Um mercado em expansão

Novas demandas para crianças geram oportunidades para empresas

Por Ariane Freire e Júlia Cabral

Com a expansão do capitalismo para diferentes culturas e, consequentemente, hábitos mais consumistas e individualistas nas sociedades contemporâneas, muitos mercados têm se desenvolvido em larga escala, mesmo em períodos de recessão. Segundo um estudo publicado em 2015 pelo portal “Pequenas Empresas Grandes Negócios”, um dos mercados em crescimento nos últimos anos é voltado para o público infantil. Nele, quatro setores se destacam: moda e beleza, eventos, educação e experiências.

São ramos que, para além dos objetivos comerciais, como a venda de brinquedos e materiais pedagógicos, muitas vezes são reconhecidos por incentivar uma relação de proximidade das crianças com os pais e amigos,  como acontece nos  setores de eventos e experiências. A educação, por sua vez, é considerada um investimento imaterial determinante para o futuro das crianças.

Algumas empresas atuam em mais de um segmento, atraídas pelas perspectivas de lucro e expansão. É o caso da tradicional fabricante de brinquedos Estrela, que neste ano lançará uma editora de livros, a “Estrela Cultural”, e uma linha de cosméticos para o público infantil. Embora criticado por muitos especialistas pelo aspecto de erotização da infância, o setor de moda e beleza é um dos mais lucrativos, impulsionado pela influência de jovens e crianças que, mesmo indiretamente, estimulam em canais do YouTube a compra de produtos do gênero.

Já as vendas de brinquedos, que continuaram a crescer mesmo nos piores anos da crise, devem aumentar 7% em 2018, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq). Somente a Estrela prevê 200 lançamentos nesta área, tendo como carro-chefe a linha de jogos.

Para Renato Godoy, responsável pelas relações governamentais do Instituto Alana – uma organização sem fins lucrativos que atua desde 1994 em ações de garantia e condições para a vivência plena da infância –, aspectos culturais e tecnológicos são agravantes para o consumismo entre as crianças:

Com o fenômeno cada vez mais presente na sociedade brasileira do consumo de mídia pelas crianças, em que a publicidade e o entretenimento estão no mesmo espaço, não há qualquer diferenciação de conteúdos”, afirma Godoy, que vê no aumento desta “nebulosidade” uma dificuldade ainda maior para as crianças identificarem o que é publicidade e o que é entretenimento.

Godoy também explica que o anseio e a frustração das crianças pelos produtos tão estimulados pela publicidade podem, em alguns casos, induzir os jovens a entrarem em conflito com a lei. Em 2010, por exemplo, mais de metade dos adolescentes colocados em regime de privação de liberdade na Fundação Casa estavam nessa condição por infrações relacionadas à busca compulsiva ou violenta por produtos.

 

Lógica capitalista impulsiona desigualdades

Concentração de renda favorece setores do mercado infantil, afirma economista da PUC-SP

O economista Claudemir Galvani, diretor da Metha Consultoria Empresarial e professor do Departamento de Economia da PUC-SP, afirma que um dos gastos que mais têm crescido nos últimos anos no Brasil são os relacionados a produtos e serviços para crianças e animais domésticos. Embora muitos acreditem que a alta taxa de natalidade no país seja um fator determinante para o desenvolvimento desse mercado, Galvani afirma que os lucros desse ramo não são quantitativos, e sim qualitativos.

“A renda no Brasil é uma das mais concentradas no mundo. Para a indústria não interessa a quantidade de crianças, mas sim quem pode comprar, quem tem renda”, diz Galvani. Ele acrescenta que esse modelo permite que se possa gastar mais com produtos supérfluos, o que é bom para a indústria do setor. Na visão do economista, a alta taxa de natalidade só seria favorável ao mercado se estivesse acompanhada de um aumento e uma melhor distribuição de renda entre a população.

Por: Júlia Cabral
Fonte: Abrinq

Segundo dados da Abrinq, os estados com maior participação no setor de brinquedos, em 2016, foram São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná.

Sobre a contribuição deste setor na economia, Galvani afirma que o Dia das Crianças está entre as datas mais lucrativas para o comércio, acompanhado do Dia das Mães e do Dia dos Namorados. Ele observa que as crianças têm grande poder de decisão nas compras dos pais e, em uma situação de corte de despesas, os gastos relacionados a elas são os últimos a serem dispensados.

“O mercado não olha a criança, ele olha o consumidor”

Para Galvani, é importante que esse mercado seja regulamentado e também tenha limites. Ele ressalta que, de modo geral, para as empresas não importa se o público é idoso, jovem ou criança, mas sim que ele compre.

Em 2014, a resolução 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), ligado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, fortaleceu a legislação sobre publicidade infantil, o que em tese aumenta o controle sobre as empresas. Para combater a publicidade abusiva, a resolução proíbe que o material estratégico de vendas seja direcionado às crianças. Proíbe também qualquer publicidade e comunicação mercadológica no interior de creches e escolas de educação infantil e fundamental.

“O mercado é agressivo na medida em que não tem nenhuma forma de controle. Quando você regulamenta, ele se adapta”, afirma o professor, ao debater o impacto da resolução para as indústrias do ramo infantil. Galvani defende o papel do Estado nesse equilíbrio entre proteção e lucros, afirmando que, se deixar só na “mão do mercado”, as crianças serão consideradas potenciais consumidoras e as empresas tentarão vender o máximo possível para elas.

A fundadora do Instituto Alana, Ana Lucia Villela, ao perceber que crianças tinham o consumismo presente em suas relações, decidiu criar, em 2006, o projeto Criança e Consumo, que trabalha pela conscientização da sociedade brasileira sobre a exposição da criança frente à comunicação mercadológica. O projeto abrange desde ações de educação ao suporte jurídico.

Menos brinquedos e mais interação

Com hábitos cada vez mais consumistas e uma sociedade voltada para o individualismo, muitas relações acabam se perdendo no cotidiano e sendo substituídas por relações supérfluas, tecnológicas e materiais. Embora seja um fator preocupante do ponto de vista ético-sociológico, para a economia é uma alavanca para o consumo de produtos dessa lógica materialista.

“Se os pais não podem dar carinho, não têm tempo de brincar, jogar bola com os filhos, então eles dão um brinquedo ou um iPod para eles”, diz Galvani ao questionar as novas relações.

Em contrapartida, o economista afirma que brinquedos educativos, jogos lúdicos e serviços voltados para recreação são algumas alternativas para um mercado menos agressivo e uma sociedade mais consciente em relação ao consumo, que valorize a interação social e o próprio custo-benefício de experiências mais saudáveis.

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