se dá à visão em exposições artísticas, são instigados a buscar o som como fator de interação com a obra; a proposta fica evidente em “Colgante”, de León Ferrari, na qual o visitante se movimenta em meio a um conjunto de barras de aço, penduradas ao teto, cujo atrito provoca um som que lembra o quebrar das ondas do mar ou o cantar de pássaros em uma floresta.

Obra “Colgante”, de Léon Ferrari                                        Foto: Guilherme Resck

Argentino exilado no Brasil durante a ditadura militar, Léon foi um dos pioneiros nas artes visuais a entender as esculturas sonoras como parte de um campo artístico singular. Dessa forma, criou, em 1979, obras compostas por arcos de violino que inspiraram artistas futuros, entre os quais Cadu, responsável por “H.M.V.I”, outro trabalho presente em “Esculturas para ouvir”.

Concebida em 2008, “H.M.V.I” permite o acionamento de furadeiras com o simples passar das mãos em sensores de movimento, para que uma doce melodia comece a tocar. Seu objetivo é levar à reflexão de como até mesmo as coisas mais simples do dia a dia estão sendo automatizadas no mundo contemporâneo, com as pessoas perdendo cada vez mais sua autonomia para a máquina.

A conexão entre os sensores e as furadeiras, que agem como motores das pequenas caixas de música, revela ainda o pensar dos artistas contemporâneos, que, nas palavras de Natália Cliquet, monitora do museu, “entendem o processo como mais importante do que a finalização da obra”.

Obra “H.M.V.I”, de Cadu                                                     Foto: Guilherme Resck

A exposição não limita a experiência ao público adulto. Com a aparência de peixe carnívoro, que lembra o diabo-negro da animação “Procurando Nemo”, a escultura “Y.E.S”, de Paulo Nenflídio, seduz e surpreende visitantes de todas as idades com sua interatividade. Ao passar perto dela, um sensor ativa seus diferentes sons provenientes de instrumentos musicais, e a curiosidade dos visitantes é despertada. “Quando você vê, você já virou a presa da obra”, falou a monitora Natália Cliquet.

Obra “Y.E.S”, de Paulo Nenflídio                                                                                                                     Foto: Guilherme Resck

E poder interagir sensorialmente com as obras é somente uma das infinitas possibilidades que elas proporcionam. Segundo Cauê Alves, curador do MuBE desde 2016, todas essas esculturas têm uma relação direta com o mundo atual. Como exemplo, citou “Rede Social”, do coletivo Opavivará!, que pode gerar discussões sobre a dependência do uso de redes sociais e seu reflexo na organização social.

Ao tentar atravessar todas as redes que compõem o trabalho, o visitante sente certa dificuldade para chegar até o final, precisando parar e relaxar por alguns instantes, o que gera alívio e também acomodação. “Uma rede coletiva onde as pessoas literalmente mergulham nela e encontram dificuldade de sair dela”, reflete Cauê sobre a utilização de redes sociais e suas consequências.

Obra “Redes Sociais”, do coletivo Opavivará!                                                                                                 Foto: Guilherme Resck

É assim, estimulando diferentes sentidos e o pensamento crítico, que “Esculturas para ouvir” se insere no processo de reestruturação pelo qual o MuBE vem passando há dois anos. “O que estamos realizando é a criação de uma grade de exposições mais coerentes, fazendo com que o museu se relacione cada vez mais com o circuito da arte contemporânea”, disse Cauê. Além disso, segundo o curador, a exposição dá voz a um campo de pesquisa relativamente novo que tem potencial muito grande de desenvolvimento e que merece ter espaço nos centros culturais.

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