Por Júlia Valente

A TV cumpriu seu papel ao determinar, em nível global, os rumos das sociedades que estavam rompendo com os padrões tradicionais do mundo ocidental do pós-guerra. Consolidada como instrumento hegemônico de comunicação em larga escala na época, ela ajudou a determinar os rumos das mudanças sociais e políticas bem como, segundo estudiosos da mídia, a influenciar nos modelos de expressão das vontades da população.

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Na década de 60, enquanto no Brasil o vídeo tape era a grande novidade, a Europa e os EUA já vendiam televisores a cores. As grandes redes de comunicação firmavam seu lugar na sociedade, porém os receptores ainda possuíam custo elevado e eram poucas as residências equipadas com essa tecnologia.

No final dessa década se iniciou uma devagar popularização da telecomunicação ao passo que as nações se recompunham das consequências da 2ª Guerra Mundial. As estrelas do rádio, tanto do entretenimento quanto do jornalismo, passaram a vislumbrar a maior visibilidade na televisão. Como consequência, a publicidade também passou a integrar essa mídia, gerando maior lucro e promovendo o aprimoramento dessa tecnologia. Tal feito fez com que ela fosse cada vez mais o meio de informação da sociedade mundial, circunstância determinante nos movimentos da época, como a Revolução Estudantil de Maio de 1968, iniciada na França.

Foi apenas um ano antes do movimento francês que Guy Debord lançou a obra “A Sociedade do Espetáculo”, uma análise crítica da “espetacularização” da vida, argumentando que a sociedade do consumo transformou tudo em mera representação. O manifesto de Guy Debord criticava as imagens como representação das relações sociais, sendo a TV o reconheceu em sua publicação de 1988 “Comentários sobre a Sociedade uma das responsáveis por ocupar o lugar do diálogo, discussões e análises. Apesar disso, o próprio filósofo Espetáculo” que a Revolução de Maio de 1968 fortaleceu aquilo que ele tanto condenou em seu primeiro texto. Em 1973, Guy Debord dirigiu um documentário homônimo ao seu manifesto de 1967. Utilizando-se de trechos da versão escrita e acrescentando recortes de imagens reais e fictícias, a obra aborda política, sociedade, idealismo e cultura, princípios também do movimento “Internacional Situacionista”.

 

“Não são poucos os impasses presentes na obra (livros e filmes) de Guy Debord, se é que se pode chamar de ‘obra’ produção tão singular. De um lado, a crítica radical daquilo que a modernidade tem de mais característico – a imagem, procurando mostrar que ela não é nunca neutra, que traz em si inevitavelmente uma carga ideológica. Por outra, essa idéia de espetáculo como a forma moderna da alienação, tendo caráter tautológico por sua própria natureza.” (Luiz Zanin – Crítico de Cinema e Cultura)

 

Segundo o filósofo e escritor brasileiro Luiz Felipe Pondé, a Revolução Estudantil de Maio de 1968 foi a primeira “manifestação espetáculo” do mundo, já citando Guy Debord. Isso se dá pela grande influência dos meios de comunicação de massa na difusão da revolta, sendo a televisão a grande responsável pela expansão do movimento pelo mundo.

Asa Briggs e Peter Burke em sua obra “Uma História Social da Mídia” indicaram as marchas de protestos de direitos civis nos Estados Unidos como a fonte de inspiração dos estudantes franceses ao utilizar da televisão para garantir que seriam vistos e ouvidos. Neste cenário, críticos da época passaram a questionar se a própria televisão estava incitando tal comportamento e se a dimensão da revolta seria a mesma caso não houvesse tamanha promoção midiática. Em ambas as possibilidades, fica explícita a “espetacularização” da revolta pelos meios de comunicação de massa.

Não há como negar que a televisão, um rádio com imagens, passou a ilustrar aquilo que antes era apenas descrito. A partir de meados da década de 1930, a imaginação do então ouvinte passou a ser concretizada com o advento dessa nova tecnologia, causando, consequentemente, maiores comoções, revoltas e adesões partidárias. A Guerra do Vietnã era tema que sempre convocava discussão na televisão. Em vigência desde 1955, foi só em 1968, quando o público norte-americano viu pela primeira vez a matança em forma de vídeo, que passaram a cobrar definitivamente o término da guerra.

 

1968. Casal norte-americano assiste a imagens da Guerra do Vietnã.                  (Fonte: Divulgação)

 

Ver com os próprios olhos a carnificina nos fronts, bem como seus soldados mortos retornando aos EUA em sacos de plástico para cadáveres, fez estudantes de diversas universidades lutarem por questões nacionais e internacionais. Inspirados no movimento francês, organizações estudantis americanas iniciaram campanhas contra a Guerra do Vietnã. Não obstante, o movimento contra a guerra foi crescendo a ponto de, em 1975, finalmente conseguiu tirar os EUA do confronto após 20 anos de conflitos.

Enquanto isso o Brasil vivia o início da chamada “Era de Ouro da Televisão Brasileira”, sendo os programas musicais a grande atração. O dominical “Jovem Guarda”, exibido pela TV Record, era o escape da juventude em meio à ditadura militar. Apresentado pelos ídolos Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos, a atração acabou por gerar um movimento com o mesmo nome que mesclava música, moda e comportamento. Marcelo Fróes, autor do livro “Jovem Guarda – Em Ritmo de Aventura”, define a atração como “…a Beatlemania no Brasil”, já que foi o fator determinante para a formação de uma identidade jovem homogênea. Era um novo estímulo, bem como uma nova plataforma para expressão.

As famosas “jovens tardes de domingo”, bem como os Festivais de Música, eram formas de protestar e reivindicar direitos sem ser formalmente explícito. A classe artística era o gatilho para a demonstração da insatisfação com o regime militar. Segundo Luiz Felipe Pondé, foi por meio da televisão que se deu a expansão das ideias da revolução estudantil francesa, principalmente nos Festivais de Música.

O Festival Internacional da Canção, exibido pela TV Globo em setembro de 1968, fez história “pela tônica de protesto ao regime militar, tanto nas canções como na reação do público”, segundo o site Memória Globo. Os jovens artistas se utilizaram de composições camufladamente críticas à ditadura militar, como “Sem entrada, sem mais nada”, de Tom Zé, “Questão de Ordem”, de Gilberto Gil, e a preferida do público “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré.

A frase “É proibido proibir”, slogan da Revolução de Maio de 1968, escrita em francês em uma parede em Menton, França.  (Fonte: Divulgação).

Na etapa paulista de eliminatórias, Caetano Veloso apresentou no Teatro TUCA, juntamente com Os Mutantes, a canção “É Proibido Proibir”, famoso lema das Revoluções Estudantis de Maio de 1968 na França. Ao ser vaiado incessantemente, ele proferiu o famoso discurso em que diz “Vocês não estão entendendo nada! (…) Essa é a juventude que diz que quer tomar o poder?”. Mas não foi só com essa canção que a platéia demonstrou insatisfação. Ao anunciar a canção “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque como a vencedora da FIC de 1968, o público se exaltou, já que preferiam a de Geraldo Vandré, que posteriormente foi censurada pelo governo sob a alegação de possuir conteúdo subsversivo que incentivava as pessoas a protestarem. Diversas outras canções também passaram pela censura da ditadura militar no Brasil, como “Cálice” e “Apesar de Você”, de Chico Buarque, “Geleia Real” De Gilberto Gil e Torquato Neto, e “Tiro ao Álvaro”, de Elis Regina e Adoniran Barbosa.

 

 

“Se eu ficar em casa

Fico preparando

Palavras de ordem

Para os companheiros

Que esperam nas ruas

Pelo mundo inteiro

Em nome do amor”

(Questão de ordem – Gilberto Gil)

 

Assista à entrevista de Chico Buarque e Tom Jobim minutos antes do início do Festival Internacional da Canção de 1968.

 

Independente da nação, os jovens estavam decididos a mostrar o que queriam de seu país. A televisão, sendo o maior meio de comunicação de massa da época, era o veículo que permitia expor o movimento estudantil. Sendo assim, é importante considerar sua importância na disseminação de informações em uma época cuja população estava se acostumando a ver, e não só ouvir, o que se passava no mundo.

O ato de visualizar tudo o que se considerava injustiça, bem como assistir aos seus ídolos protestando e reivindicando direitos, fez da televisão o principal difusor das ideias revolucionistas iniciadas na Revolta de Maio de 68 na França. Não só o movimento expandiu com o “auxílio” desse meio, como também a própria TV cresceu, se desenvolveu e adquiriu notoriedade a partir das circunstâncias que resultaram das revoluções estudantis.

 

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