Futebol e Cultura: além dos gramados

Por Giuliano Formoso e Victor Félix

Entende-se cultura como um conjunto de crenças, costumes, atitudes e hábitos de um determinado povo. Portanto, indiscutivelmente, é possível afirmar que o futebol está entre as maiores manifestações culturais do Brasil. Fundamental fonte de identidade nacional, mobiliza e atrai milhões de pessoas semanalmente, promovendo a integração do país e fazendo com que a sociedade encontre um sentido de união raramente visto em outras esferas da vida social. Talvez constitua o único universo onde seja possível observar, com certa frequência, indivíduos de diferentes classes sociais, raças e opiniões se transformarem em semelhantes, através de um sistema de comunicação peculiar que os leva a abraços eufóricos e a conversas informais nos estádios, ou mesmo nas ruas.

Criança indígena da tribo Maraiwatsede (MT) desenha a camisa de Ronaldo Fenômeno nas costas

O Brasil é um país marcado por uma diversidade enorme, tanto cultural quanto regional. Nesse sentido, o futebol tem uma importância essencial para a acepção de coletividade, estimulando as diferenças e rivalidades entre grupos sociais distintos ao mesmo tempo em que os integra. Em partidas da seleção brasileira, por exemplo, as rixas tradicionais locais ficam em segundo plano para que todos possam torcer juntos para a representação da nação. Assim, o escritor carioca Nelson Rodrigues definiu a seleção como “pátria de chuteiras”, esclarecendo o turbilhão de sentimentos que permeia o país em épocas de Copa do Mundo. Mas nem sempre foi assim.

O futebol chegou ao Brasil como um esporte de elite, inventado na Inglaterra ainda em meados do século XIX. Esse lazer importado da Europa, que tinha como finalidade entreter o ócio dos filhos da alta sociedade, não demoraria para baixar à terra e fixar suas raízes. Sendo uma atividade que não demanda dinheiro tampouco nada além da pura vontade, o processo foi irreversível: o ludopédio cresceu a partir dos subúrbios. Graças à linguagem universal da bola, os trabalhadores expulsos do campo se entendiam muito bem com os trabalhadores expulsos da Europa. Assim, o esporte organizado nas universidades inglesas alegrava a vida da massa popular da América do Sul.

O futebol se tornava a paixão do povo ao mesmo tempo em que se desqualificava como passatempo fino. Virava também morada para os garotos problemáticos, que viam se encaixar perfeitamente nos campos a ousadia que não funcionava na vida. Na ausência de base familiar e condições básicas, o destino reserva, até hoje, para uma infinidade de meninos brasileiros, muitas vezes apenas duas opções: o crime ou o futebol. Professor do departamento de antropologia da PUC-SP e membro do Museu do Futebol, José Paulo Florenzano afirma: “O futebol no Brasil se constitui ainda hoje em uma via de ascensão social para pobres e negros. Todavia, esta via esconde, por assim dizer, uma armadilha sociológica, consubstanciada na suposta verdade do futebol como o lugar “natural” reservado aos integrantes dos grupos mais desfavorecidos da sociedade brasileira. De fato, a presença expressiva dos negros na categoria dos atletas profissionais contrasta com a ausência dos negros nos domínios mais valorizados da sociedade, isto é, nos postos que conferem prestígio e poder. Além disso, a ideologia da ascensão social através do futebol reforça a idealização criada ao redor do referido esporte, cujo fascínio atrai milhares de jovens e adolescentes que ficarão para trás, com sequelas no corpo e na alma, sem o capital cultural necessário para a retomada da luta pela inserção social.”

A partir da década de 1930, o futebol viveu sua grande expansão. A popularização aconteceu muito graças à campanha na Copa de 1938, quando o Brasil representou sua grandeza aos olhos do mundo, conquistando um terceiro lugar heroico, apesar de ter deixado o amadorismo apenas poucos anos antes. À luz desse processo, o futebol seguiu sendo fundamental para a sociedade brasileira. Fora protagonista em mudanças políticas, econômicas, sociológicas e antropológicas. O que acontecia em campo e nas arquibancadas era influenciado pelos rumos do país, mas também ajudava a reger o caminho. Algo que se repete também de maneira tão forte no âmbito cultural. Poeta, tradutor e professor no Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, Amálio Pinheiro analisa: “O futebol se relaciona muito com o corpo do brasileiro. Antes de ser cultura de massas, trata-se de cultura do corpo. Por isso ele é tão importante para a sociedade. Foi inicialmente importado dos ingleses, mas se adaptou tão bem ao corpo e à cultura do brasileiro que passou a ter um valor afetivo único para nós. É inegável a relação que o futebol possui com diversas artes populares, tais como o samba ou a capoeira. O próprio português falado no Brasil é permeado de expressões retiradas do universo futebolístico. É o caso de “show de bola”, “suar a camisa”, “dar um chapéu”, “tirar de letra”, “jogar para escanteio”, “embolar o meio de campo” e tantas outras. Cabe a ressalva de que, em nenhum outro lugar do mundo, elementos da linguagem do futebol se fazem presentes na vida cotidiana dos cidadãos como ocorre no Brasil”.

Perante sua importância aos brasileiros, o futebol tem uma representação nas artes nacionais até menor do que poderia se sugerir. Contudo, era impossível para as mais distintas manifestações culturais ignorá-lo. Então, ainda que de maneira modesta, o futebol se faz presente na literatura, no cinema, nas novelas, na música e nas artes plásticas, pois as concepções de expressão linguística e corporal do brasileiro no último século foram fortemente influenciadas pelo jogo de bola.

Nesse contexto, o futebol poderia ser mais defendido como patrimônio cultural nacional. Coloca-se em pauta a discussão de que se existem práticas culturais suficientes ou justas relativas ao futebol, que sejam reconhecidas e preservadas pela sociedade brasileira como um bem público. O maior expoente dessa categoria é, sem dúvida, o Museu do Futebol, em São Paulo.

Estádio do Pacaembu, a partir da praça Charles Miller

O Museu do Futebol trabalha para a preservação e difusão de um acervo de referências e indicadores da memória do fenômeno social que é o futebol. O espaço cultural foi construído dentro do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, na zona oeste de São Paulo. Define sua missão como investigar, preservar e difundir o futebol em suas múltiplas facetas e como expressão cultural significativa na história brasileira dos séculos XX e XXI. Além disso, procura, por meio de suas ações, refletir criticamente sobre a trajetória do futebol no Brasil, valorizando o seu papel na constituição de identidades e imaginários. Durante a visita, além de garantir a interatividade com o público, a dinâmica também busca explicar aspectos como: a relação do esporte com a arte, a história das Copas do Mundo e o impacto do futebol na vida cotidiana da população para além daqueles que se envolvem diretamente com o exercício da profissão.

“O Museu mantém-se em permanente diálogo com os agentes culturais que redefinem o valor, o lugar e o significado do jogo no conjunto da vida social brasileira. Nesse sentido, tanto quanto reiterar a centralidade do futebol na identidade nacional, as exposições promovidas pelo Museu tem por objetivo desestabilizar os conceitos e sentidos associados a esta narrativa hegemônica, descortinando, portanto, nas possibilidades de interpretação do futebol no país. Com efeito, trata-se de abrir espaço para as contranarrativas, representadas pelo futebol das atletas mulheres, pela presença dos jogadores negros, ou, ainda, dos coletivos de torcedores. A inauguração do Museu do Futebol, em 2008, representa um marco na tomada de consciência da importância do futebol enquanto patrimônio da cultura brasileira. De fato, ele logo se transformaria em uma referência para a abertura de novas instituições museológicas no país, além de incentivar a multiplicação de memoriais de clubes em vários estados. Consideradas em conjunto, todas estas iniciativas indicam uma mudança significativa no modo pelo qual a sociedade tem reconhecido o valor simbólico do futebol, embora, sem dúvida, exista um longo caminho a ser percorrido no que diz respeito, sobretudo, ao resgate e preservação da memória coletiva”, declara o professor José Paulo Florenzano.

 

 

 

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