A (re)valorização do artesanato

Por Roberta Domingues e Gabriela Gaspar

A crise econômica brasileira tem feito aumentar o número de trabalhadores informais, que já ultrapassa o de trabalhadores com a carteira assinada. Atualmente são cerca de 92,1 milhões de acordo com dados do IBGE.

Assim, com o fechamento de mais de 20 mil postos de trabalho formais, esses trabalhadores tiveram que encontrar outros meios de pagar as contas. Venda de comida caseira, passear com animais e “bicos” de faxineiro são alguns dos exemplos encontrados. Outros decidiram aproveitar-se dos seus talentos e vender objetos feitos à mão. Com a ajuda da Internet e de aplicativos de celulares, muitos conseguem driblar as dificuldades e até crescer. Junto com o aumento da procura por produtos exclusivos, o artesanato tem sido uma alternativa para combater a crise. Tonya Clifford, da Wired to the Moon, diz que a crise mundial fez com que o lugar que trabalhava anteriormente fechasse. Desse modo, ela teve que pensar em um plano B e, assim, a venda de suas esculturas feitas de fios de alumínio tornou-se seu trabalho oficial e sua única fonte de renda.

 

@tonyacliffordwired, de Limerick, Irlanda

Pode-se dizer que o artesanato como se conhece hoje — pinturas, cerâmicas, crochês, bordados etc. — nasceu junto com o surgimento do homo sapiens. Desde sempre os objetos criados possuem um significado mítico, além do funcional. “Todo objeto tem, para o sapiens, uma dupla existência. Por meio da palavra, do sinal, da inscrição, do desenho; esse objeto adquire uma existência mental até mesmo fora de sua presença. Assim, a linguagem já abriu a porta à magia”, escreve o antropólogo e sociólogo Edgar Morin em “O Enigma do Homem”.

As primeiras formas de artesanato surgiram majoritariamente no período neolítico (6.000 a.C), derivadas do polimento de pedras e formas rústicas de cerâmica. No Brasil os indígenas se utilizavam da pintura e do uso de fibras naturais, como couro, madeira, papel e penas. A criação de cocares, roupas, tangas e colares implica no uso estético do artesanato, que, segundo Morin, “passa a ser um caráter fundamental da sensibilidade e da arte do homo sapiens”. “A arte, tanto culturalmente quanto economicamente, é importante para a humanidade”, diz Marcos Vinicius, artesão que vende seus produtos na região da Avenida Paulista em São Paulo.

Foto: Secult Alagoas

Até a Revolução Industrial no século XVIII era o artesão que conhecia todo o processo de fabricação dos produtos, o que não permitia uma produção volumosa. A partir da instalação de fábricas, massas de trabalhadores migraram do campo para as cidades e os artesãos nas manufaturas perderam espaço. Com a fabricação em grande quantidade, o trabalho artesanal se perdeu. Até hoje, porém, alguns povos indígenas ainda encontram nele a sua forma de sustento, vendendo cerâmicas, crochês, rendas, trabalhos em argila e madeira, e artefatos típicos.

O crochê, por sua vez, manteve-se firme com o passar dos anos, mas era principalmente feito para uso próprio. No entanto, a moda aproveitou-se desse material e lançou, já em 1980, peças feitas de crochê. Fernando Gabeira aproveitou-se dessa moda para fazer críticas ao governo militar de Figueiredo logo após voltar do exílio. A famosa foto com sua sunga lilás foi tirada no verão de 80 na praia de Ipanema.

 

Fernando Gabeira em sua famosa sunga lilás. Foto: Editora Abril

 

As peças de crochê voltaram à moda obedecendo a lógica da reciclagem periódica da indústria. O crochê deixou de ser visto como algo ultrapassado e periférico para high-fashion. Marcas como Tommy, Gucci, Resort Moschino, Dolce & Gabbana e Balmain utilizaram-se de peças de crochê em seus desfiles nos últimos anos. Biquínis, tops, bolsas, saias e casacos fizeram parte dos looks das passarelas. Além disso, celebridades brasileiras e internacionais aderiram a essa moda.

 

Foto: Davide Maestri

Modelos exibindo peças da marca Balmain e desfile da Gucci, temporada Primavera/2016 . Foto: Davide Maestri

 

Thaila Ayala, Juliana Paes e Grazi Massafera revivem os dias de glória dos biquínis de crochê. Foto: Instagram (divulgação)

 

 

A cantora Rihanna no clipe de “Work” e a atriz Vanessa Hudgens adotam peças de crochê em seus vestuários. Foto: pinterest

 

Além do crochê, a bijuteria feita à mão é muito utilizada nos desfiles e está voltando à moda. Ela continua sendo o forte dos trabalhos manuais. Apesar de o crochê e a bijuteria terem se tornado um produto industrializado, o artesanal ainda resiste. Pequenos comércios, como de Instagram, lojinhas na Internet e até vendinhas físicas na região da avenida Paulista em São Paulo ainda vendem o artesanato em seu formato original. “A procura tem sido maior. O que nos atrapalha são pessoas que se infiltram e só revendem para grandes pessoas (…) Nós [artesãos] fazemos com amor e carinho”, diz Marcos Vinicius. Pode-se dizer que as pessoas que procuram trabalhos artesanais são em sua maioria mulheres adultas que buscam presentear amigos e familiares, de acordo com donos de lojas.

O uso de aplicativos como o Instagram e o Facebook tem ajudado e muito na divulgação dos trabalhos artesanais. O recente aumento na procura também tem impulsionado o comércio. Estilos de vida como o veganismo, que rejeitam qualquer tipo de produto de origem animal, promovem uma fuga das lojas de grandes marcas e faz com que seus adeptos procurem opções outras opções para fazer compras. Tonya Clifford diz que o Facebook foi e continua sendo uma ferramenta de marketing essencial para seu trabalho, e que deve muito a ele por divulgar seu trabalho também em âmbito mundial.

Vídeo por Gabriela Gaspar

 

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