Beco do Batman, um cenário cultural independente

Por Guilherme Tedesco e Henrique Soto

Uma das maiores galerias de arte urbana a céu aberto do mundo, o Beco do Batman, localizado na Vila Madalena – Zona Oeste de São Paulo – tornou-se polo cultural e turístico na capital paulista desde os anos 1980. O beco foi adotado por artistas – ou amigos – de rua que, na década de 80, resolveram pintar nos muros do bairro. Nunca imaginaram que o local onde eles desenhavam se transformaria em um dos lugares mais visitados de São Paulo e chamaria atenção de empresas para utilizar os grafites como cenário de gravações e ensaios fotográficos.

Turistas visitando Beco do Batman

 

Há duas décadas os artistas atuais investem o tempo e a paixão nesse local, trocando os grafites constantemente, simplesmente pintados em cima dos últimos, com o objetivo de renovar e inovar, tornando um cenário cultural independente. A verdade é que 80% das pinturas de todo o local foram feitas pelos amigos Boleta, Milo Tchais, Ninguemdorme e Prozak, que administram os desenhos e as paredes do beco. O artista Higraff também contribuiu muito com seus desenhos, mas já não mora na cidade. Há pouco mais de dois anos, eles decidiram fundar uma sede com o intuito de criar projetos artísticos e divulgá-los. Além do espaço físico no meio do beco, também há a página no “Instagram” de mesmo nome: LocalStudioArt.

Os atuais artistas substituíram os da geração passada, que foram os pioneiros do beco e já estão na casa dos 60 anos. É incorreto, portanto, dizer que eles não esperavam dinheiro com a arte quando começaram, como bem explicou o artista NinguemDormi: “Com arte visual você vai ganhar dinheiro, desenho sempre foi uma profissão”. Para grafitar nos muros do Beco do Batman, eles não recebem nada, porém, já pintaram no Brasil e no mundo com trabalhos encomendados. Eles vivem disso há mais de 20 anos: sempre há trabalhos que lhes são designados. “O beco é apenas uma consequência do que a gente já faz por todo canto”. Quanto levar a arte como emprego exclusivo e o futuro do seu trabalho, o entrevistado que se define como soldado da arte diz: “É provisório e previsível. O nosso objetivo pontual, permanente e eterno é sempre estar ofertando arte”.

Grafiteiro NinguemDormi (à direita) em seu tempo livre

 

NinguemDormi não vê a ascensão do Beco sendo referência em arte urbana como fruto do suor e da paixão dos parceiros de longa data, mas define a popularização do local com o termo “selfódromo”; e, por consequência, o grafite da Vila Madalena foi um dos lugares mais escolhidos para a exploração dessa ação.

Outro tema abordado foi a utilização dos grafites para ensaio fotográficos e gravações. O fato é que eles cederam as artes visuais para todas as atividades que tenham um fim cultural, o que é muito requisitado, porém gravações de cunho comercial demandam um eventual acordo com o grupo que comanda o StudioArt. Mas a utilização cultural é o suficiente para eles: “O uso cultural já é a nossa oferta, nossa demanda, nossa luta; de ter arte, de ter melhoramento de convivência pública”.

 

Garoto posando para foto com obra de NinguemDormi de fundo

 

Por fim, ele classifica a importância do grafite como atuante na imaginação do aprimoramento humano. Para ele, imagens carregando simbologias selvagens, primitivas e psicodélicas auxiliam na trajetória harmônica da vida.

Como contraponto à situação dos artistas do Beco do Batman, um outro morador da Vila Madalena com casa no centro do beco, também grafiteiro, não obteve muito lucro na profissão e resolveu seguir sua outra paixão: o ciclismo. Morou dez anos na Itália e chegou a participar de campeonatos até ter uma lesão grave. Hoje, mecânico do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Marcelo, monta bicicletas para atletas de alta performance, na sua própria casa, e grafita por hobby.

 

Bicicletas em construção na casa de Marcelo

 

A entrevista com ele tomou um rumo bem diferente, mas não menos importante do que a com NinguemDormi. Apenas uma conversa mais leve e informal, na qual ele nos falou da história do lugar, de algumas pinturas, da inspiração para grafitar e dos “baderneiros”.

As primeiras pinturas no bairro Vila Madalena foram feitas, na verdade, no Beco do Aprendiz, na rua Belmiro Braga, a duas quadras do Beco do Batman. Eram apenas pichações que, com um tempo, amadureceram e viraram grafite. Voltando ao beco mais famoso, Marcelo mostrou histórias de alguns desenhos como a do Nordestino e a da Pomba, um símbolo da região em que é comum as enchentes e a água passa por debaixo da imagem do animal.

Pomba pintada “vigiando” pomba real

 

Outra curiosidade é a maneira como a inspiração para os grafites “vem” para eles, ou pelo menos para o próprio mecânico: “Geralmente a gente bebe pinga, fuma ‘um’ e começa a grafitar”. Terminou comentando dos jovens que vão ao beco na madrugada para “ouvir música, beber e zoar”. Chamou-os de baderneiros, que acabam com o silêncio e a paz dos moradores.

Apesar de trabalharem como soldados da arte, poucos grafiteiros conseguem êxito e se sustentam na profissão. Mas a representação de seus projetos tem a mesma finalidade cultural, expressando seus valores e buscando melhorar a aparência artística e social da cidade de São Paulo. Ainda que a intenção da maioria que visita o Beco do Batman seja apenas posar para fotos, o espaço oferece mais do que aparenta: a história dos grafiteiros, das pinturas, do lugar em si e uma fuga do cinza da cidade.

Leave a Reply