Por Ana Clara Schuller

O  estilo de vida aclamado pelo funk carioca está enraizado no imaginário popular brasileiro. Pessoas que, como eu, cresceram em meio ao reinado do “proibidão” sem partilhar diretamente da realidade  das comunidades do Rio de janeiro, cantaram músicas cujas letras refletem nossa sociedade, então como em qualquer via cultural tradicional esteriótipos de gênero e apologias a violência sexual, crime e homofobia transbordam desde as letras aos bailes.

Dos bailes, longe de moralismos, quicar e empinar a bunda como a batida pede é a graça da história toda. Mas não deixam de ser ambientes hostis para quem não é um homem. Enquanto para mulheres, gays, lésbicas, trans: “se rebola assim dá abertura pra quem passa fazer o que quiser”, pensam os defensores de assédios e outras violências nesses ambientes.

Temos então um pancadão que atrai a diversidade de existências inserido em um ambiente que expele grande parcela dos apreciadores. Acompanhando o desenvolvimento de discursos e debates sobre diversidade, direitos e territórios, duas saídas são possíveis: invadir esses espaços, as festas e shows, ocupando o que é direito de todos ou criando espaços que sejam seguros e quase exclusivos para os LGBTs, mulheres, negros e periféricos. E na lógica da segunda opção, surge o “Baile da 22”, festa que acontece aos sábados no Vale do Anhangabau, no centro da cidade de São Paulo.

A festa abre a noite. Os organizadores e DJs convidados (todos negros e LGBT) contam com o apoio do espaço do “Bar do China”, onde posicionam a mesa de som numa distancia suficiente para a extensão alcançar. Enquanto se preparam, a frente do bar já começa a encher de pessoas aparentemente ansiosas, vestidas a caráter dos bailes, que se misturam com os frequentadores usuais da região. A festa começa e sem hesitar, os que vieram para dançar se jogam ao som de MC Carol, Karol Conka, Linn da Quebrada, nomes que vêm batendo de frente com a cena do funk, marcando o ponto da diversidade com discursos politizados.

Mesmo sendo um ambiente acolhedor, a rua é aberta a todos. Isso significa, aberta a diversos olhares, opiniões e preconceitos. Enquanto fotografo, um homem vestindo uma camiseta de estampa militar e óculos escuros faz comentários rechaçando a postura das mulheres presentes . Talvez por esses comentários, o clima pesou hostil, o que levou os organizadores a realocarem a festa no terraço do bar. E daí, a noite adentro, entrando como mais um marco de empoderamento e ressignificação cultural.

(Fotos: Ana Clara Schuller)

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