Por Isabella Mei 

 

Mércia Nakashima, Eloá Pimentel e Katyara Pereira vítimas de feminicídio. Fotos: Uol, Orkut e Uol.

Entre todas as maneiras de morrer, ser assassinado é uma delas, e a imparcialidade ao noticiar tal crime é recorrente. Mas há indicadores sociais na hora de noticiar um crime?

Feminicídio: Assassinato proposital de mulheres somente pela condição de mulher. [Por Extensão] Crime de ódio contra indivíduos do sexo feminino, definido também por agressões verbais, físicas e psicológicas. Um crime passional, de momentos de insanidade, talvez?

Em um primeiro caso, o de Mércia Nakashima, advogada, nipo-brasileira de 28 anos e de classe média, que foi assassinada pelo ex-namorado Mizael Bispo de Souza, em 2010. A vítima foi afogada em uma represa em Nazaré Paulista. Mizael foi julgado, e condenado à 20 anos de prisão, em 2013. O caso teve comoção nacional, e o ex-namorado da vitima foi considerado um monstro, e os comentários populares clamavam por uma justiça rígida, desejando a morte do culpado.

Em um segundo caso, podemos falar de Eloá Cristina Pimentel, uma jovem de 15 anos, que foi mantida em cativeiro, dentro da sua própria casa, por mais de 100 horas, pelo ex-namorado Lindemberg Alves Fernandes. A vítima levou um tiro na cabeça e outro na virilha, vindo a óbito no hospital por morte cerebral. O caso foi acompanhado na integra pela mídia nacional, rendendo audiência. Alguns repórteres chegaram a entrevistar o sequestrador ao vivo, como foi o caso da jornalista Sônia Abrão, atingindo o pico de audiência de toda a história do seu programa. Os comentários populares também não perdoaram Lindemberg, afirmando que “um monstro desses” merecia a morte. A responsabilidade foi parar até na mãe de Eloá, por permitir que a filha namorasse um homem mais velho.

Por último, temos o caso de Katyara Pereira, uma mulher de 31 anos, grávida de cinco meses, moradora de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, que foi sufocada pelo seu companheiro com um travesseiro, no dia 12 de março de 2018. Matheus Almeida da Silva confessou o crime no dia seguinte.

A noticia da sua morte destacou que o atual companheiro estava casado e tinha outro filho, mas mantinha um relacionamento extraconjugal com a vítima, sendo o pai da sua filha caçula e do bebê que ela gestava. Até as aspas selecionadas davam uma compreensão que ninguém apoiava sua relação com o culpado, funcionando como consolo (ou justificativa!) da sua morte.
Dessa vez, os comentários populares não perdoaram Katyara. Eles julgaram feminicídio injustiça com os homens que são assassinados. Disseram que engravidar de homem comprometido não é causa de homicídio, mas sim suicídio. Comentaram de forma atravessada a possível conduta da vítima, por já ser mãe de uma jovem de 14 anos e mais duas crianças, mesmo não estando em um “relacionamento sério”. Culparam a vítima pela sua própria morte.

Os três casos são feminicídios explícitos. São mulheres que morreram pela sua condição de mulher, por dizer não a um relacionamento, ou por estar grávida. As três foram assassinadas por homens que não aceitaram alguma condição, que ultrapassaram limites, que tiveram sua “honra ferida”
O caso de Katyara, uma mulher da periferia do Rio, atendente de supermercado, que se envolve com um homem casado, não merece relevância, aos olhos da mídia. Katyara não apareceu em nenhum telejornal, e foi colocada no bloco de “violência no Rio”, não tendo nem categoria própria.

Os três crimes são de extrema gravidade, mas as formas de noticiar diferem dependendo da posição social que a vítima se encontra. Muda também de acordo com a repercussão e com o lucro que vai gerar.

Leave a Reply