Em seu novo livro, Alexandre de Maio transforma jornalismo em quadrinhos

Por Carine Roma

Lançamento do livro RAUL; ocorreu em São Paulo

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Do crime ao RAP.

A obra literária reúne uma combinação perfeita e chamativa: jornalismo e história em quadrinhos, navegando sobre um assunto que permeia nossa sociedade: o crime.

O livro RAUL – do escritor Alexandre de Maio – trouxe uma reportagem em HQ e agradou o público em seu lançamento na Matilha Cultural.

Trata-se da história do rapper Rafa (um nome fictício) em uma reportagem na qual ele entra em um conflito com o sucesso e o crime nos anos 2000. Depois de ser preso,a exposição negativa midiática prejudica sua carreira artística. Atualmente está foragido da justiça.

 

Alexandre De Maio.

Alexandre De Maio publicou livros de ficção em quadrinhos Os inimigos não mandam flores  (2006) e Desterro (2013), ambos em parceria com o escritor Ferréz e ilustrou Génération favela, de Marie Naudascher e Héléne Seingier, lançado na França em 2016. De Maio também é co-autor da reportagem em HQ Meninas em jogo (2014) junto com a jornalista Andrea Dip, da Agência Pública. A reportagem tratou da exploração sexual infantil em Fortaleza e ganhou o VII Concurso Tim Lopes de Jornalismo Investigativo (2013) além de ter sido finalista do prestigiado Prêmio Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano em 2015. 

Conheça um pouco mais sobre o autor na entrevista exclusiva feita no evento de lançamento do livro RAUL :

 

Reportagem: O que levou você a montar uma história jornalística em HQ? 

De Maio: Eu desenhava desde criança, lancei livros de ficção, mas em 1999 lancei uma revista que tinha quadrinhos e notícias. Aí fui levando a carreira de quadrinista até 2006. No começo da revista, em 1999, comecei a publicar as edições em quadrinhos, depois não consegui mais, pois era muita correria e só publiquei reportagens. Fiquei 10 anos publicando revistas de hip-hop. Em 2006, lancei: Os inimigos não mandam flores, que é uma ficção sobre a periferia com Ferréz e em 2010, comecei a juntar as duas coisas que já fazia: jornalismo e quadrinhos, aí comecei a publicar notícias em quadrinhos. De 2010 até 2017, lancei mais de 40 delas em sites, até mesmo em outras plataformas e precisava publicar um livro, eu sentia isso, fui juntando essa ideia na cabeça, fiz várias coisas, parei para fazer isso.

 

R: Você sempre teve apoio da sua família para fazer seus quadrinhos? 

De Maio: Não, pois desenho sempre é mal visto. Na minha família não era algo mal visto, mas sim do tipo puts, você tá desenhando? Você deveria ter uma profissão! Então, tinha um apoio que meu pai até ajudou comprar um computador, ajudou a pagar cursos, mas tinha um pouco de receio e foi difícil conseguir viver de desenho também, então, acho que tinha esse misto de apoio de um lado e também de uma certa resistência do outro.

 

R: Essa falta de apoio nos desenhos foi uma inspiração para você continuar desenhando?

De Maio: Sim, pois trabalhar com quadrinhos e conseguir fazer algo autoral é meio marginal. Você não tem muito espaço, tem um pouco desse universo de estar à margem daquilo que te dá retornoJuntou um pouco disso com a própria realidade do Brasil, que é terrível e acontece tanta coisa que sempre pensei que não queria fazer quadrinhos de super-heróis e sim, quadrinhos que ajudassem a falar da realidade e dos problemas. Tanto no jornalismo quanto nos quadrinhos, sempre busquei esse lado. Meu primeiro quadrinho já foi sobre uma bala-perdida que matou uma criança na minha rua, um “lance” falando sobre a violência e tal. Em 1998, peguei uma letra de rap que falava sobre a violência da época e fiz um quadrinho sobre isso, pois era uma época, aqui em São Paulo, que os índices de violência eram muito altos, 5 ou 6 vezes maiores do que são hoje, então, eu via aquilo: um monte de gente e amigo morrendo e pensava: “poxa, acho que dá para usar o quadrinho, o poder do desenho para dar visibilidade”.Em 1999, lancei uma revista de rap com essa ideia de ter quadrinho e dar visibilidade a quem não tem, o rap na época não tinha nenhuma visibilidade.

R: O que mais te despertou para conduzir assuntos tão à margem da sociedade?

De Maio: Minha ideia era fazer vários quadrinhos e uma entrevista no final, igual lá de fora. Então, tinha um quadrinho sobre a realidade nas ruas e tinha uma entrevista depois, aí fui procurar uma editora, eles deram mais espaço e consegui montar a revista, com 30 páginas de matéria e 30 de quadrinhos. Quando comecei a fazer essa revista, não tinha internet, então saiu como algo muito forte, saiu nas bancas de todo Brasil e vendeu muito. Como não tinha internet, você tinha que sair em todas periferias do Brasil para fazer matéria, fiquei 10 anos fazendo isso e isso me fez conhecer o Brasil da maneira que ele realmente é, todo dia tava em periferias, em manifestações, abordando temas que os raps tinham e isso foi só somando, ainda mais com esse meu olhar para os quadrinhos. Nesses 10 anos que fiquei fazendo revista de rap, me obrigou, como jornalista, a sair nesses lugares, entrevistar pessoas e conhecer todas essas realidades, isso foi me formando.

 

R: Então, o rap tenha sido o ponto de inspiração para tudo?

De Maio: Tem uma coisa que acho que é assim: “uma arte sempre inspira a outra”. Na parte artística, o rap me mostrou um caminho, como: “poxa, dá para fazer arte, dá para ser legal e dá para falar da realidade. Dá para juntar tudo isso. Nos meus quadrinhos, sempre pensava que dava para fazer um “rap em quadrinhos”. Ele conta também conta mais sobre sua obra e algumas características que ela apresenta que podem despertar uma curiosidade no leitor e diz quais serão seus próximos passos em relação à sua carreira profissional.

 

R: O livro tem algo biográfico nele? Se sim, o que tem?

De Maio: No livro, eu acompanhei esse personagem durante uns 10 anos, então, quando ele era rapper, eu tinha revista naquela época, o acompanhei de perto. O universo em que ele viveu teve uma participação na minha vida também e eu queria fazer um livro sobre isso. Para você fazer uma matéria, ajuda bem se você conhecer bem aquele universo, então, escolhi fazer uma matéria sobre rap era sobre isso também, tinha a ver com a minha vida.

 

R: Sobre não ter rosto, qual a verdadeira intenção?

De Maio: Faz o leitor prestar mais atenção na história e faz um paralelo com “essa coisa” do jornalismo em quadrinhos em que posso retratar alguém e não preciso mostrar o rosto da pessoa. Então, no jornalismo em HQS, dá para fazer isso. Tem a abordagem sobre ser invisível na sociedade e que na sociedade em que a gente vive hoje, a pessoa some na multidão e não tem rosto, tendo vários outros subtextos sobre as pessoas não terem rostos e expressões. A gente vive em um mundo em que cada um vê mais o seu, está mais preocupado em ganhar dinheiro e ninguém nem olha no olho do outro e tal.

 

R: Quais são seus próximos passos?

De Maio: Trabalhar com o livro mesmo e participar dos eventos de  jornalismo ou quadrinhos, tentar o lançamento dele em outros países. Penso em fazer outros livros, mas mais para frente. Pois agora que lancei esse é que está na metade do trabalho, acabou a parte legal de sentar e fazer a história, o trabalho começa agora mesmo.

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