Por Davi Nogueira

Era sexta-feira à noite. Naquele momento Rubens Guimarães poderia engolir um cavalo inteiro, sozinho, tamanha era sua fome. A geladeira? Vazia. Não havia nada na casa além de uma pequena garrafa d’água, um pote de azeitonas velhas e uma manteiga de qualidade duvidosa. A sorte de Rubens é que o Ponto Chic ainda estava aberto. Sabendo disso, o homem, açorado, não titubeou; digitou o número da lanchonete, que sabia de cor, e fez o pedido.

Já tinham se passado oito horas desde a última vez em que Rubens comeu. A partir das 6 da manhã, quando mordiscou um pão na chapa na padaria da esquina, ele não teve descanso. Trabalhava como motoboy e, fazendo entregas por todos os cantos da cidade, sobrou tempo apenas para surrupiar um pedaço da pizza de um cliente indelicado e uma golada do guaraná de outro. Era preciso fazer isso com extrema cautela, pois o restaurante já havia recebido reclamações por causa da sua conduta. Mas Rubens não dava a menor importância. Para ele, essa ladroíce era nada menos que uma afronta à taxa de entrega deplorável que o lugar cobrava: três míseros reais, independente da distância a ser percorrida, mas o motoqueiro vivia desta gorjeta e não havia nada que ele pudesse fazer para mudar isso.

A consequência desse salário insignificante foi a vida modesta que ele levava. Morava de favor na casa do irmão mais velho, Marcos, professor de jornalismo numa faculdade à beira da falência. Toda as vezes em que Marcos ia passar o fim de semana numa soturna praia no litoral sul com a namorada, Rubens ficava sozinho em casa, esfomeado, visto que todas as suas refeições eram às custas do irmão ou dos clientes da pizzaria em que trabalhava. Por sorte, ele achou 20 reais no bolso da calça de Marcos, suficiente para pedir o famoso bauru, especialidade do Ponto Chic. A taxa de entrega, 12 reais, não era problema. Rubens nunca dava gorjeta para o entregador pois, de acordo com ele, os dois estão “no mesmo barco” portanto, como “macaco velho”, ele não deve nada a um mero colega de profissão que, além do mais, ganha um salário melhor.

Rubens Guimarães percebeu que a comida estava demorando pra chegar. Subitamente, puxou seu celular da algibeira e ligou para o restaurante:

– Alô? Já faz uma hora que fiz um pedido e o motoca não chegou até agora. Você poderia me dizer aonde ele está – perguntou, apreensivo.

– Ele não está – respondeu a atendente, antes de desligar o telefone, deixando Rubens instigado. Ele pensou em telefonar novamente, mas um barulho de moto na rua chamou sua atenção.

Quando Rubens abriu a porta para pegar o jantar, a viela estava deserta. Perplexo, voltou silenciosamente pra dentro da quitinete e começou a conjeturar sobre a resposta enigmática da mulher. O que ela quis dizer quando afirmou que o motoboy “não está”? Talvez estivesse só tirando uma com ele.Talvez não. O importante é que Rubens tornava-se cada vez mais faminto e impaciente, imaginando onde seu lanche teria ido parar. Ao ouvir o sonido de uma buzina, correu de novo para fora com a nota na mão, crente que o entregador havia chegado finalmente. Mas ao ver que estava equivocado outra vez, o indivíduo permaneceu em frente à casa, estagnado, sem acreditar no que ocorria. Poderia estar delirando? Ele nem se recordava de ter pedido a comida, tamanha era sua alheação.

Retornou à casa com um semblante pálido e confuso, de quem não conseguia assimilar os fatos – por desespero ou pura teimosia -, e ligou para outro restaurante. Este era mais bem localizado, a apenas cinco quadras. Então, por que Rubens simplesmente não foi caminhando até lá? Nem ele mesmo saberia dizer. Provavelmente suas pernas já não respondiam direito aos comandos que o cérebro enviava, devido à fome infindável que sentia. A expectativa para a entrega era de 25 minutos, de acordo com o site da esfiharia. Passado esse tempo, Rubens ligou para o lugar como fez na outra ocasião, porém, desta vez, antes que ele pudesse se manifestar, o atendente interveio:

– Rubens, o motoboy não está. Você precisa aceitar.

Agora ele notou que o negócio era pessoal. Caso contrário, como saberiam o seu nome? O sujeito não tinha outra escolha a não ser esperar quanto tempo fosse necessário e torcer para que não o estivessem observado, ou instalado escutas na residência. Pensou em todas as pessoas que pudessem ter algo contra ele – e não eram poucas. Como gostava de lembrar, Rubens era um macaco velho no ramo da entrega a domicílio. Já trabalhara para vários estabelecimentos diferentes, de papelarias a escritórios de advocacia e em todos eles, sem exceção, adquirira inimigos.

A sensação de Rubens naquele momento se traduzia em uma mistura de medo, angústia, indignação e, acima de qualquer coisa, fome, afinal esta fora a principal causa disso tudo. A fome o levara a furtar as refeições dos clientes e era ela quem deixava o homem paranoico, fazendo-o pensar que todo ruído que ele ouvia na rua seria o do motoboy chegando com sua comida. Ele só queria isto, nada mais. Rubens estava deitado no chão frio do casebre, desolado, quando ouviu uma buzina. Pensou em ir lá fora checar, mas presumiu que seria feito de trouxa novamente e permaneceu ali, em posição fetal. A mesma buzina soou de novo. Desta vez ele tinha certeza; levantou no ato e correu como um leopardo para fora. Contudo, ao abrir a porta, foi surpreendido por uma fila de entregadores que ia até o outro quarteirão. Por esta fila eles passavam, de mão em mão, o tão esperado bauru. Este era muitas vezes maior do que o original e, de acordo com um dos entregadores, havia sido feito especialmente para o senhor Rubens Guimarães:

– Devido à considerável demora na entrega do seu pedido, nós, motoboys da Grande São Paulo, trouxemos a você um lanche especial, que ainda não foi lançado pelo restaurante. Você terá o privilégio de ser a primeira pessoa a prová-lo. E tem mais: o lanche do senhor foi pago por todos nós!

Todos os entregadores esbanjavam um sorriso perturbador em seus rostos, olhando fixamente para Rubens. Este, com cara de poucos amigos, nem lhes agradeceu. Apenas apanhou o lanche das mãos do homem e entrou na casa. O pesadelo havia acabado. Até que enfim ele ia comer. O bauru gigante estava deleitável, tanto que o homem nem parou para pensar na gentileza excessiva dos entregadores, ou nas repostas misteriosas dos atendentes. Antes que Rubens Guimarães pudesse conjeturar sobre aqueles acontecimentos esquisitos e concluir que era tudo um complô dos motoboys contra ele, batata! O sujeito desabou prontamente da cadeira, inerte. Seu sanduíche estava envenenado.

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