Por Felipe Cereser e Gabriel Elias

 

Bancas de jornal vendem outros produtos para sobreviverem.                                     Foto: Jim Ronan

 

“Bom dia, garoto”! Foi o que ouvimos logo depois de aberta a porta do elevador. Era 7h15min e lá estava um idoso seguindo a uma banca de jornal. Pouco tempo depois ele volta com uma edição do Agora São Paulo embaixo do braço direito. Após vinte minutos, chegamos à universidade sem parar de pensar na cena que havíamos presenciado. Conversamos e lembramos de nossos avós que liam jornal todo café da manhã e ficavam entusiasmados com cada novidade tipografada que disputava espaço com uma ou outra publicidade.

No celular chega uma notificação: Jornal do Brasil volta às bancas. Estranha coincidência que nos fez refletir um pouco sobre o momento vivido pelo jornalismo impresso. Será que o tempo deles voltou?! Uma rápida pesquisa nos contradiz.

Gráfico ilustra um estudo que expõe o curto tempo restante dos jornais impressos.                     Fonte: Future Exploration Network

A manchete chama a atenção: “Morte dos jornais tem data no Brasil…” Segundo a Future Exploration Network (uma respeitada instituição americana voltada a prognósticos) os jornais impressos brasileiros irão se tornar totalmente insignificantes em nove anos e, por isso, será muito difícil que se mantenham em circulação. O estudo foi amplo e aparentemente bem feito, com fatores-chaves esmiuçados que levam à conclusão; o peso de cada um dos fatores e o cálculo, porém, não foram divulgados, mas, sim, divididos nas esferas global e nacional.

Os indícios globais giram em torno das mudanças nos custos financeiros e ecológicos da produção de papel de jornal e impressão deste, além da captação de mecanismos de monetização das notícias digitais. Tendências de gastos e alocação de publicidade e desenvolvimento de plataformas abertas também estiveram em pauta. Já os fatores nacionais, entre outras coisas, analisam: desenvolvimento e crescimento econômico; potencial tecnológico; disponibilidade e abrangência de internet; desigualdade social; disponibilidade para pagar por notícias; capacidade de penetração de smartphones; estrutura etária; grau de regulação da mídia; comportamento do consumidor; disponibilidade para pagar por notícias.

Desta forma (e de acordo com a Future Exploration Network), somente em 2027 iremos nos deparar com outro panorama definitivo. O que, talvez, poderia ser uma notícia interessante para o JB, mas as recentes e drásticas quedas no número de tiragem dos principais periódicos nacionais nos fazem imaginar que a programada morte do impresso poderá vir prematura: conforme medição do Instituto Verificador de Circulação (IVC), de dezembro de 2014 ao mesmo mês de 2017, os onze principais jornais impressos do Brasil, somados, perderam 488.208 leitores pagantes. Isso representou uma diminuição de 41,4% no montante de exemplares impressos.

Folha de S.Paulo, O Globo, Super Notícia (MG), O Estado de S. Paulo, Zero Hora, Estado de Minas, Correio Braziliense, Valor Econômico, Gazeta do Povo (PR), A Tarde (BA) e O Povo (CE) compuseram a medição do IVC. O mineiro Super Notícia e o carioca O Globo foram os que mais sentiram o baque, com -118.484 e -109.848 leitores, respectivamente. Nove dos onze jornais cederam também números quanto a assinantes digitais, algo muito bem quisto por todos eles, todavia, unidos, não passam de 32 mil leitores. Ou a plataforma não foi bem aceita ou o tipo conteúdo não caiu nas graças de quem paga.

É tempo de Times

Já há oito anos, os sites tornaram-se mais populares que os jornais nos EUA (estudo da Pew Research Center) e, com isso, entre 2008 e 2013, mais de 200 empresas noticiosas fecharam. O valor dos jornais que permaneceram na luta caiu consideravelmente e o ciclo ainda foi “coroado” com a venda do Washington Post, um dos maiores símbolos de influência e poder – responsável delação do escândalo de Watergate -, ao bilionário dono do site Amazon.com.

Até o poderosíssimo The New York Times passou por momentos conturbados em 2013 quando seu antigo publisher, Arthur Sulzberger Jr., vendeu as ações na empresa por um valor bem abaixo do comum e negociou o Boston Globe (onde também tinha parte) por preço 16 vezes menor do que havia pago.

O Times, todavia, agora regenerado, é um que já estuda sair das bancas daqui talvez dois anos, mas, enquanto isso, acumula uma enorme leva de leitores digitais pagos. São 2,6 milhões. E não existem grandes segredos para isso. O jornal aposta no sistema de assinaturas “pay wall”, que restringe o número de visualizações de artigos e matérias aos não-assinantes, como também fazem os brasileiros. Contudo, o Times oferece conteúdos exclusivos e diferentes dos que estão no impresso, como, por exemplo, uma série mensal, iniciada neste ano, chamada “A Year of Living Better” que traz assuntos de temas variados produzidos pelos colunistas. “Como ser criativo” ou “Como achar você em outro lugar” são exemplos.

“The New York Times” já baseia seu investimento nas plataformas digitais.                                                Fonte: site The NY Times

O valor de assinatura mensal do Times (R$ 26,50) se equipara ao preço cobrado pelos maiores jornais do Brasil, a grande diferença, no entanto, também se faz no relacionamento com o cliente. Ben Cotton, diretor executivo de experiência e retenção do Times revelou a tática que visa aproximar o veículo do leitor. Para ele, os assinantes sempre gostaram da natureza aspiracional do jornal e isso faz com que se sintam mais informados e até que possam se tornar uma melhor versão de si mesmos. “Nós percebemos que reforçar esses valores vale muito a pena, em uma perspectiva de número de assinantes”, disse Cotton.

No Velho Continente, o novo

O jornal digital “El Diario” figura com novo modelo de negócio.                                                                          Fonte: portal El Diario

Conteúdos íntimos e exclusivos também são explorados por outros jornais pelo mundo, como é o caso dos espanhóis El Diario e Público. Os dois, diferentemente do Times, apostam em modelos de negócio distintos e novos para a área em que atuam. O El Diario não possui um dono, mas vários. Trata-se de um jornal mantido por sócios, e para se tornar um, basta contribuir com 5 euros por mês (equivalente a R$ 20,36) e assim receber conteúdos especiais e uma revista, navegar sem anúncios e até poder participar de encontros com os escritores do jornal.

O Público, um periódico de tendência socialista, foi fundado em 2007 e acabou vindo a falência quase cinco anos depois. Em 2014, jornalistas uniram-se e ressuscitaram o jornal com um novo perfil, como uma cooperativa de jornalistas. Hoje, para “assinar” o Público e receber seus materiais excepcionalmente diferenciados, não é necessário nenhum centavo de euro sequer, mas a arrecadação é interessante: quem acompanha acaba pagando para interagir com quem escreve no portal e pelas matérias de alta qualidade e relevância.

Os exemplos espanhóis vão na contramão do que pode ser visto nas bancas brasileiras. Estas, aliás, padecem e estão com os dias contados. Entre uma infinidade de itens, cores e tamanhos, está “Seu Gaspar”. Aos 52 anos, ele, Carlos Gaspar trabalha num estabelecimento na Zona Oeste de São Paulo e comenta que sua banca já teria fechado, não fosse a Lei Municipal de número 15.895.

Jornais impressos vêm perdendo cada vez mais espaço para outros produtos.                                                     Foto: Gabriel Elias

A legislação de 2013 possibilitou a ampliação do rol de produtos vendidos nas localidades e, na banca de Gaspar, itens de tabacaria, e figurinhas (“só a cada quatro anos”) garantem seu emprego e a banca funcionando. “Tabacaria e acessórios, como óculos de sol, guarda-chuva etc vendem bem, é constante. Ainda bem, até porque, no máximo, vendo três jornais por dia e tudo para senhores de idade”. Isso gera praticamente 100% de encalhe o qual é parcialmente devolvido às redações e o restante é realocado como um novo produto, o “kit cachorro”. Sim, o trabalho de diversos jornalistas, editores e fotógrafos têm como destino final receber as necessidades fisiológicas dos animais de estimação da vizinhança.

Kit de jornais para higiene de cachorro vem sendo uma alternativa.                                                                       Foto: Gabriel Elias

 

O responsável pela “Banca Vitória”, em Perdizes, acredita que, se o ponto não for bom e o estabelecimento não for capaz de agregar novos produtos, a banca fali. O Sindicato de Jornaleiros estima que, pelo menos, 1500 bancas foram fechadas nos últimos dez anos. “Banca que existe hoje não vai durar muito mais, não”, diz Gaspar.

Figurinhas trazem lucro sazonal às bancas.                                                                                                          Foto: Felipe Cereser

Da banca à feira

Entre as múltiplas utilidades dos jornais impressos – e a que menos se fala é a de informar – está a antiga prática de embalar as compras nas feiras. As tendas dos peixeiros eram as que abusavam do costume, no entanto, hoje, isso não ocorre por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). De acordo com os vendedores de peixe, toda a instalação do estabelecimento e o caminhão de transporte passam por uma rigorosa vistoria anual e os vendedores por um curso de especialização e cuidados singulares com os pescados. “Se me virem embalando peixe com jornal, sou preso em flagrante”, garante um deles.

Toda esta preocupação da Anvisa tem um sentido, é claro. O papel e a tinta usados no jornal são extremamente tóxicos. Como visa uma produção mais barata, a matéria prima utilizada é menos pura, ou seja, a polpa de celulose, com qualidade inferior, mantém as diversas impurezas até o passo final do processo de fabricação. A tinta segue o mesmo rito. É de pouquíssima qualidade e algumas ainda com chumbo em sua composição. Tudo para reduzir os custos do produto.

E além da toxidade, há uma enorme quantidade de lixo produzida. Segundo dados da World Association of Newspaper, se somarmos a produção, somente dos 100 principais jornais do mundo, chegaremos ao número de aproximadamente 38 milhões de exemplares produzidos todos os dias… Quanto descarte é gerado com tais objetos? Recentemente, no entanto, o impacto ambiental gerado pela indústria gráfica tem sido reduzido por conscientização e principalmente legislações.

O outro lado da moeda

“Sabe quem lê jornal? Só os “coroas”. A frase do advogado e professor do curso de Jornalismo da PUC-SP, Wladyr Nader, 79, resume em parte a fase enfrentada pelo impresso. Um dos remanescentes que compram jornais todas as manhãs nas bancas, ele, em meio às muitas folhas e editorias, afirma que pela dependência dos jornais aos empresários que os financiam, não é capaz de dizer se o impresso terá vida longa, mas acreditam que os exemplos internacionais estão em “bom estado pelo digital”. “A gente vê nos Estados Unidos, Europa, China… Os jornais estão bem”, argumenta. Nader, que por hábito não abre mão de se informar pelo impresso, crê que uma possível solução no Brasil seria investir “em publicações que reúnam toda a opinião do povo, porque as pessoas procuram aperfeiçoar suas formas de pensamento na internet.”

Professor Wladyr Nader.                                                                                                                                           Foto: Gabriel Elias

José Luiz Aidar Prado, bacharel em filosofia, doutor em comunicação e professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, garante que “o jornalismo está perdendo tempo em relação ao mundo digital.” Diferentemente de Nader, Aidar considera que a saída seria investir no jornalismo de base de dados, que permitiria a criação de enormes bancos de dados nas redações. “Isso poderia estar acessível aos leitores, e todo dia as matérias não se limitariam a um texto verbal, mas dialogando com textos da base para criar hipertextos, com vídeos, infográficos etc.”

Prof. Aidar Prado.                Foto: Arquivo pessoal

Ele diz ainda que as redações poderiam contar também com outros profissionais ou com jornalistas especializados em áreas como história, informática, economia etc, para compor um staff de redação desses materiais hipermidiáticos e multimidiáticos. “Seria algo mais dinâmico do que simplesmente digitalizar o jornal impresso” (prática comum nas plataformas digitais dos jornais brasileiros). Aidar também coloca em pauta a questão ideológica, apontando para um desbaratar do conservadorismo no espectro político pela falta de veículos mais abertos. “Nesse sentido, modelos menos hegemônicos seriam interessantes para tentar verificar como isso poderia mudar no futuro”. O professor da pós-graduação credita o momento vivido pelo impresso à falta de investimento em jornalismo. “Deveriam investir nisso, em vez de escorregarem para negócios laterais”, acrescenta.

JB: Já Basta

E no meio de tudo isso, voltamos ao JB. O jornal que fora o maior do país retornou à venda como impresso, apostando no modelo de negócio clássico dos veículos do qual faz parte: publicidade e conteúdo diário. Analisemos alguns sinais: a primeira edição do Jornal do Brasil, um símbolo dos cariocas e seu glamour, veio às bancas custando R$ 5, com a atriz Luiza Brunet (55 anos) como garota-propaganda e num momento em que o Estado do Rio de Janeiro encontra-se em verdadeira catástrofe (a primeira manchete inclusive fala explicitamente sobre isso: “O Rio tem solução. Todos amam o rio”). O JB, porém, resolveu não investir numa plataforma digital forte, deixou por conta do portal Terra. Está mais do que provado que é impossível competir com a velocidade de propagação das informações na Internet. E por citar velocidade, é preciso ver por quanto tempo irá durar a aventura do JB.

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