Ontem ouro, hoje passado: os cinemas de rua de São Paulo

Por Natália Campos e Luiza César

São Paulo, 12 de fevereiro de 1954. Uma multidão formada por repórteres, fãs e curiosos se espremia na Rua Conselheiro Crispiniano para acompanhar a inauguração do I Festival de Cinema do Brasil. O palco era o Cine Marrocos, o mais luxuoso cinema da América do Sul naquela década. Parecidos com ele, havia muitos outros na cidade: Ipiranga, Cine Copan, Windsor, Art Palácio. Hoje, muitos anos depois, pouca coisa restou daquela era glamorosa dos cinemas da cidade de São Paulo.

Até a década de 70, as salas de cinema eram as campeãs de entretenimento para a população, superando até a televisão e o futebol. Era comum para os jovens da época juntar os amigos ou marcar encontros em alguma das inúmeras sessões disponíveis nas matinês dos cinemas de rua no centro da cidade. As avenidas São João, Ipiranga, São Luís ficavam cheias de pessoas de diversos cantos da cidade que vinham em busca dos lançamentos de Hitchcock, James Dean, Grace Kelly, Marlon Brando. “Não se podia entrar sem gravata nos cinemas mais bem frequentados da cidade”, lembra Leonello Tesser, aposentado de 83 anos que frequenta desde 1942 as principais salas da cidade, desde o Ipiranga Palácio até Marabá, Marrocos, Art Palácio, Ritz São João, Olido e muitos outros.

O declínio

Mas a chegada dos anos 80 trouxe a rápida reprodução dos shoppings pelo país que tinham agora, em sua maioria, salas de filme modernas tomando o público dos cinemas de rua. Assim, pouco a pouco, tais espaços saíram do cotidiano da população e já nem eram mais uma opção de divertimento para as novas gerações. Os tradicionais cinemas fecharam e, com o tempo, renderam-se a novas funções comerciais ou deram lugar a filmes adultos.

O famoso e luxuoso cinema Marrocos inaugurado em 1951. (Foto: Luiza César)

O antes luxuoso Cine Marrocos hoje em dia pouco chama a atenção de quem passa Rua Conselheiro Crispiniano. O prédio pertence à Secretaria de Educação da cidade de São Paulo, mas está abandonado após a expulsão, em 2016, de famílias do MST que o ocupavam. Ele fica cercado por cones e faixas e a entrada deve ter a autorização da prefeitura – o que, após inúmeras tentativas, não foi concedida à reportagem. “Lá dentro está tudo escuro, nem a gente entra. Já caiu até gesso. Uns empresários quiseram comprar, mas o preço está muito alto. Além de toda a reforma: elevador, hidráulica, elétrica. Acho que a prefeitura vai vender, é muito dinheiro”, afirma o guarda que faz a vigia do espaço. O que se consegue ver da fachada é um lugar que parou no tempo e só tem sua idade revelada pela tinta do teto descascando e as pichações nas paredes.

Com a ocupação do MTST que durou de 2013 até 2016, o prédio Marrocos permanece interditado e com posse da prefeitura. (Foto: Luiza César)

Cada um à sua maneira, a grande maioria deles teve o seu fim decretado. O cinema Windsor, na Avenida Ipiranga, virou uma franquia da rede de academias Smart Fit e, se não fossem pelas escadas largas, em nada remeteria a um cinema antigo. O Art Palacio, na São João, tem hoje suas paredes tomadas por lambe-lambe de propaganda e seus espaços ocupados por moradores de rua. O Cine Copan, parte do projeto inicial de Oscar Niemeyer, hoje é uma igreja do grupo Apostólica Renascer em Cristo.

O Cine Copan está localizado em uma das grande obras de Oscar Niemeyer. Fechado em 1986 o espaço que antes era o cinema, hoje é uma Igreja Apostólica. (Foto: Luiza César)

 

Antigo cine Windsor, fechado em 1953 em que agora se encontra a academia Smart Fit. (Foto: Luiza César)

A exceção

Cinema Marabá localizado na Av. Ipiranga (Foto: Luiza César)

Há, porém, espaços que se reinventaram e resistiram. O Cine Marabá, a uma quadra de distância da Praça da República, é um deles. Atualmente, pertence à rede de cinemas PlayArte e tem em seu catálogo filmes comerciais. Por fora, a fachada ainda mantém, mesmo que não utilizadas, bilheterias antigas. Por dentro, a arquitetura foi mantida – pé direito alto, pilares e decoração clássica – aliada às tecnologias de cinemas de shopping da cidade. A antiga e única sala que comportava 1655 pessoas transformou-se em cinco novas e modernas salas, divididas em dois andares. As escadas que levam ao segundo andar são largas e forradas por um carpete vermelho – algo que um millennial ou jovem nascido entre os anos 80 e 90 apostaria ser mais de um teatro do que de um cinema.

A maior sala do cinema restaurado, com capacidade para 440 pessoas. (Foto: Luiza César)

“O público que frequenta aqui é bem variado”, afirma o funcionário Rodolfo Bantim, “mas vez ou outra aparecem pessoas mais velhas saudosas dos antigos cinemas de rua da cidade”. Mas, quem procura os filmes que marcaram época talvez se frustre: não há nenhuma ação para reexibição de clássicos, como faz, por exemplo, a rede Cinemark.

O projeto para a reforma do cinema foi desenvolvido em 1999, foram preservados o saguão e a fachada do prédio. As escadarias apenas passaram por uma restauração. (Foto: Luiza César)

O Cine Olido, localizado ao lado da Galeria do Rock, também teve um destino diferente. O cinema fora fechado em 2001 mas, reaberto em 2004, e hoje faz parte do projeto Circuito Spcine da prefeitura de São Paulo, que busca levar o cinema a bairros não atendidos pelas salas comerciais. Com uma sala funcionando, o Cine Olido oferece filmes nacionais e internacionais por preços acessíveis (R$4 reais a inteira e R$2 reais a meia). Deste cinema Leonello Tesser lembra bem: “Durante algum tempo fui fiscal de cinemas, minha função era controlar a entrada dos frequentadores e no final o borderô tinha que bater com meu reloginho marcador”, afirma ele, “meu último trabalho foi no Cine Olido onde exibiam o filme ‘O Trapézio’”.

Reaberto pela Prefeitura em 2004, o cinema exibe hoje sessões de filmes ganhadores de bilheteria. (Foto: Luiza César)

Os cinemas de rua do centro são um reflexo do que a própria região vem se tornando ao longo das últimas décadas. Abandonar esses espaços é ignorar suas histórias, e elas merecem ser contadas.

Grande foto exposta no saguão do Cine Olido exibindo, a época de sucesso do cinema. (Foto: Luiza César)

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