Condição da mulher negra se transformou, mas racismo continua existindo

Por Ana Beatriz, Camila Naomi, Gabriel Paes, Letícia Nunes e Tuanny

 

O racismo não é algo recente da sociedade e tampouco é o feminismo. Os dois conceitos são abordados há décadas, mas a pergunta é a mesma desde o começo: quando viveremos em uma sociedade igualitária? Com base na atual conjuntura, fica difícil precisar a data em que o mundo deixará tanta crueldade e egoísmo de lado. Por isso, não podemos cruzar os braços.

Mariana Benedito, a Treze, é publicitária e recém-formada pela Belas Artes, onde apresentou sua tese sobre a “Representatividade da Mulher Negra no Brasil”. Para ela, o racismo estrutural do Brasil é o responsável por tamanha desigualdade social no país e luta, diariamente, para levantar esse questionamento nas pessoas.

Mariana: “O racismo se transformou para continuar existindo.” Foto: Fernanda Cui

Falamos sobre a representatividade que, segundo ela, tem origem na época das grandes colonizações. “O continente africano era igualmente desenvolvido ao europeu até meados do ano 400 e teve seu desenvolvimento interrompido por conta da colonização. Agora a gente vive o reflexo de todas as barbaridades que foram cometidas naquele período”.

A publicitária ressalta em sua tese que “O racismo não mudou. Ele só se transformou para continuar existindo. Os meios de comunicação, esses sim evoluíram. Hoje, você tem acesso à internet, redes sociais em que qualquer pessoa pode falar o que quiser e ser vista. Mas é um avanço tecnológico, e não social, infelizmente.”

Gabriel: O que é a mulher negra no Brasil?

Mariana: Eu acho que… eu acho não. Eu vivo, né? É muito difícil ser mulher negra no Brasil. Até os últimos acontecimentos, se você pegar qualquer índice de violência, população carcerária, pessoas que não tem estudo e acesso à informação básica, a maioria é negra. Mas quando você ainda por cima é mulher, em um país machista como o Brasil, isso te reduz a muitas coisas.

G: Tem um papo de que a corrupção veio para o Brasil junto com Portugal. E outro que diz que a corrupção é uma herança da escravidão no Brasil. Qual das duas é sua posição?

M: Eu acho que corrupção é uma coisa que, infelizmente, existe em todo o lugar. Em se tratando da história, Representatividade da mulher negra no Brasil

A questão da representatividade tem origem na infância. Você vê tudo aquilo que é parecido com você e que consequentemente constrói sua personalidade, suas falas e pensamentos. Vou falar de mim: estudei num colégio ‘de boy’, só tinha eu de criança negra. Nem professores negros eu tinha. Era eu e um monte de gente que não parecia comigo.

As meninas do colégio gostavam das princesas da Disney. E em 1989, o ano que eu nasci, lançaram a princesa Ariel. Todas as princesas são muito parecidas, né? A primeira princesa negra da Disney surgiu só em 2009. E mesmo assim, ela passa 80% do filme como um sapo, não como uma mulher negra.

Olha quantas gerações não tiveram um dos pilares que é considerado muito representativo para as crianças. Hoje eu vejo que há muito mais representatividade do que havia na minha época, mas não que seja o bastante. É muito pouco. Se você analisar o último censo do IBGE, se não me engano de 2015, vai ver que 54% da população se considera negra ou parda, e esse número pode ser muito maior.

54% da população e nós não temos isso tudo de representatividade. É muito menos. Eu vejo muita coisa na publicidade, um monte de gente branca e colocam uma negra para falarem que está lá. Poucas foram as campanhas em que negros estavam lá por outro motivo que não a cor da pele.

Teve uma campanha de rímel da Avon que inseriu os negros de forma natural, porque qualquer um pode usar rímel se quiser. Se o país fosse da forma que mostram na televisão, ele seria muito diferente do que é. Tem uma pesquisa da ONU Mulheres que mostra como seria cada país de acordo com a mídia. O Brasil seria um país 90% branco, em que as mulheres são completamente submissas e se interessam só por beleza e produtos para a casa. Isso não é real.

“É muito difícil ser mulher negra no Brasil”, diz Mariana. Foto: Fernanda Cui.

Tiago Leifert falou que representatividade é “besteira”, sendo branco. O que você pensa disso?

O que ele falou não tem base nenhuma. Nós temos que propor a representatividade, para que as pessoas se sintam representadas. A gente precisa formar uma comunidade mais plural, ter uma mídia que mostra todas as pessoas sem uma única pessoa concentrar o peso de se impor.

Quando você pensa em negros de sucesso, por exemplo a Taís Araújo e o Lázaro Ramos, eles acabam tomando muita porrada por nós, sendo que não tem como duas pessoas representarem 54% do Brasil.

Na saída, a entrevistada ironiza sobre os casos de intolerância que enfrenta diariamente: “Eu ia dizer que com racista a gente conversa no soco, mas deixa pra lá”.

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