Por Sofia Ferreira

A indústria do entretenimento tem tido sua história cada vez mais manchada por escândalos que envolvem importantes nomes do cinema e da moda mundial. Através de denúncias pelas redes sociais e protestos em premiações com audiência e exposição no mundo inteiro, grandes mulheres – que sofriam com o machismo por trás das câmeras – vêm desmascarando figuras que sempre usaram de seu poder na indústria do cinema para violentar e desmerecer grupos minoritários. Em busca de justiça contra os casos de assédio sexual no lugar de trabalho e a desigualdade de gênero dentro da indústria do cinema, atrizes de peso de Hollywood dão início ao movimento Time’s Up.
Fundado em janeiro de 2018, o Time’s Up – o tempo acabou, em tradução literal – foi uma espécie de resposta de atrizes como Natalie Portman, Emma Stone e Oprah Winfrey do cinema mundial para outros dois grandes movimentos que foram fortemente discutidos e ganharam um grande espaço na mídia: o Weinstein Effect – que surgiu após as várias acusações de violência sexual direcionadas ao produtor de cinema Harvey Weinstein – e o #MeToo – hashtag criada nas redes sociais há alguns anos, para falar de assuntos diretamente ligados à violência sexual, em que vítimas poderiam expor seus casos e receberiam apoio de outras pessoas pelas redes sociais – , que encorajaram mulheres e homens a denunciar estilistas, diretores de grandes companhias, atores, etc, contra a violência sexual.

Formado por figuras públicas voluntárias que se mobilizam não só pela classe exposta midiaticamente, mas também pela classe de mulheres trabalhadoras que sofrem diariamente com a desigualdade de direitos e salarial, o movimento Time’s Up, recebeu, em novembro de 2017,uma carta aberta de 700 mil trabalhadoras agrícolas americanas em apoio ao movimento, o que influenciou a iniciativa de criar um fundo de doações para amparar mulheres com gastos judiciais em processos contra denúncias ligadas à casos de assédio sexual.

 

Em fevereiro de 2018, o fundo já somava mais de 80 milhões de reais e já contava com 200 advogadas voluntárias, que se solidarizam pelo movimento e já ajudaram mais de duas mil mulheres nesse ano. “Nós não queríamos ser um grupo de pessoas que se reúnem para falar sobre mudanças, nós queremos ser parte desta mudança”, disse Tina Tchen, ex-assessora de Michelle Obama na Casa Branca e que agora lidera a parte jurídica do movimento Time’s Up, em um painel durante a Makers Conference.

Grandes eventos que premiam o cinema internacional foram marcados por representações do movimento. No Globo de Ouro desse ano, evento que premia os melhores profissionais do cinema e da televisão, grandes nomes do cinema feminino como Mariah Carey, Natalie Portaman e Emma Stone, se juntaram a outras mulheres para vestir preto como um ato em homenagem e protesto ao movimento. Já no Grammy, maior premiação da indústria musical, os convidados e premiados que se solidarizaram com o movimento carregaram junto de si uma rosa branca, símbolo de liberdade e esperança.

Os vestidos de gala das mulheres, em grandes premiações, possuem muito significado para a grande imprensa, que nivela a qualidade das atrizes a partir dos designers que estão sendo vestidos. Usar preto significa muito mais do que estar de luto por um ideal que não consegue ser atingido, mas também obriga àqueles que veem apenas uma peça de alta costura sobre uma modelo a enxergar a modelo por baixo do pano. Em outros eventos como o BAFTA (British Academy of Film and Television Arts) e o Oscar, novamente os protestos voltaram a aparecer, não só em mulheres, como em homens, que muitas vezes levavam em seus peitos o símbolo do movimento, em formato de broche.

O manifesto já soma mais de 300 atrizes apoiadoras hoje, que diariamente estão lutando por melhorias nas condições interpessoais dentro do ambiente de trabalho e na vida. A luta pelo fim da desigualdade de gênero e salarial ainda está muito longe do seu fim, mas os movimentos de empoderamento feminino mostram a cada dia mais o poder das mulheres, em denunciar seus abusadores, em disputar lugares de fala e de se colocarem em situações de posicionamento dentro de grandes corporações. O espírito da sororidade e a união entre mulheres são chave para a luta diária contra o machismo.

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