Farol Santander: a interferência da iniciativa privada na paisagem urbana

Por Enzo Kfouri e Giovanna Linck

Painéis feitos pelo artista Vik Muniz retratam o edifício e seu entorno. Foto: Giovanna Linck

 

Desde janeiro deste ano, quem passar pela Rua João Brícola e olhar para cima não vai mais ver o “prédio do Banespa”, mas o Farol Santander. O edifício Altino Arantes, símbolo de uma época em que a capital paulista caminhava para se tornar uma metrópole, foi reaberto ao público como parte das comemorações do aniversário da maior metrópole do país, após dois anos de reforma financiados pelo banco que agora possui os direitos do nome.

A construção, inspirada na arquitetura Art Deco do famoso arranha céu Empire State Building em Nova Iorque, foi inaugurada em 27 de junho de 1947, depois de oito anos de obras. Com 35 andares e 161 metros de altura, foi considerada a maior construção de concreto armado do mundo e, por quase 20 anos, a mais alta de São Paulo.

É incorporado, em 2000, ao patrimônio do banco espanhol Santander na compra do Banespa (Banco do Estado de São Paulo) e, por conta de sua importância histórica, é tombado em 2014 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat).

 

Reprodução de uma antiga sala de reunião da diretoria e do conselho. Foto: Giovanna Linck

 

Com acesso a 11 andares e ingressos a partir de R$15,00, o prédio promete virar um centro de cultura, entretenimento e lazer. Além de diversas exposições, o Farol Santander ainda conta com uma pista de skate, um loft luxuoso com apartamentos disponíveis por R$3.500,00 a diária e a principal atração: a visita ao mirante, que já existia antes da reforma e ganhou vidros com sinalização de marcos da cidade, além de uma unidade do Suplicy Cafés Especiais.

Em cartaz até junho desse ano, “Os Pontos e a Vista” é uma das exposições presentes no local e conta com o uso de um acervo de materiais audiovisuais que traz a história do escritor português José Saramago. “Foi a atração que mais gostei”, diz a redatora Daniele Rachid Viana, que visitou o prédio com sua família.

 

Vista a partir do mirante no 26º andar. Foto: Giovanna Linck

 

Contudo, a reinauguração de um dos principais marcos da cidade abre espaço para um debate sobre as privatizações de pontos turísticos na cidade e sobre o impacto da iniciativa privada na paisagem urbana de São Paulo e de outras metrópoles. Para a professora do programa de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP Lucrécia D’Alessio Ferrara, deve-se tomar muito cuidado para não se cair no marketing e na publicidade das grandes empresas por trás dessas ações.

“Para um ponto turístico ser benéfico à cidade, é preciso que ele seja um espaço de debates e troca de ideias. Sem dúvida nenhuma, esses locais contribuem para a movimentação de capital e possuem grande importância para o turismo, mas não é interessante quando não passam disso”, explica Ferrara. “O MASP é um marco da cidade e é um museu em que se exibem diversas exposições, mas é também um espaço de manifestações políticas e convívio em sociedade. A escadaria da Gazeta ou o SESC Pompéia também são outros exemplos”, completa.

De acordo com informações do site do ponto turístico, o farol pretende proporcionar experiências de reconstrução da memória histórica do lugar e das pessoas, de vivências únicas e de uma arte imersiva questionadora, por meio de exposições imersivas com artistas brasileiros e internacionais.

 

Reprodução de uma antiga mesa de atendimento aos correntistas. Foto: Giovanna Linck

 

Isso contrasta com a visão da professora, que é categórica: “No Farol Santander, a interação do público e a interferência cultural são mínimas comparadas à ação de marketing realizada, lá não é um ponto de encontro e não há troca de ideias ou manifestações culturais. O nome já diz: utiliza-se a palavra “farol” porque é algo que orienta, ilumina, é um ponto de referência e o banco cria esse espaço para fixar a marca e fixar um marco central em São Paulo. O prédio do Banespa vira Farol Santander”.

A discussão vem à tona justo durante o governo do prefeito João Dória, conhecido pelos pacotes de privatização de patrimônios históricos da cidade, como o Estádio do Pacaembu. “Muitas vezes a interferência da iniciativa privada se baseia em um grande apelo de marketing midiático, pois, sobre o pretexto de criar um espaço urbano, cria-se a fixação da marca e não um incentivo expressivo às manifestações culturais. A cidade é muito mais complexa e complicada que um ponto turístico”, relata a professora.

 

Placa do Banespa, banco que ocupava o prédio anteriormente. Foto: Giovanna Linck

 

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