Poesia marginal ilumina noite paulistana

A resistência poética dos espaços de rima

Por Dora Scobar, Giulia Ragusa e Guilherme Queiroz.

A expressão também é dos mais jovens.
Foto: Dora Scobar

A arte se apresenta na poesia, enquanto voz. Voz que grita, quando geralmente, iluminando as noites de SP, vem da periferia e transborda como resistência. Por isso, entende sua luta e passa uma mensagem.

Em forma de Sarau ou de improviso, quem passa vê um aglomerado de gente chorando, rindo, se abraçando ou se omitindo. E quem se apresenta e expõe seus medos, vontades, angústias e sonhos, conta com uma platéia que entende, e que tá presente. Assim, quem assiste a tudo isso e participa, enxerga muito mais do que uma manifestação artística.As pessoas que poetizam nesses espaços, trazendo puro sentido a voz, são de verdade. Elas fazem rima, melodia e swing da sua dor. Conscientes da opressão que vivem dia após dia na capital onde não existe amor, elas gritam e contagiam, emocionam e identificam. E, é dessa forma que todos aqueles que, de fora, escutam e entendem o que transmitem os poetas.

A voz da periferia rompeu com a arte de uso exclusivo das classes dominantes, das elites acadêmicas, como o Rap. Ele surge como um estilo musical dos marginalizados, mas não nasceu no Brasil. O continente de origem é o mesmo, mas a América é outra. A Jamaica é o seu berço, nas festas da periferia na cidade de Kingston, durante a década de 60. Os bailes contavam com os chamados “toasters”, que subiam ao palco e animavam as multidões com rimas que falavam sobre o tráfico de drogas, a violência e a situação política do país. Durante a década de 70 muitos jamaicanos foram para os Estados Unidos, e o estilo musical começou a se espalhar principalmente por Nova Iorque. Assim como na Jamaica, inicialmente o rap era mais popular entre as populações mais pobres, mas com o passar do tempo e o sucesso estrondoso nos anos 80, o rap se tornou popular.

King Tubby, um engenheiro de som conhecido por sua influência no rap dos anos 60 e 70.
Fonte: FACT Magazine.

O estilo começou a ser popularizado no Brasil no final da década de 80, em São Paulo. O Teatro Mambembe recebia os primeiros shows de rap na capital. Nos anos 90 grupos como Racionais Mc´s, Planet Hemp e Pavilhão 9 levaram o rap a grande indústria fonográfica.

Hoje a cidade de São Paulo conta com várias Batalhas de Rap que se organizam como competições entre artistas, realizadas em espaços públicos as participações são sempre gratuitas. A capital já conta com mais de 30 dessas batalhas, segundo um mapeamento feito pelo portal Periferia em Movimento.

Mapeamento feito pelo portal Periferia em Movimento.
Fonte: Reprodução Google.

Poetry Slam (batida de poesia) 

Competição falada de poetas de periferia e comunidade, aqui no Brasil, na realidade vem dos Estados Unidos, onde tudo começou. “Spoken word” foi o termo utilizado pela geração beat da década de 80 para romper com os moldes acadêmicos e eruditas da poesia, afastando-as dos livros. Uma vez do povo, ela mostraria as críticas e reivindicações políticas e culturais, daqueles que eram marginalizados.

Chegando em território nacional, nos anos 2000, com seu primeiro campeonato ZAP (Zona Autônoma da Palavra) no coletivo de Teatro e Hip Hop, fundado pela atriz Roberta Estrela D’Avila, que acredita que o Poetry Slam, ou simplesmente Slam, é a nova Ágora (antigas praças centrais gregas, onde aconteciam as assembléias do povo), onde a política e a poética se encontram.
As competições foram se tornando populares por todo o território nacional e atualmente, são encontrados mais de 40 batalhas Slam no país, sendo o estado de São Paulo o palco principal das competições, sediando os mais populares do país como o Slam da Guilhermina, o Slam resistência e o Slam das Minas, por exemplo.

Durante, em apenas três minutos o poeta passa sua mensagem, e usa, para isso, apenas a voz como instrumento. Ele é avaliado pelos jurados, escolhidos na hora, com nota de zero a dez. No final de cada batalha, o poeta vencedor segue para competição regional, estadual, até chegar no Slam BR, na qual tem a chance de ser avaliado como o melhor do ano.

Slam das Minas

Luz Ribeiro, poeta e representante brasileira da Copa do Mundo de Poesia Falada, na França, de 2017, junto com Carol Peixoto, Pam Duarte e Mel Araújo são as organizadoras do Slam das minas, cis e trans, e tem seu projeto idealizado a partir de sua vivência nos outros slams, que tem em sua maioria poetas homens. Criado com o intuito de garantir uma vaga feminina no Slam BR, o espaço se transforma em algo muito maior do que apenas uma competição, um ambiente fraterno, de voz e acolhimento para todas essas mulheres.

A reunião dessas mulheres, desde quando começou no mês da mulher de 2016, se tornou muito conhecida entre os coletivos e ambientes feministas, por trazer uma forma inovadora de sonoridade, na qual grande parte das participantes entendem maneiras de canalizar e expressar suas vivências e dores, que são escutadas e apoiadas.

Estudo acadêmico

A poesia marginal virou também objeto de estudo acadêmico, um artigo interessante sobre o assunto é o de Igor Richielli Campos, em uma iniciação científica o estudante da PUC-Minas dissertou sobre saraus literários e os grupos de cultura marginal.

Ao longo do artigo “Poesia e Periferia: vozes marginais nos saraus literários do Coletivoz e na poesia de Sérgio Vaz”. Campos usa Stuart Hall para identificar as características que levaram a criação dessas manifestações culturais nas áreas mais pobres das cidades brasileiras, dando foco em São Paulo e Belo Horizonte.

Na linha de estudo de Campos, a periferia tem estado ao mesmo tempo aberta às influências culturais das culturas ocidentais mas também consciente da necessidade de preservar as raízes que deram origem às comunidades, manter os laços culturais com os seus antepassados.

O autor usa o tempo todo o Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia) que surge como um dos primeiros grupos a promover a emancipação da cultura periférica, em 2004. A primeira atividade da cooperativa foi realizada em Taboão da Serra, em meio a um galpão de fábrica abandonado.

O espaço reuniu várias performances e diversos trabalhos artísticos como teatro, música, grafite e literatura. A Cooperifa se torna uma associação de artistas, e se consolida como um movimento. Um episódio interessante da história da cooperativa foi a realização da Semana de Arte Moderna da Periferia, em alusão à Semana de 22.

Comparação do cartaz da Semana de 22 e da Semana da Cooperifa.
Fonte: Reprodução Facebook.

Campos caracteriza o episódio como a construção de uma contranarrativa, um movimento que vem como uma nova antropofagia, diferente da modernista. O que a Cooperifa queria era deixar de comer a “arte enlatada produzida pelo mercado” e construir uma versão da periferia. Como disse Sérgio Vaz, um dos fundadores do grupo, em seu livro “Cooperifa: Antropofagia Periférica” : “Uma arte com endereço e com sua bússola apontada para o subúrbio”.

É na manifestação da voz, na forma artística, que a periferia encontrou a formação de uma nova identidade. Campos caracteriza essa identidade como estática, por estar sempre sendo recriada ao longo da história, por meio de um “gozar coletivo”, que vem dos duelos de rappers, do slam, dos saraus.

O surgimento de um espaço como o Cooperifa representou um lugar de pertencimento a cultura da periferia. O desejo de apropriação de um espaço deixa claro a busca de um reconhecimento político, um grito pela existência. A resistência não vem como uma simples libertação dos valores dominantes, mas contra uma cultura que nunca deu espaço para a voz dos menos favorecidos. Campos caracteriza o surgimento desses movimentos em um contexto em que a identidade individualista, fixa e estável, está em declínio, e as identidades múltiplas são celebradas. A periferia começa a construir uma contranarrativa.

Importância do Improviso

“Se tem uma coisa que eu aprendi é que a vida é como se fosse um freestyle”, conta João Martins,23, também conhecido por seu apelido ‘Autonomia Verbal’. João, é aluno do curso de Ciências Sociais na PUC-SP e frequentador assíduo de batalhas de rima, também participa ativamente da organização da Batalha da Labuta. “Cê tem que ser rápido para improvisar porque o tempo não pára e qualquer vacilo já era”, ele completa.

João relata ainda que “foi com o rap e nesses espaços de cultura que eu comecei a desenvolver o meu senso crítico bem antes de ter qualquer base teórica, isso é fundamental”. Thamyres Fernandes, 22, também frequenta os espaços de batalha rima e conta um pouco do início de sua trajetória como MC. “Bom, eu colava na LED que é uma praça no centro de Osasco, e lá rolava a batalha. Eu fui umas três vezes assistir, até que uma vez que não aguentei, pedi pra por meu nome na folhinha pra participar, e desde então eu virei a ‘Minimim’.” Minimim virou seu nome de batalha, no entanto, quem se deixar levar pela delicadeza do nome ou mesmo pelo porte da pequena MC, será surpreendido pela força de suas palavras. “Na real, eu acho que se fosse pra definir mesmo, eu diria que essa vivência [de batalha] me tornou uma mulher muito mais forte” conta Thamyres.

Ela acredita que o improviso tenha mudado sua vida. “Desde a primeira vez que eu pisei numa batalha eu sou outra pessoa. Eu comecei em 2015, e desde então passei a ver o mundo de outra forma e a querer de fato levar o RAP na minha vida pra transformar o mundo.” Essa inquietação que move a MC Minimim também é algo que motiva o jovem Pedro Lopes do Val, 26, a se jogar na brincadeira dos improvisos.

O RAP em fotos, o movimento e a ação da rima, registro do Sarau que acontece na comunidade do Monte Azul.
Foto: Dora Scobar.

Pedro é um dos organizadores do Sarau da Vergonha, que acontece dentro do Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt. Para ele, a arte tem a função de despertar as pessoas para coisas fora da rotina, do padrão, do que é cotidiano. Ele destaca, ainda, a importância do acolhimento que esses espaços proporcionam. “Me sinto à vontade pra falar e recitar nos slams e nos saraus”. E completa: levo a experiência e as histórias de cada um que passa pelo slam, acho que [esses espaços] são ferramentas importantes de comunicação.

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